Guerra no Irã: Alívio Temporário para Putin, Mas Dívidas Russas Persistem e Preocupam
A Rússia, sob o comando de Vladimir Putin, encontrou um fôlego inesperado com a intensificação do conflito no Irã. A crise no Oriente Médio impulsionou os preços do petróleo e gás, commodities essenciais para a economia russa, oferecendo um alívio financeiro em um momento de grande apreensão econômica. No entanto, especialistas alertam que este benefício pode ser apenas temporário, pois os problemas estruturais das contas públicas russas permanecem.
Antes da eclosão da guerra no Irã, a Rússia enfrentava um cenário econômico sombrio. A decisão da Índia de suspender a compra de petróleo russo, sob pressão dos Estados Unidos, e a paralisação de parte significativa de sua capacidade de exportação devido a ataques ucranianos à infraestrutura do setor, pintavam um quadro pessimista para o Kremlin. A situação se agravava com a apreensão de navios petroleiros russos.
A escalada da tensão no Oriente Médio, com o bloqueio do Estreito de Ormuz e a consequente alta nos preços da energia, somada a uma retirada parcial das sanções americanas sobre exportações russas, trouxeram um respiro para Moscou. A Rússia, que tem colaborado com o Irã com drones e inteligência militar, busca uma guerra prolongada para maximizar os ganhos com a alta do petróleo. Contudo, conforme apontam analistas, a guerra no Irã não é suficiente para solucionar o gargalo crônico do déficit público russo.
Déficit público em ascensão e gastos militares descontrolados
O déficit orçamentário consolidado da Rússia disparou, saltando de 1,7% do PIB para 3,9% em 2025. Sergei Shelin, analista econômico do The Moscow Times, aponta que, embora a alta do petróleo evite o pior cenário, o déficit continuará a crescer devido à queda nas receitas não ligadas à energia. A principal preocupação para Putin reside nos gastos com a guerra na Ucrânia, que têm superado as projeções anualmente desde 2022.
Dados do Banco Mundial revelam um aumento expressivo nas despesas militares russas, que subiram de 3,6% do PIB em 2021 para 7,1% em 2024. Igor Lucena, economista e doutor em relações internacionais, acredita que o alívio financeiro proporcionado pela guerra no Irã será passageiro, prevendo uma resolução rápida do conflito no Oriente Médio. Ele ressalta que a atual “economia de guerra” russa, onde os investimentos em defesa compensam perdas em outros setores, não é sustentável a longo prazo.
Dependência energética e controle de poder
Lucena destaca que a Rússia possui setores com potencial para diversificar sua economia, como as indústrias automobilística, de luxo e o turismo. No entanto, o presidente Putin não demonstra interesse nessa diversificação. Segundo o especialista, a interferência governamental em empresas e a necessidade de manter outros países dependentes da energia russa são estratégias para consolidar seu poder.
Liberar o fluxo de capital para o desenvolvimento de gigantes empresariais internacionais significaria, para Putin, a perda de poder político para o poder econômico. Essa dinâmica explica a relutância em promover uma diversificação econômica que poderia abalar sua base de sustentação.
Putin descarta cortes de gastos, aposta em ouro e doações
Para reforçar o caixa, a Rússia vendeu aproximadamente 15 toneladas métricas de ouro de suas reservas nos primeiros dois meses do ano, a maior quantidade desde 2002, segundo o Conselho Mundial do Ouro. Além disso, o Kremlin admitiu que oligarcas se ofereceram para financiar a guerra na Ucrânia, em meio a relatos de que Putin teria pedido doações diante do crescente déficit público.
Apesar das contas públicas descontroladas, o governo russo, por ora, descarta cortes nos gastos públicos. Embora tenha cogitado cortes de 10% em despesas “não sensíveis” este ano, excluindo os gastos militares, fontes da Bloomberg indicam que essa medida foi descartada. A prioridade permanece em manter o aparato militar, mesmo que isso signifique aprofundar o rombo nas finanças do Estado.