Escândalo do Banco Master une adversários políticos na Bahia em tática de silêncio eleitoral
O complexo escândalo envolvendo o Banco Master, que tem ganhado cada vez mais destaque na Bahia, está provocando alianças inesperadas no cenário político. Figuras tradicionalmente em lados opostos, como o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil), e o senador Jaques Wagner (PT), líder do governo Lula no Senado, estariam negociando um acordo de não agressão para as eleições deste ano.
A estratégia, segundo apuração, seria evitar que o caso Master se torne um tema central na disputa eleitoral, poupando ambos os grupos de eventuais desgastes. O pacto de silêncio abrangeria não apenas os candidatos principais, mas também seus aliados, em um movimento que demonstra a força do escândalo em influenciar os rumos da política baiana.
A Polícia Federal deflagrou uma nova fase da Operação Compliance Zero, mirando investigações que conectam figuras proeminentes ao Banco Master. Tanto ACM Neto quanto Jaques Wagner têm motivos para desejar que o assunto permaneça fora dos holofotes eleitorais, dadas as associações que emergiram nas investigações. A informação sobre o suposto acordo foi divulgada com base em reportagem local, indicando que o tema Master se tornou proibido nos debates de campanha.
ACM Neto e Jaques Wagner: Motivações para o silêncio
A lógica por trás do pacto de não agressão é clara para investigadores que acompanham o caso Master. ACM Neto, pré-candidato ao governo da Bahia, teve seu nome associado ao banco após um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicar o recebimento de R$ 5 milhões do Banco Master e da gestora Reag. Neto declarou na época que os valores se referiam a serviços de consultoria e se colocou à disposição da Justiça. Ele não foi alvo da operação mais recente da PF.
Do lado petista, a investigação da PF nesta quinta-feira (18) mira Jaques Wagner e familiares. Uma sócia da empresa BK Financeira, casada com um enteado do senador, teria recebido cerca de R$ 11 milhões do Banco Master por meio de um contrato de 2021. Wagner negou qualquer intermediação em favor da empresa e afirmou que o apartamento investigado pela PF foi adquirido para auxiliar sua filha na compra de um imóvel, com a intenção de recomprá-lo posteriormente.
Operação Compliance Zero avança com foco em agentes públicos
A nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, buscou apurar a possível participação de agentes públicos em um esquema de irregularidades financeiras atribuído ao Banco Master. A operação cumpriu mandados de busca e apreensão na Bahia, São Paulo e Distrito Federal, atingindo endereços pessoais de Jaques Wagner e de seus familiares. A PF investiga suspeitas de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.
As investigações apontam para a atuação de Jaques Wagner em três frentes em favor de iniciativas legislativas do Master no Congresso Nacional, incluindo a chamada “Emenda Master”, que visava ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Suspeita-se que o senador possa ter recebido vantagens indevidas, como um apartamento de luxo, repasses de cerca de R$ 3 milhões via empresa ligada a familiares, e o uso de aeronaves de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master.
Rui Costa e a privatização da Ebal: Conexões com o caso Master
O caso Master também levanta questões sobre o passado político na Bahia. Rui Costa, atual ministro da Casa Civil e ex-governador do estado, conduziu a privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), dona da rede Cesta do Povo, em 2018. O negócio foi arrematado por Augusto Lima, que posteriormente deixou o Master e levou consigo o Credcesta, programa de crédito consignado. Em fevereiro, Costa defendeu a privatização, argumentando que o produto de crédito consignado viabilizou a venda da empresa. Ele não foi alvo da Compliance Zero.
Jaques Wagner, por sua vez, negou ter recebido qualquer vantagem indevida e minimizou sua relação com Daniel Vorcaro, afirmando ter se encontrado com o ex-banqueiro apenas duas vezes. Ele recebeu um telefonema de solidariedade do presidente Lula e descartou deixar a liderança do governo no Senado ou desistir de sua pré-candidatura à reeleição. O senador não comentou sobre o suposto acordo com ACM Neto.