Congresso Nacional adota regime virtual e reduz presença física em Brasília, enquanto escândalo do Banco Master ganha novos contornos e oposição intensifica pressão por CPI.
Nas próximas semanas, o Congresso Nacional enfrentará um período de baixa atividade presencial em Brasília. Essa redução na presença de deputados e senadores ocorre em um momento crucial, quando novas revelações sobre o escândalo do Banco Master aumentam a pressão política por investigações parlamentares.
Um acordo articulado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira, com líderes partidários, prevê três semanas de votações virtuais no plenário da Casa. Paralelamente, o Senado, sob a presidência de Rodrigo Pacheco, também pretende funcionar em regime semipresencial, o que na prática diminui a circulação de parlamentares na capital federal.
Essa dinâmica, segundo parlamentares ouvidos nos bastidores, tende a esfriar temporariamente o debate sobre o caso Banco Master no plenário e nas comissões. Paralelamente, as articulações partidárias e negociações para as eleições deste ano se intensificam. Conforme informação divulgada pela fonte, o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), afirmou que a pauta da semana será concentrada em projetos ligados à bancada feminina, como resposta ao pacto contra o feminicídio.
Janela partidária e foco em temas femininos como pano de fundo
O acordo na Câmara tem como pano de fundo a chamada janela partidária, um período em que os deputados podem trocar de legendas sem perder o mandato. O prazo se estende até 3 de abril, e muitos parlamentares buscam acomodar seus interesses locais e eleitorais em novas siglas.
O esvaziamento do Congresso coincide com uma fase de forte repercussão do caso Banco Master, investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. A investigação apura suspeitas de fraudes bilionárias e levantou questionamentos sobre a rede de relações políticas e institucionais mantida pelo controlador do banco, Daniel Vorcaro, após análise de mensagens extraídas de seu celular.
Entre os pontos de atenção, destacam-se as suspeitas de contato indevido do ministro do STF Alexandre de Moraes com o investigado, enquanto o escritório de sua esposa recebia pagamentos milionários. Nesse contexto, matérias consideradas sensíveis, como o projeto que estabelece um novo regime de resolução bancária, foram retiradas da pauta da Câmara.
Oposição critica ritmo lento e cobra instalação de CPMI do Banco Master
A decisão de adotar votações virtuais nas próximas semanas tende a reduzir a intensidade do debate político sobre o caso Banco Master no Congresso Nacional. Com a possibilidade de registrar votos à distância, muitos parlamentares devem permanecer em seus estados, diminuindo a circulação política em Brasília e o ritmo de articulações em torno de investigações parlamentares.
Na Câmara dos Deputados, apenas entre os dias 16 e 20 de março está prevista uma semana de votações presenciais. Nas demais semanas, os deputados poderão registrar seus votos por meio do sistema eletrônico Infoleg, permitindo participação remota. No Senado, a expectativa é que o funcionamento semipresencial produza efeito semelhante, com o modelo híbrido reduzindo o espaço para articulações políticas intensas.
Para parlamentares da oposição, o calendário legislativo coincide com um momento em que crescem as pressões por investigações sobre o caso Banco Master. A deputada Adriana Ventura (Novo-SP) avalia que o momento revela a fragilidade da atuação do Parlamento, afirmando que “isso vem e tem sua razão de existir num Congresso Nacional fraco, que não age quando tem que agir”.
Apesar do ritmo mais lento das atividades presenciais, a oposição tem intensificado a pressão pela instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o caso. O requerimento para criação do colegiado já reúne o número mínimo de assinaturas desde o fim de 2025, mas ainda depende da leitura em sessão do Congresso Nacional para ser oficialmente instalado.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) critica a demora, afirmando que os desdobramentos da Operação Compliance Zero indicam um grave esquema de corrupção que precisa ser apurado. “Tem muita coisa a vir à tona ainda, e é por isso que nós conclamamos o povo brasileiro a se posicionar. É para ontem a instalação da CPMI do Banco Master”, declarou.
Girão também protocolou uma representação no Conselho de Ética do Senado pedindo o afastamento do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, por omissão em dar andamento ao pedido de CPMI e a requerimentos de impeachment contra ministros do STF. A deputada Adriana Ventura também acusou o Congresso de omissão, afirmando que “o Senado não cumpriu seu papel” e que o presidente da Casa estaria “se fazendo de morto”.
Motta e Alcolumbre citados em conversas com Daniel Vorcaro
As investigações da Polícia Federal sobre o Banco Master também revelaram a presença de lideranças do Congresso Nacional na rede de contatos do banqueiro Daniel Vorcaro. Mensagens extraídas do celular do empresário mencionam encontros e conversas com autoridades do Legislativo, incluindo o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.
Entre os registros analisados pela investigação está o relato de um jantar na residência oficial da presidência da Câmara com Lira e um grupo de empresários. Em outro diálogo, Vorcaro afirma ter participado de uma reunião na residência oficial do Senado, que teria se estendido até a meia-noite. As mensagens foram recuperadas a partir da quebra de sigilo telemático do banqueiro no âmbito da Operação Compliance Zero.
Desde a divulgação das mensagens, nem Lira nem Pacheco se manifestaram sobre o que foi tratado nesses encontros com o banqueiro preso pela Polícia Federal. A corporação ressalta que menções a autoridades em conversas privadas não indicam, por si só, qualquer irregularidade por parte das pessoas citadas.
Ainda assim, os registros passaram a ser analisados pelos investigadores para mapear a rede de interlocução política mantida por Vorcaro enquanto o Banco Master expandia sua atuação no sistema financeiro. Em entrevista, o presidente da Câmara foi questionado sobre como o caso do Banco Master atinge o universo político e a eleição deste ano.
“Nós temos que defender a apuração imparcial de todo e qualquer problema que exista no nosso país. Esse problema do Banco Master, nós temos analisado que o próprio Supremo Tribunal Federal tem acompanhado de perto e tomado decisões importantes, como a que tomou na semana passada”, disse o presidente Lira, defendendo a apuração imparcial dos fatos.