Ouro Ilegal da Amazônia Ganha Nova Rota: Roraima se Torna Ponto Chave para Mercado Internacional

Ouro Ilegal da Amazônia Ganha Nova Rota: Roraima se Torna Ponto Chave para Mercado Internacional

Resumo

Nova rota de contrabando de ouro liga a Amazônia ao mercado internacional, com Roraima no centro das operações.

O estado de Roraima emergiu como um novo e crucial eixo de saída para o ouro contrabandeado do Brasil, alterando rotas estabelecidas e chamando a atenção da Polícia Federal (PF). A mudança no fluxo do metal precioso, historicamente extraído de forma ilegal em terras indígenas como a Yanomami, indica uma conexão cada vez mais direta com o mercado internacional.

Essa nova dinâmica foi monitorada de perto pela PF, resultando em operações conjuntas com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) que culminaram em apreensões significativas em Boa Vista e nas estradas estaduais. A estratégia parece envolver o uso de Roraima como um ponto de passagem estratégico para o escoamento do ouro ilegal.

O delegado da PF, Caio Luchini, responsável pelo combate a crimes ambientais em Roraima, confirmou a identificação dessa alteração: “Identificamos uma mudança na rota do ouro. O estado de Roraima está funcionando como um ponto de passagem para outros países”, afirmou. Conforme informações divulgadas pela Polícia Federal, essa nova configuração logística visa facilitar o acesso do ouro ilegal a mercados globais.

Apreensão Emblemática em Boa Vista Revela o Esquema

Um episódio marcante que ilustra essa nova rota ocorreu em 2 de dezembro do ano passado. A PF, em colaboração com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), interceptou um avião que estava sob monitoramento. A aeronave, que deveria pousar em uma pista particular, alterou sua rota e aterrissou no Aeroporto Internacional de Boa Vista, levantando suspeitas imediatas.

Ao abordar a aeronave, agentes da PF e da Anac encontraram 51 quilos de barras de ouro, avaliadas em R$ 37 milhões, desacompanhadas de qualquer nota fiscal ou documento que comprovasse sua origem legal. Os ocupantes da aeronave admitiram ter embarcado o ouro em Itaituba, no Pará, um conhecido entreposto de ouro extraído de terras indígenas.

Eles também relataram ter participado de outros voos semelhantes, transportando ouro do Pará para Roraima, mas não forneceram detalhes sobre os proprietários da carga milionária. Este incidente é um forte indicativo da complexidade e do alcance do contrabando de ouro.

Roraima Vira Porta de Entrada para o Ouro Ilegal no Mercado Global

Dados da PRF reforçam a crescente importância de Roraima nesta rota. Entre janeiro de 2024 e o mesmo período de 2025, o volume de ouro apreendido nas estradas do estado registrou um aumento expressivo de 368%. As investigações da PF apontam que uma parcela considerável do ouro extraído ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, a maior reserva indígena do país com cerca de 33 mil habitantes, tem como destino não apenas o mercado interno, mas também países da Europa, Ásia e Estados Unidos.

O processo para inserir esse ouro ilegal no mercado formal envolve o chamado “esquentamento”, que consiste na emissão de notas fiscais fraudulentas. Segundo as autoridades, o ouro extraído em Roraima é frequentemente enviado para outros estados, onde organizações criminosas especializadas em lavagem de dinheiro operam suas estruturas burocráticas e logísticas.

Esses documentos falsos vinculam o metal extraído de terras indígenas a permissões de lavra emitidas em outras regiões. Após essa falsificação documental, o ouro é comercializado no Brasil ou exportado. O delegado Caio Luchini explicou que, no passado, operações identificaram o envio de ouro para São Paulo, Pará e Rondônia, locais onde o “esquentamento” ocorria por meio da confecção de documentação fraudulenta, liberando o ouro para comercialização.

Fatores por Trás da Mudança de Rota

Investigadores e especialistas notaram a alteração na rota do ouro clandestino e o novo papel de Roraima como porta de saída do país nos últimos dois anos. O diretor nacional de operações da PRF, Marcus Vinícius de Almeida, mencionou apreensões de ouro proveniente do Amazonas e de Rondônia, além do Pará, estados com forte presença de garimpos ilegais.

A delegada Milena Coutinho, chefe do Setor de Repressão a Crimes contra os Recursos Minerais e de Poluição da PF, ressaltou que, no momento, não há indícios concretos da atuação de facções criminosas como o Comando Vermelho ou o PCC nessa nova rota, mas as investigações continuam.

Três fatores principais explicam essa mudança de fluxo, segundo a delegada. O primeiro é a intensificação da repressão ao garimpo na Terra Indígena Yanomami, que reduziu a extração ilegal na região. O segundo envolve medidas que dificultaram o “esquentamento” do ouro: a obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica na compra do ouro de garimpo e o fim da presunção de boa-fé nesse comércio.

Crise Humanitária e Repressão Intensificada

A fiscalização se intensificou em 2023, impulsionada por uma crise humanitária na Terra Indígena Yanomami, onde imagens de subnutrição tiveram grande repercussão nacional, atribuídas ao avanço do garimpo ilegal.

O governo federal, em resposta, instalou a Casa de Governo em Boa Vista para combater o garimpo ilegal e ampliar a assistência aos Yanomami. Desde então, agentes da PF, Força Nacional e Ibama têm ampliado as operações na terra indígena.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que as exportações de ouro do Brasil caíram de 96 toneladas em 2022 para 66 toneladas em 2025, uma redução de 31%, possivelmente refletindo o cerco às estruturas de lavagem do ouro ilegal e a mudança nas rotas de contrabando.

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