A indicação de Jorge Messias ao STF se tornou um teste para a força política de Lula no Senado, revelando dificuldades de articulação e a crescente influência de Davi Alcolumbre.
Mais de três meses após o anúncio, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ainda não formalizou o envio da mensagem de Jorge Messias ao Senado para sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Este impasse, o mais longo em seu terceiro mandato, evidencia a **fragilidade da articulação política do Planalto** na Casa.
A demora reflete a dificuldade em angariar os votos necessários para a aprovação, com levantamentos indicando um apoio declarado de apenas 25 senadores, bem abaixo dos 41 exigidos. O cenário na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) também é apertado, com 10 votos a favor, sete contrários e dez indecisos.
Nos bastidores, senadores atribuem o atraso à avaliação governamental de que ainda faltam votos suficientes. A situação se agrava pelo desgaste na relação entre o Planalto e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que é o responsável por pautar a sabatina. Conforme informações divulgadas, a escolha de Messias contrariou a preferência de Alcolumbre pelo nome de Rodrigo Pacheco, o que teria esfriado o diálogo. Essa informação foi divulgada por fontes próximas ao senador.
Calendário Eleitoral e Articulação Política em Risco
O cenário eleitoral de 2024 também impacta diretamente o andamento da indicação. Senadores priorizam articulações para as eleições municipais, e a avaliação nos bastidores é de que a análise da indicação ao STF pode ser postergada para depois de outubro. Parlamentares admitem pouco incentivo político para acelerar a sabatina de Messias neste momento, visto que uma votação em ano eleitoral pode gerar desgaste com o eleitorado.
O funcionamento semipresencial do Senado nas últimas semanas, com sessões majoritariamente remotas, dificulta ainda mais a articulação política. Parlamentares contrários à indicação defendem que o tema seja discutido apenas após as eleições, um cenário que poderia tornar a aprovação ainda mais difícil em caso de uma eventual derrota de Lula na disputa presidencial. Senadores de oposição veem na sabatina uma oportunidade de obter visibilidade eleitoral, conforme aponta o cientista político Magno Karl.
Alcolumbre Ganha Poder de Veto Informal com a Fragilidade do Governo
A dificuldade em avançar com a indicação ao STF amplia a dependência do Palácio do Planalto em relação ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo Magno Karl, o presidente do Senado controla pauta, agenda e o ritmo da articulação informal, o que, em um cenário de fragmentação e governo sem maioria confortável, se traduz em uma **capacidade de veto informal** sobre o tempo e as condições de aprovação.
O episódio revela os limites da capacidade de articulação do governo Lula em temas sensíveis. O terceiro mandato de Lula não conta com uma maioria parlamentar que garanta conforto em decisões politicamente custosas. Indicações ao STF são votações em que aliados podem pedir contrapartidas ou exibir insatisfações, como aponta Karl.
Sinais de Resistência e Negociação no Congresso
O histórico recente do Senado reforça um ambiente de maior cautela para o governo. A recondução do procurador-geral da República, Paulo Gonet, em novembro passado, apesar de aprovada, registrou uma queda significativa no apoio parlamentar, caindo de 65 para 45 votos. Essa redução foi interpretada como um sinal de maior resistência a indicações do Executivo.
O próprio comando do Senado se beneficia desse cenário, com Alcolumbre tendo mais uma chance de barganhar com o governo temas de seu interesse. Sem uma maioria sólida, o governo Lula é obrigado a negociar a aprovação no varejo, aumentando a complexidade e a duração de processos como a indicação ao STF. Essa negociação individualizada é um reflexo direto da **fragilidade política de Lula no Senado**.