A indústria sucroalcooleira, já pressionada por custos e clima, enfrenta um novo desafio global: o crescente uso de canetas emagrecedoras. Medicamentos injetáveis como Ozempic e Mounjaro, conhecidos como GLP-1, estão mudando hábitos alimentares e reduzindo drasticamente a demanda por açúcar, levando os preços da commodity a mínimas de cinco anos.
Esses medicamentos, indicados para diabetes tipo 2 e obesidade, promovem uma intensa sensação de saciedade, fazendo com que os usuários consumam menos alimentos, especialmente doces e bebidas açucaradas. A consequência direta é uma queda expressiva nos preços do açúcar no mercado internacional.
Essa tendência, que começou a ganhar força nos Estados Unidos, já se espalha pelo mundo, afetando diretamente países como o Brasil, o maior exportador de açúcar do planeta. O impacto é sentido tanto nas exportações quanto no mercado interno, com a saca de açúcar cristal branco em São Paulo atingindo seu menor valor nominal desde outubro de 2020.
Queda nos Preços do Açúcar Atinge Mínimas Históricas
Os contratos futuros do açúcar bruto, referência global, caíram abaixo de US$ 0,14 por libra, **sua menor cotação em cinco anos**. Em um ano, a desvalorização acumulada chega a 29%. Tradings como a Czarnikow e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) já citam nominalmente a classe de medicamentos GLP-1 como um fator de risco para o mercado da commodity.
O USDA, em seu último relatório, destacou que a redução no consumo de alimentos e bebidas, impulsionada pela popularidade dos medicamentos GLP-1, contribui para a incerteza da demanda. Com um crescimento estimado de apenas 1,4% no consumo mundial, os estoques globais devem aumentar 5%, pressionando ainda mais os preços para baixo.
Impacto no Brasil e no Mercado Doméstico
O Brasil, responsável por cerca de 23% da produção global de açúcar, sente diretamente essa tendência. No mercado interno, o preço da saca de 50 kg de açúcar cristal branco em São Paulo chegou a R$ 98,14 em 26 de outubro, um valor não visto desde outubro de 2020. Desde o início de 2025, o recuo já é de 39%, segundo o Cepea/USP.
O “efeito Ozempic” não se limita aos EUA, com estoques de açúcar crescendo na Europa devido à rejeição de consumidores a produtos açucarados. Relatórios de instituições financeiras como Morgan Stanley e Goldman Sachs projetam que o uso generalizado desses medicamentos pode reduzir o consumo de açúcar em bilhões, forçando empresas a adaptarem seus produtos.
Adaptação da Indústria Sucroalcooleira e Perspectivas Futuras
A indústria sucroalcooleira brasileira possui uma vantagem: a flexibilidade para direcionar a safra para a produção de etanol, caso o mercado de açúcar se torne menos atrativo. No entanto, essa mudança também pode levar a uma queda no preço do etanol devido ao aumento da oferta.
A quebra da patente da semaglutida, molécula chave em muitos desses medicamentos, prevista para março no Brasil e ainda este ano em outros mercados, deve ampliar significativamente a popularização dessas canetas emagrecedoras. Isso reforça a necessidade de o setor sucroalcooleiro se adaptar a essa nova realidade de consumo global.
No varejo brasileiro, o impacto já é visível. O CEO do Assaí Atacadista observou que o aumento da saciedade leva a uma redução na quantidade de alimentos consumidos e a uma maior procura por itens saudáveis e proteicos, alterando os padrões de compra.