Pressão dos EUA força moralização do mercado brasileiro contra lavagem de dinheiro e risco de narcoestado

Pressão dos EUA força moralização do mercado brasileiro contra lavagem de dinheiro e risco de narcoestado

Resumo

EUA pressionam mercado brasileiro a combater lavagem de dinheiro e evitar que o país se torne um narcoestado

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, com sanções financeiras ampliadas, visa forçar o mercado brasileiro a adotar medidas mais rigorosas contra a lavagem de dinheiro. Analistas ouvidos pela reportagem acreditam que a medida, apesar de gerar preocupações para empresas, tem potencial para moralizar o setor financeiro e prevenir que o Brasil se torne um narcoestado.

A iniciativa, anunciada pelo Departamento de Estado dos EUA e em vigor desde 5 de junho, amplia o alcance de sanções financeiras e autoriza autoridades americanas a agirem contra indivíduos e empresas com vínculos às facções. O governo brasileiro, por sua vez, tem buscado retratar a medida como um risco para o ambiente de negócios.

“A medida dos Estados Unidos é positiva no geral. Se você não tiver alguma força externa pressionando as instituições do Estado, nada vai andar”, afirma Nelson Ricardo Fernandes Silva, analista de riscos da consultoria ARP Risk. Ele aponta que a infiltração do tráfico em órgãos públicos e a impunidade dificultam a ação interna, tornando a pressão externa um catalisador necessário para a mudança.

Impacto na economia e no combate ao crime organizado

Investigações da Polícia Federal e do Ministério Público revelam que grupos criminosos utilizam empresas de fachada e negócios legítimos para lavar dinheiro proveniente de atividades como tráfico de drogas, contrabando e extorsão. Setores como transporte, combustíveis, logística, construção civil e serviços financeiros são frequentemente citados em operações policiais.

Nelson Ricardo Fernandes Silva explica que, embora grandes bancos e empresas possuam departamentos de compliance, a denúncia de operações suspeitas raramente ocorre devido à falta de consequências práticas. “Você pode até achar esquisito, mas não vai checar, não vai denunciar”, comenta o analista sobre a relutância em reportar atividades suspeitas que envolvem grandes investimentos.

Um estudo de 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública estimou que o crime organizado injetou cerca de R$ 348 bilhões na economia formal brasileira entre 2022 e 2024, através da lavagem de dinheiro. Apesar desse volume, o cenário atual não permite classificar o Brasil como um narcoestado, diferentemente de países produtores de cocaína na região andina.

Apesar disso, o combate à lavagem de dinheiro terá impactos econômicos. Empresas que operam parcialmente com recursos ilícitos podem enfrentar dificuldades para se manterem lucrativas quando o fluxo de dinheiro sujo for interrompido, segundo Silva. A moralização do mercado, portanto, forçará a necessidade de operações mais transparentes e rentáveis.

Fortalecimento da cooperação e do compliance

Fabrício Rebelo, jurista e pesquisador em segurança pública, destaca que o objetivo dos EUA é o sufocamento financeiro das organizações. Com a classificação como terroristas, espera-se um aumento no compartilhamento de informações investigativas, facilitando o bloqueio de ativos e dificultando a operação das estruturas criminosas.

Adriano Soares, ex-juiz e advogado, avalia que a cooperação entre órgãos policiais brasileiros e agências americanas pode se intensificar. A designação de terrorismo ativa obrigações de compartilhamento de informações mais amplas, permitindo que órgãos americanos solicitem dados sobre fluxos suspeitos vinculados às facções com maior poder.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) poderá ser pressionado a responder solicitações com maior agilidade e profundidade. Rebelo ressalta que o principal efeito para as empresas brasileiras será o aumento do cuidado na seleção de parceiros comerciais, evitando vínculos indiretos com organizações criminosas.

Riscos jurídicos e pressão legislativa

Fernando Pinheiro, advogado, alerta que a medida aumenta a pressão para que o Brasil endureça sua legislação e eleve os padrões de compliance empresarial. Ele critica a visão de que o compliance é apenas uma exigência regulatória, quando deveria ser encarado como uma ferramenta de proteção dos negócios.

Setores com cadeias produtivas complexas, como logística, transporte, agronegócio, construção civil e fintechs, podem estar mais expostos a riscos jurídicos. Isso ocorre especialmente quando há dificuldade em identificar os verdadeiros beneficiários de determinadas operações, já que a legislação antiterrorismo dos EUA tem alcance extraterritorial.

Leonardo Corrêa, presidente do think tank Lexum, prevê que o impacto mais imediato virá do mercado. Bancos e parceiros comerciais, para não perderem acesso ao dólar, podem cortar relações na dúvida, tornando o conhecimento sobre com quem se faz negócio essencial.

A pressão para endurecer a legislação brasileira sobre terrorismo e lavagem de dinheiro também é esperada. Atualmente, tramita no Congresso Nacional uma proposta para incluir facções criminosas como PCC e CV na Lei Antiterrorismo. A assimetria entre as legislações brasileira e americana pode se tornar insustentável, levando o próprio setor privado a pressionar por mudanças.

Fabrício Rebelo alerta que, caso o Brasil não demonstre esforço no combate financeiro às facções, pode ser enquadrado como uma nação que coopera com o terrorismo, resultando em sanções comerciais e diplomáticas em maior escala.

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