Milei denuncia espionagem russa na Argentina e alerta para táticas de “guerra híbrida”
O presidente da Argentina, Javier Milei, expressou profunda preocupação nesta sexta-feira (3) após a revelação de uma extensa rede de desinformação operada por agentes russos no país. Milei classificou o episódio como um ato de **gravidade institucional sem precedentes**, sugerindo que os fatos divulgados são apenas uma pequena parte de uma operação muito maior.
A investigação aponta para um esquema complexo que envolve inteligência estrangeira, financiamento secreto, o uso de inteligência artificial e conexões em toda a América Latina. O escândalo veio à tona com o vazamento de documentos confidenciais que detalham uma campanha sistemática de “guerra híbrida” orquestrada pelo Kremlin contra o governo Milei, especialmente em relação às suas reformas econômicas.
Essa operação visava não apenas disseminar notícias falsas, mas também influenciar eleições, manipular percepções públicas e criar crises diplomáticas artificiais. A denúncia surge em um contexto de alinhamento da Argentina com os Estados Unidos, Israel e Ucrânia, rompendo com a política anterior de proximidade com Moscou, conforme revelado por consórcios internacionais de jornalismo.
“La Compañía”: A Continuidade do Grupo Wagner na Desinformação
No centro dessa rede de desinformação está uma organização identificada como “La Compañía”. Segundo os relatórios vazados, esta entidade seria uma continuação direta das operações do Grupo Wagner, a força mercenária russa liderada por Yevgeny Prigozhin até sua morte em 2023. O objetivo principal era desacreditar a política externa argentina, especialmente o apoio à Ucrânia.
“Jornalistas Fantasmas” e Dinheiro Russo para Manipular a Mídia
A estratégia da rede envolvia o pagamento a veículos de comunicação argentinos para a publicação de artigos fabricados, apresentados como conteúdo jornalístico legítimo. Foi investido um montante de **US$ 283 mil** para inserir pelo menos 250 textos em mais de 20 portais digitais. Para conferir credibilidade, o esquema criava “jornalistas fantasmas”, como o caso emblemático de “Gabriel Di Taranto”, que assinou 20 artigos em veículos importantes.
A universidade onde “Di Taranto” alegava ter cursado mestrado negou a emissão do diploma, e seu rosto foi gerado por um software de inteligência artificial. A Embaixada russa em Buenos Aires refutou as acusações, chamando-as de “história inflada artificialmente” e alegando falta de provas. No entanto, o governo de Milei reafirmou seu compromisso em investigar a fundo, com o porta-voz Manuel Adorni afirmando que irão “até as últimas consequências”.
Alerta para o Brasil: A Guerra de Narrativas se Espalha
Os documentos revelam que “La Compañía” também atuou na Bolívia para fortalecer o governo de Luis Arce e na Venezuela para sustentar a narrativa de Nicolás Maduro. Um relatório da Digital News Association indicou que a Rússia treinou mais de mil influenciadores e jornalistas para espalhar desinformação na América Latina. Embora o Brasil não tenha sido citado diretamente neste relatório, o país não está imune.
Em fevereiro, o portal alemão Tagesschau informou que a organização brasileira Nova Resistência integra a rede russa de desinformação “Storm-1516”, sob o escrutínio das inteligências dos EUA e da França. O caso argentino serve como um **sério aviso** de que a guerra de narrativas se espalha rapidamente, e o Brasil já figura nesse preocupante cenário global.