O Legado Incômodo de Huntington: Como o “Choque de Civilizações” Moldou o Século XXI
Há 30 anos, em 1993, o artigo “The Clash of Civilizations?”, de Samuel Huntington, gerou alvoroço no meio acadêmico. Em plena queda do Muro de Berlim e com o discurso de “fim da história” de Francis Fukuyama, Huntington ousou prever que os conflitos globais deixariam de ser ideológicos e passariam a ser definidos por identidades culturais e civilizacionais.
A tese, que virou livro em 1996 sem o ponto de interrogação, foi amplamente criticada. Contudo, o tempo e os eventos globais demonstraram uma precisão surpreendente em diversas de suas previsões centrais. Embora simplificadora, a análise de Huntington sobre a política internacional resistiu ao teste dos fatos de forma inegável.
Conforme informação divulgada pela Foreign Affairs, a teoria de Huntington, apesar das críticas, acertou em pontos cruciais sobre o futuro das relações internacionais. Nos próximos tópicos, vamos explorar cinco dessas previsões que se concretizaram, moldando o mundo em que vivemos hoje.
1. A Ascensão das Identidades Culturais sobre a Ideologia
A principal aposta de Huntington foi a substituição da polarização ideológica entre capitalismo e socialismo por disputas baseadas em religião, nacionalidade, etnia e identidade cultural. Essa previsão ganhou contornos dramáticos com os atentados de 11 de setembro de 2001, onde a retórica de Osama bin Laden era nitidamente religiosa e civilizacional, ecoada posteriormente por grupos como o Estado Islâmico.
Esse fenômeno não se limitou a uma região. Na Índia, Narendra Modi fortaleceu o nacionalismo atrelado à identidade hindu. Na Hungria, Viktor Orbán passou a defender a “civilização cristã”, e na China, Xi Jinping associa o poder nacional ao “rejuvenescimento da civilização chinesa”. O vocabulário civilizacional, outrora visto como anacrônico, voltou a dominar o debate político global.
2. O Declínio Relativo do Poder Ocidental
Huntington não previu o colapso do Ocidente, mas sim uma diminuição de sua supremacia relativa. Ele antecipou que outras civilizações, em especial a sínica, expandiriam sua influência econômica, política e militar. A China, de fato, emergiu como principal rival estratégico dos EUA, buscando hegemonia regional e resistindo à liberalização política imposta pelo Ocidente.
As décadas seguintes confirmaram essa tendência. A China se tornou a segunda maior economia mundial, expandiu sua presença militar e sua influência global com a Iniciativa Cinturão e Rota, modernizando-se sem adotar modelos políticos ocidentais. A expectativa de convergência política com o crescimento econômico falhou, e o conceito de “balancing”, onde países buscam equilíbrio contra o poder ocidental, ganhou força com o crescimento do BRICS e a aproximação entre Rússia e China, evidenciando o fortalecimento do “Sul Global”.
3. Modernização sem Ocidentalização
Contrariando a crença dos anos 1990 de que globalização e internet levariam à ocidentalização, Huntington argumentou que países poderiam se desenvolver economicamente e se integrar à economia global sem abandonar suas tradições culturais e políticas. O desenvolvimento, em alguns casos, poderia até fortalecer identidades nacionais.
A China é o exemplo mais proeminente dessa tese, construindo uma economia sofisticada e uma classe média urbana sem adotar o pluralismo político ocidental. A Rússia, após uma aproximação inicial, passou a enfatizar elementos nacionais e religiosos sob Vladimir Putin. Na Turquia, Recep Tayyip Erdoğan aproximou o discurso político da identidade islâmica nacional. A Primavera Árabe também demonstrou que modernização econômica e tecnológica não garantem homogeneização cultural ou convergência política, muitas vezes resultando em instabilidade.
4. O Mundo Islâmico e Conflitos Regionais
Um dos pontos mais controversos de Huntington foi sua análise sobre o crescimento populacional no mundo islâmico e seu potencial para ampliar tensões regionais e crises migratórias, o que ele chamou de “fronteiras sangrentas do Islã”. Embora alarmista para alguns na época, esse cenário se materializou em décadas de guerras civis, radicalização religiosa e colapsos econômicos no Oriente Médio, Sahel e Afeganistão.
Esses conflitos geraram grandes fluxos migratórios para a Europa, impulsionando o crescimento de partidos nacionalistas e o debate sobre fronteiras e identidade nacional no continente. Embora o conceito de “fronteiras sangrentas” seja controverso e não explique sozinho a complexidade dos conflitos, Huntington antecipou com precisão o crescente peso dos fatores culturais e religiosos na instabilidade internacional.
5. A Atração de Aliados Civilizacionais em Conflitos
Huntington introduziu a ideia de “fault line wars”, conflitos em fronteiras civilizacionais que atraem apoio de países culturalmente próximos. Ele observou isso na Guerra da Bósnia, onde países ortodoxos apoiaram sérvios e nações islâmicas os bósnios muçulmanos, um padrão que se repetiu em outras regiões.
A guerra na Ucrânia reacendeu esse debate. Huntington classificou a Ucrânia como “país dilacerado”, dividido entre influências ocidentais e russas. Embora a guerra tenha causas complexas, a dinâmica internacional reproduziu parcialmente o padrão: países ocidentais apoiaram Kiev, enquanto a Rússia aprofundou laços com China, Irã e Coreia do Norte. Em muitos conflitos recentes, afinidades históricas, culturais e religiosas pesaram tanto quanto, ou até mais que, interesses estratégicos tradicionais.
A teoria de Huntington, apesar de suas simplificações e de ignorar divisões internas importantes, demonstrou uma notável capacidade de prever tendências globais. A religião, a cultura e a identidade continuam a moldar a política internacional de forma muito mais intensa do que o otimismo liberal dos anos 1990 imaginava, deixando um legado incômodo e persistente.