Nova série documental do Globoplay, “Andar na Pedra: A História dos Raimundos”, mergulha na trajetória polêmica da banda, explorando o hedonismo, o sucesso avassalador e a inesperada conversão de Rodolfo Abrantes.
Para muitos que viveram os anos 90, o nome Raimundos evoca uma mistura inconfundível de irreverência, som pesado e letras escrachadas. A banda, que alcançou o estrelato no punk rock brasileiro, viveu um fenômeno que ia do hedonismo juvenil ao rock’n’roll mais puro, mas teve um fim surpreendente em 2001.
A nova série documental “Andar na Pedra: A História dos Raimundos”, lançada pelo Globoplay e dirigida por Daniel Ferro, promete desvendar os bastidores dessa jornada única. Com cinco episódios recheados de depoimentos e material de arquivo inédito, a produção busca explicar a ascensão meteórica e a repentina partida do vocalista Rodolfo Abrantes.
A série, que tem duração média de 55 minutos por episódio, é uma resposta direta aos fãs que nunca compreenderam a separação do grupo. Daniel Ferro, conhecido por outros trabalhos como “Rock In Rio 30 Anos”, descreve o processo como a transformação de um “minério em diamante bruto, lapidá-lo até se transformar numa joia rara”. A produção foi fundamentada em dezenas de horas de entrevistas com os membros da banda e vasto acervo de vídeos, shows, viagens e fotos.
O Nascimento do Caos: Forró, Punk e a Sedução do Underground
O primeiro episódio de “Andar na Pedra” narra as origens da banda, desde a influência do pai de Rodolfo Abrantes, que introduziu o forró nordestino e as sátiras musicais de Zenilton. Essa fusão inusitada com o punk rock foi a base para o repertório que viria a definir os Raimundos.
Nesta fase inicial, o documentário revela a entrada de Digão, Canisso e Fred na banda, que já começava a se destacar no underground do Distrito Federal. É também retratado o começo do uso de cannabis, descrito por Rodolfo como um “barato que ajudava na criatividade e, em alguns casos, no sexo”, algo que se refletiria nas primeiras gravações.
As primeiras fitas demo, com letras “impublicáveis” e a mistura de forró com punk rock, serviram de alicerce para o primeiro disco oficial, lançado em 1994. O álbum consolidou os Raimundos como um símbolo do **hedonismo juvenil**, com um repertório que desafiava convenções.
O Preço do Sucesso e a Linguagem Despudorada do Rock
O sucesso comercial veio rápido. Do underground para um estúdio profissional e o selo alternativo Banguela Records, os Raimundos viram seu primeiro disco vender impressionantes 200 mil cópias, superando em dez vezes a expectativa inicial de 20 mil unidades.
A série adota uma linguagem sem filtros, comparando-se à abordagem de Peter Jackson em “The Beatles: Get Back”, onde a espontaneidade e o vocabulário cru dos músicos foram preservados. Essa liberdade permitiu aos entrevistados detalharem o processo criativo, mesmo sob pressão contratual.
Um exemplo marcante é o grito de “Eu quero ver o Oco” de Canisso em um show, que Rodolfo explica como uma necessidade de “voltar ao chão depois de estarem levitando no sucesso recente”. Essa energia se traduziu no segundo disco, “Lavô tá Novo”, que vendeu quase 400 mil CDs e abriu caminho para o sucesso dos videoclipes na MTV, atraindo também o público feminino.
A Virada Radical: Conversão e o Fim de uma Era
O ponto culminante e mais dramático da série é a discussão sobre a **conversão de Rodolfo Abrantes ao cristianismo**. A decisão, tomada durante uma turnê pelo Japão em julho de 2000, marcou o fim definitivo de sua participação na banda em 2001.
Ao contrário de rupturas comuns no mundo da música, a transformação pessoal de Rodolfo foi profunda, impactando não apenas sua vida, mas também o futuro dos Raimundos. As revelações, confirmadas por sua esposa Alexandra, podem chocar os menos religiosos e expõem as mágoas e o drama vivido pelos demais membros da banda.
Rodolfo é a peça-chave para entender a dinâmica dos Raimundos. O documentário evidencia sua frustração por não poder “voltar ao passado para evitar tudo o que sofreu” durante seus anos como vocalista, incluindo o uso de cannabis e outras drogas.
Um Legado em “Andar na Pedra”
“Andar na Pedra: A História dos Raimundos” é mais que um registro histórico do rock brasileiro. A série constrói, com humor e criatividade, a trajetória de um grupo que emergiu da obscuridade de Brasília para conquistar o país.
O documentário explora as complexidades do sucesso, as responsabilidades que ele acarreta e as escolhas que moldam vidas. A produção de Daniel Ferro oferece um painel de emoções e reflexões, permitindo ao público compreender a fundo a saga dos Raimundos e o impacto duradouro de sua música e de suas transformações.