Novo Inquérito no STF Conecta Marcola, Ex-Assessor de Lula, a Investigações de Lulinha
Um novo inquérito recém-instaurado no Supremo Tribunal Federal (STF) lança luz sobre conexões entre Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola e ex-chefe de gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. A investigação, conduzida pela Polícia Federal (PF) sob relatoria do ministro André Mendonça, apura suspeitas de tráfico de influência e negociações envolvendo cannabis medicinal.
O inquérito foi autorizado na última semana e visa esclarecer possíveis irregularidades. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, mencionou em seu parecer a intenção da PF de investigar um assessor do gabinete presidencial e um servidor do Ministério da Saúde, sem identificá-los nominalmente. Segundo fontes ligadas à investigação, esse assessor seria Marcola. A PF, por sua vez, não comenta investigações em andamento.
A trama investigativa reúne, além de Lulinha e Marcola, a lobista Roberta Luchsinger e o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, apelidado de “Careca do INSS”. A investigação principal que deu origem a essa conexão partiu de apurações sobre fraudes em descontos associativos de aposentados e pensionistas do INSS, no âmbito da Operação Sem Desconto. Conforme informações, Lulinha e Marcola não são investigados nesse inquérito específico e não há indícios de envolvimento deles com os descontos irregulares.
A Origem da Investigação: Fraudes no INSS e Cannabis Medicinal
A investigação sobre as fraudes no INSS, conduzida pela Operação Sem Desconto, revelou indícios de que Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, também tentava viabilizar um contrato milionário com o Ministério da Saúde. O objetivo seria fornecer medicamentos à base de canabidiol pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A investigação mira, portanto, o suposto tráfico de influência dentro do governo federal.
As negociações ocorreram entre 2024 e 2025, mas o contrato não foi assinado e as tratativas foram interrompidas com a divulgação pública da Operação Sem Desconto. Foi nesse contexto que o nome de Lulinha surgiu nas apurações.
O Papel de Lulinha e a Viagem a Portugal
Segundo a defesa de Lulinha, o filho do presidente viajou a Portugal em novembro de 2024 acompanhado de Antunes para conhecer uma fazenda produtora de canabidiol. Os advogados afirmam que esse encontro não gerou vínculos comerciais. No entanto, uma testemunha ouvida pela CPMI do INSS relatou que o “Careca do INSS” teria contratado o lobby de Lulinha para auxiliar na liberação do contrato com o Ministério da Saúde, versão negada pela defesa do filho do presidente.
A lobista Roberta Luchsinger é descrita pela PF como uma peça-chave na articulação. Amiga de Lulinha e apontada por ela mesma como responsável por apresentá-lo a Antunes, Luchsinger prestava consultoria a empresas que buscavam contratos com o governo. Ela mantinha acesso frequente a órgãos governamentais, com registros de oito agendas no Palácio do Planalto e cerca de 30 visitas a ministérios.
Conexões Financeiras e a Entrada de Marcola na Investigação
Um áudio obtido pelos investigadores mostra Luchsinger explicando a Antunes, no início de 2025, que um contrato com o Ministério da Saúde poderia ser fechado por dispensa de licitação, amparado pela nova lei de licitações e por um cenário de emergência. A mesma testemunha que mencionou o lobby de Lulinha disse à CPMI do INSS que o filho do presidente receberia uma “mesada” de Antunes, através de Roberta, para suposto tráfico de influência.
Roberta Luchsinger negou ter repassado valores recebidos de Antunes a Lulinha, afirmando que os pagamentos eram referentes ao seu próprio trabalho de consultoria. A entrada de Marcola na investigação ocorreu devido a uma conexão financeira. Fontes sob reserva indicam que a PF apurou que o ex-assessor de Lula teria recebido recursos diretamente de Luchsinger enquanto ocupava o cargo de chefe de gabinete pessoal do presidente.
Em nota, Marcola expressou surpresa com a repercussão do que chamou de empréstimo pessoal com Roberta Luchsinger. Ele afirmou que a operação financeira foi privada, integralmente quitada e sem relação com suas funções no governo. Marcola declarou nunca ter praticado atos ilegais e criticou o tratamento dado ao caso, considerando um empréstimo particular apresentado como irregularidade. Ele deixou o cargo em 21 de julho para atuar na campanha de reeleição de Lula, mas pediu para sair da coordenação após a repercussão do caso.
Tensões Institucionais e o Futuro da Investigação
O surgimento do nome de Marcola em um inquérito que investiga condutas ligadas a Lulinha ocorre em um contexto de tensões entre a PF e o STF. A defesa de Lulinha tem classificado a série de inquéritos como uma “pesca probatória”, uma tentativa da PF de encontrar elementos para sustentar suspeitas. A defesa argumenta que Lulinha não deveria receber tratamento diferenciado, nem mais rigoroso nem mais brando, por ser filho do presidente.
O Partido Liberal anunciou que pedirá ao STF a apuração de um possível vazamento de informações sigilosas da PF para o governo, caso o desligamento de Marcola tenha sido motivado por conhecimento prévio das investigações. Especialistas apontam movimentos como a substituição de delegados e o acionamento da Advocacia-Geral da União (AGU) como indicativos de uma disputa institucional em torno do ritmo e do alcance das apurações.
A expectativa é que a PF aprofunde a apuração sobre os pagamentos recebidos por Marcola de Luchsinger e o eventual papel do ex-assessor na tentativa de viabilizar o contrato com o Ministério da Saúde, bem como o possível envolvimento de Lulinha na articulação que não avançou.