Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga escolas de drones operadas por traficantes, enquanto PCC em São Paulo foca em logística e vigilância.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro aponta para uma nova e preocupante frente de atuação do crime organizado: o treinamento de seus membros no uso de drones. Relatos indicam que, em agosto, dezenas de pessoas participaram de aulas sobre operação de drones em comunidades como o Complexo da Penha, com instrutores apontados como traficantes locais.
Em fases anteriores, a expertise técnica vinha de fontes externas, como um cabo da Marinha preso por desenvolver dispositivos e treinar criminosos. Essa abordagem demonstra uma tentativa de capacitação interna, tornando a organização menos dependente de fornecedores externos e mais autônoma em suas operações aéreas.
No Rio, a novidade é o uso de drones para lançar granadas contra alvos específicos, como carros, telhados e até mesmo festas de rua. Essas ações, que já resultaram em feridos e em uma mobilização policial intensa, são documentadas por perícias e investigações em andamento, conforme informações da Polícia Civil. A suspeita de treinamento inspirado na guerra da Ucrânia também é uma avaliação de inteligência em curso.
A estrutura de defesa e ataque aéreo no Rio de Janeiro
O uso de drones para ataques no Rio de Janeiro tem levado a medidas drásticas por parte das facções, como a cobertura de ruas inteiras em comunidades como o Complexo do Alemão e o Rebu. Segundo o coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT) da Polícia Civil, essas estruturas visam barrar artefatos lançados por rivais e dificultam o monitoramento policial, alterando unilateralmente o espaço público.
As denúncias sobre drones com granadas aumentaram significativamente em 2024. O Disque Denúncia registrou o primeiro relato em 2023 e, no ano seguinte, quatro ocorrências. Contagens posteriores indicam até 73 denúncias envolvendo traficantes e 14 relacionadas a milicianos. A Polícia Civil investiga atualmente 18 ocorrências, com ataques documentados e prisões em andamento.
O PCC em São Paulo: drones para logística e vigilância, não para ataques aéreos
Em contraste com o cenário carioca, o Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo opera drones há anos, mas com focos distintos. As duas frentes documentadas pela polícia são a entrega de materiais a presidiários e a vigilância de alvos específicos. A organização tem demonstrado acesso a equipamentos e domínio de suas operações, inclusive para monitorar autoridades.
Apesar do domínio tecnológico, não há registro público de ataques com explosivos lançados por drones atribuídos ao PCC em São Paulo. A diferença reside na forma como cada facção governa seu território e em seus objetivos estratégicos. O PCC, que organiza mercados e arbitra dívidas, depende da continuidade dos negócios.
Estratégias distintas: o controle territorial versus a organização de mercados
O Comando Vermelho, no Rio, baseia seu poder na exclusão armada do território, utilizando drones para estender esse controle para o ar e atingir posições inimigas. Já o PCC, em São Paulo, prioriza a estabilidade para manter seus negócios ilícitos funcionando. Um ataque com granada, como os vistos no Rio, atrairia uma resposta policial de grande porte e desorganizaria o comércio que financia a estrutura do PCC.
Carlos Eduardo da Silva, policial civil aposentado com 23 anos de experiência em São Paulo, explica que, em organizações como o PCC, operações de grande porte que geram prejuízos ou atraem forte resposta policial são evitadas. A decisão sobre o uso de explosivos não seria delegada a um executor com controle remoto, dada a complexidade e o risco inerente.
O futuro do uso de drones pelo crime organizado e as contramedidas estatais
Embora ambas as facções utilizem drones para vigilância e transporte, a visibilidade dos ataques no Rio tem impulsionado respostas estatais mais ostensivas, como detecção, bloqueio de sinal e aquisição de equipamentos antidrone. Contudo, essas contramedidas atuam sobre o vetor aéreo sem necessariamente atingir a estrutura logística e econômica que o emprega.
Novas regulamentações da Anac e do Decea, que exigem cadastro, autorização de voo e homologação de drones, visam aumentar a rastreabilidade. O ponto crucial a ser observado em São Paulo é se o PCC passará a utilizar drones para funções regulares na logística de seus mercados ilícitos, um emprego que, diferentemente dos ataques aéreos, dificilmente geraria a mesma visibilidade midiática.