PT mantém força eleitoral apesar do desgaste: Entenda as semelhanças e diferenças entre governos e o cenário para 2026
Dez anos após o impeachment de Dilma Rousseff, o governo do presidente Lula exibe sinais de desgaste que remetem à gestão da ex-presidente. Críticas à política econômica, pressão sobre as contas públicas, dificuldades de governabilidade e queda de popularidade sustentam essa comparação.
Contudo, uma diferença crucial reside na capacidade de articulação política de Lula. Mais experiente, o presidente tem mantido uma relação pragmática com o Centrão, grupo fundamental para a governabilidade. Essa aliança explica, segundo analistas, por que o petismo chega competitivo à disputa pela reeleição, mesmo com o desgaste e as semelhanças com o governo Dilma.
A principal convergência apontada por especialistas está na economia. Tanto o primeiro mandato de Dilma quanto o terceiro de Lula, no período pré-eleitoral, foram questionados quanto à sustentabilidade das contas públicas e à capacidade do Estado de manter a expansão dos gastos. Essa análise foi divulgada por veículos como a Gazeta do Povo.
Economia em Xeque: Paralelos entre Lula e Dilma
No fim do primeiro mandato de Dilma, a chamada nova matriz econômica, com incentivos setoriais e maior participação estatal, gerou resultados frustrantes, como a deterioração fiscal e a perda de confiança de investidores, abrindo caminho para a recessão. Christian Lohbauer, doutor em Ciência Política pela USP, vê semelhanças com a atual estratégia econômica de Lula.
Lohbauer avalia que a ampliação dos gastos públicos e o crescimento da dívida em relação ao PIB reproduzem parte da lógica adotada pela gestão Dilma. “É uma reprodução piorada de um modelo absolutamente fracassado de endividamento, que acha que endividamento não tem limite”, afirma.
Ricardo Caldas, professor de Ciência Política na UnB, também identifica paralelos. Para ele, a pressão sobre as contas públicas, o avanço do endividamento e as dúvidas sobre a sustentabilidade de programas sociais e investimentos sem ampliar desequilíbrios fiscais tendem a gerar um desgaste semelhante ao observado no fim do primeiro mandato de Dilma.
“Mesmo que o Lula consiga ser reeleito, a pressão sobre ele vai ser muito grande, porque ele forçou as contas públicas de uma forma tal que ele não tem como manter esse modelo. Esse modelo que ele criou é insustentável”, diz Caldas.
Caldas aponta que Lula enfrenta desgaste em parte da classe média e em setores empresariais, industriais e do agronegócio. Mesmo entre grupos tradicionalmente próximos ao governo, há insatisfação ligada à perda do poder de compra. “Em relação aos sindicatos, por exemplo, eu diria que há uma certa insatisfação com o poder de compra, que houve uma carestia substancial, embora não apareça nos índices por causa da fórmula de cálculo”, exemplifica.
A Diferença Crucial: Articulação Política de Lula
Se na economia os especialistas veem paralelos, na política a diferença é decisiva. Dilma iniciou seu segundo mandato com ampla base parlamentar, mas perdeu sustentação ao longo da crise que levou ao impeachment. Lula, por outro lado, tem preservado canais de negociação com o Centrão, grupo que detém poder significativo no Congresso.
Para Lohbauer, Dilma cometeu um erro ao confrontar o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Lula, mais experiente, compreende melhor o sistema político e optou por dividir espaço e recursos com o Centrão para garantir governabilidade. “A Dilma foi refém do Congresso e eles a tiraram do jogo. Esse governo também é refém. A diferença é que Lula joga o jogo. Como o presidente é mais experiente, ele joga com o Centrão e entregou grande parte do poder ao Centrão”, analisa.
Essa estratégia se reflete na influência do Congresso sobre o orçamento via emendas parlamentares. Embora seja uma tendência consolidada nos últimos anos, Lohbauer avalia que Lula cedeu ainda mais espaço e recursos ao Centrão, garantindo estabilidade política e apoio legislativo.
Para Caldas, essa é a principal proteção política de Lula. A perda desse apoio isolou Dilma e abriu caminho para o impeachment. “Até agora Lula tem o apoio do Centrão. Mas se ele vier a perder esse apoio, vai ficar em uma situação muito parecida com a da Dilma. Aí sim as forças políticas poderão ser usadas para tirá-lo, como aconteceu com a ex-presidente”, destaca.
PT Mantém Força Eleitoral Apesar do Desgaste
Lula mantém uma competitividade eleitoral consolidada, apesar do desgaste econômico e das críticas à condução do governo. O presidente segue competitivo nos principais cenários para a disputa presidencial de 2026.
Caldas observa que, mesmo com o desgaste em segmentos da classe média e do empresariado, Lula demonstra capacidade de recompor alianças e evitar o isolamento político que marcou os últimos meses do governo Dilma.
Lohbauer atribui parte dessa resiliência a mais de quatro décadas de protagonismo. Lula consolidou um reconhecimento raro na política brasileira, mantendo uma base de apoio relativamente estável mesmo em momentos de desgaste.
O cientista político também aponta o peso dos programas sociais. Grande parte do eleitorado teme perder benefícios e auxílios em eventual mudança de governo, o que contribui para a manutenção do apoio ao presidente. “Se ele for candidato a qualquer coisa, síndico do meu prédio, por exemplo, ele tende a ficar entre os finalistas”, conclui.