Pequenos negócios e padrão internacional põem Sul do Brasil no topo da queijaria mundial
A região Sul do Brasil se consolida como um polo de excelência na produção de queijos, reunindo clima favorável, terroir diversificado e uma forte tradição de colonização europeia. Estados como Santa Catarina e Paraná têm se destacado, transformando sua herança cultural em produtos reconhecidos internacionalmente, rivalizando e superando nações com longa história na produção de laticínios.
Na 4ª edição do Mundial do Queijo do Brasil, realizada em São Paulo, o grande destaque foi para uma pequena queijaria familiar catarinense, que levou o prêmio máximo. Mais de 2 mil queijos de 30 países foram avaliados por um corpo de 300 jurados experientes, confirmando a crescente qualidade e competitividade dos queijos brasileiros no cenário global.
Os produtores do Sul apresentaram uma rica diversidade de técnicas e tradições regionais, resultando em queijos com texturas, aromas e sabores que impressionaram os avaliadores. Santa Catarina obteve 39 premiações, enquanto o Paraná conquistou 45, demonstrando a força e a qualidade da produção em ambos os estados. Conforme informação divulgada pelos organizadores do evento, o queijo Reserva do Vale, da Queijos Possamai em Pouso Redondo (SC), foi eleito o melhor queijo do mundo, feito que se repete pela segunda vez consecutiva para Santa Catarina.
Clima e Terroir: A Dupla Vantagem do Sul para Queijos de Excelência
A presidente da 4ª edição do Mundial de Queijos, Débora Pereira, ressalta que o clima mais frio e úmido do Sul do Brasil é um diferencial crucial. “A boa vantagem do Sul é que o clima mais frio e úmido favorece curas de queijos mais controladas, com menos defeitos, os sabores de ranço são menos presentes”, explica. Ela também destaca o potencial dos Campos Gerais, no Paraná, como um excelente terroir para queijos, ecoando descrições históricas de paisagens exuberantes.
Marlon Possamai, proprietário da Queijos Possamai, detalha que o premiado Reserva do Vale é um queijo autoral maturado, com massa semicozida. Ele foi desenvolvido para expressar a identidade única do terroir da fazenda, localizada no Alto Vale do Itajaí. O termo terroir engloba a combinação de fatores ambientais e humanos que conferem características únicas a um produto agrícola.
A maturação do Reserva do Vale dura cerca de 12 meses. Por ser um queijo de produção limitada e alto valor agregado, o preço por quilo ainda está em definição para comercialização mais ampla. Possamai enfatiza que “o diferencial está na matéria-prima, que vem integralmente da nossa produção”.
Ele também aponta como diferenciais “o leite ordenhado ao amanhecer e processado logo em seguida, além da seleção específica de fermentos e do processo de maturação, que favorece o desenvolvimento de cristais de tirosina e notas de amêndoas e caramelo”. A família Possamai obteve, no mesmo mundial, medalhas com outros nove produtos.
Pequenas Queijarias Alcançam Padrões Internacionais com Inovação e Certificação
A certificação obtida pelo Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA) foi fundamental para a Queijos Possamai. Marlon Possamai afirma que a certificação “abriu novas possibilidades comerciais e permitiu acessar mercados além da atuação regional”. Isso permitiu “estruturar melhor a operação, ampliar a distribuição e profissionalizar ainda mais nossos processos internos, mantendo controle de qualidade, rastreabilidade e padronização”.
Andressa Dalila Bianchi, presidente da Associação dos Produtores de Queijo Artesanal de Santa Catarina (Artequeijo SC), corrobora a importância dos fatores locais. “O clima mais ameno, especialmente nas regiões de altitude, contribui para uma produção de leite com melhor estabilidade microbiológica e composição equilibrada”, o que impacta diretamente na qualidade do queijo.
A forte influência da colonização europeia trouxe consigo uma cultura queijeira rica, com tradição no manejo do leite e valorização de produtos artesanais. Bianchi observa que isso se reflete tanto nas técnicas quanto no cuidado com o processo produtivo. A diversidade de terroirs dentro do estado, como regiões de altitude, vales úmidos e áreas mais frias, permite a produção de diferentes estilos de queijo.
“Essa combinação de clima, cultura e diversidade territorial é algo que poucos estados conseguem reunir com tanta harmonia”, avalia a presidente da Artequeijo SC. Ela reforça que “não é o tamanho da operação que define a qualidade do produto, mas sim o cuidado com o processo, a matéria-prima e a identidade do queijo”. As premiações de queijos catarinenses inspiram outros produtores e fortalecem a ideia de que pequenas agroindústrias podem, sim, alcançar padrões internacionais, sinalizando maturidade do setor.
Paraná Brilha no Mundial com Queijos de Alta Qualidade e Sabores Únicos
O Paraná também se destacou no Mundial do Queijo, com quatro queijos conquistando o selo “Super Ouro”, o nível máximo da premiação. Este reconhecimento é concedido a produtos com pontuação próxima da perfeição pelos jurados.
Entre os paranaenses premiados está o queijo Abaporu, da Queijaria Flor da Terra (Toledo), descrito como uma releitura contemporânea de técnicas tradicionais, com maturação que incorpora madeiras aromáticas nativas, resultando em alta cremosidade e sabores complexos. O queijo Witmarsum tipo gouda, da Cooperativa Agroindustrial Witmarsum, foi elogiado por seu sabor intenso que remete a nozes, ideal para derreter em pratos quentes.
A Queijaria Deleite apresentou seu queijo frescal como uma produção simples, mas com diferencial no frescor e na qualidade da matéria-prima. O queijo Vale do Heimtal, após um ano de maturação, oferece sabor adocicado e textura cremosa, com sua produção ocorrendo em um terroir específico no vale do rio Jacutinga, garantindo umidade e temperatura ideais.
De Palmeira, o queijo Bacchus, do Ateliê Lotschental, ficou com o 2º lugar na categoria “Campeão dos Campeões”. Matura por cerca de seis meses com borra de vinho, resultando em massa macia, levemente adocicada e picante. Já o queijo Passionata, da queijaria Flor da Terra, conquistou o 3º lugar na mesma categoria, com maturação com infusão de maracujá, flores comestíveis e sementes da fruta.
Cadeia Leiteira Forte e Inovação Impulsionam o Setor no Paraná
A tradição queijeira do Paraná está intrinsecamente ligada à força de sua cadeia leiteira, que ocupa a segunda posição no ranking nacional de produção de leite, atrás apenas de Minas Gerais. Segundo o Sistema Faep, a produção anual de leite no Paraná supera 4,4 bilhões de litros, com um Valor Bruto de Produção (VBP) de R$ 12,1 bilhões, evidenciando o peso econômico do setor.
O modelo de formação de queijeiros no Paraná, conduzido pelo parque tecnológico Biopark em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), aposta em método e assistência técnica rigorosa. O programa visa permitir que famílias rurais produzam itens de alto valor agregado, com potencial de alcançar até três vezes o preço de um produto convencional.
Kennidy de Bortoli, pesquisador do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Queijos Finos do Biopark, afirma que “desenvolvemos queijos que estimulam diferentes sentidos, com variações de textura, temperatura e impacto visual. Quando o consumidor se surpreende a cada etapa da degustação, o produto deixa de ser apenas um alimento e passa a contar uma história”. Este projeto recebeu um investimento de R$ 3,8 milhões do governo do Paraná.