Gilmar Mendes repete “Efeito Barbra Streisand” ao tentar silenciar críticas, mas amplifica o debate sobre o STF e suas ligações.
A história nos ensina que certas ações, embora movidas pela intenção de conter algo, acabam por impulsioná-lo. O fenômeno conhecido como “Efeito Barbra Streisand” descreve exatamente isso: a tentativa de ocultar ou silenciar algo que, na prática, atrai mais atenção para o assunto. E é exatamente esse o cenário que se desenha no Brasil, com os recentes movimentos do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A polêmica teve início com a série satírica de marionetes “Os Intocáveis”, idealizada pelo pré-candidato à Presidência, Romeu Zema. A obra mirava ministros do STF, expondo supostos abusos e ligações questionáveis com o banqueiro Daniel Vorcaro. Inicialmente, a série gerou algum burburinho, mas a decisão de Gilmar Mendes de reagir judicialmente acabou por catalisar sua disseminação.
Conforme apurado, o ministro Gilmar Mendes, sentindo-se alvo da crítica satirizada, protocolou uma notícia-crime junto ao ministro Alexandre de Moraes. O pedido era para que Romeu Zema fosse investigado no âmbito do inquérito das fake news, procedimento que tramita sob sigilo no STF. Contudo, a iniciativa midiática de Mendes, incluindo entrevistas concedidas, acabou por jogar holofotes sobre a própria figura do ministro e as críticas direcionadas a ele e ao Supremo.
A repercussão da notícia-crime e as falas de Gilmar Mendes
A ação de Gilmar Mendes, ao invés de sufocar as críticas, parece ter dado a elas um alcance ainda maior. O ministro, em suas declarações públicas, afirmou que o inquérito das fake news perdurará até o seu fim natural, sugerindo sua continuidade pelo menos até as eleições. Tal posicionamento foi interpretado por muitos como uma forma de intimidação a potenciais críticos do STF durante o período eleitoral.
Em uma declaração que gerou grande repercussão, Gilmar Mendes ironizou o sotaque de Romeu Zema, comparando-o a um “dialeto por vezes incompreensível”. A resposta de Zema foi rápida e contundente, viralizando nas redes sociais: “Sabe por que você não entende o que eu falo, ministro? Porque o linguajar de brasileiro simples é diferente do português esnobe dos intocáveis de Brasília.” Zema ainda adicionou que o problema não era a compreensão de suas palavras, mas sim a falta de entendimento dos brasileiros sobre os atos dos ministros.
Ofensas e o “Efeito Barbra Streisand” se intensificam
A situação se agravou com uma declaração onde Gilmar Mendes comparou a possibilidade de bonecos de Zema serem retratados como homossexuais a cenas de roubo de dinheiro público. Essa fala foi amplamente criticada por igualar, de forma pejorativa, homossexualidade com criminalidade. Novamente, o que se pretendia era o silenciamento, mas o resultado foi a amplificação das críticas e a exposição de uma possível homofobia velada.
O “Efeito Barbra Streisand” se manifestou de forma clara, pois a tentativa de reprimir o conteúdo satírico resultou em um dano de proporções muito maiores para a imagem do ministro. Apesar das falas controversas, Gilmar Mendes sinalizou que não recuará, declarando em suas redes sociais que enfrentará a “indústria de difamação e de acusações caluniosas contra o Supremo”.
Pedido de desculpas e a nota da comunidade no X
Posteriormente, Gilmar Mendes buscou se desculpar pela comparação entre ladrão e homossexual. No entanto, a retratação não foi bem recebida e gerou ainda mais reações negativas. Uma nota da comunidade na plataforma X (antigo Twitter) lembrou que, segundo a própria jurisprudência do STF, homofobia e transfobia são equiparadas ao crime de racismo, sendo inafiançáveis e imprescritíveis. A nota ressaltou que não caberia retratação para extinguir a punibilidade nesses casos, o que, na prática, significaria que o pedido de desculpas de Mendes configuraria uma admissão de culpa em um crime imprescritível.
O episódio ressalta a ironia da situação, pois o próprio Gilmar Mendes, que se sentiu ofendido por uma piada do senador Sergio Moro, acabou se tornando um “injuriador” ao proferir declarações consideradas ofensivas e discriminatórias. A tentativa de censura, portanto, reverberou em um debate público mais amplo sobre a conduta e as falas de membros da Suprema Corte.