Salários milionários no Senac chamam atenção e geram debate sobre limites remuneratórios no Sistema ‘S’
Um consultor técnico IV do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) pode alcançar um salário de R$ 182 mil mensais, valor que impressiona por ser quatro vezes superior ao teto remuneratório do serviço público federal, fixado em R$ 46.366.
Essa disparidade salarial em cargos de alta remuneração no Senac tem gerado questionamentos sobre a política de pagamento da instituição, que, apesar de ser uma entidade de direito privado, recebe e administra recursos públicos e presta contas ao Tribunal de Contas da União (TCU).
A discrepância se estende por diversos cargos de liderança e consultoria em diferentes regionais do país, evidenciando uma política remuneratória que foge aos padrões do setor público. Conforme informações divulgadas, o alto rendimento de consultores e diretores no Senac é financiado principalmente por contribuições sociais obrigatórias de empresas do setor de comércio.
Altos Cargos e Remunerações Expressivas em Diversas Regionais
A estrutura salarial do Senac revela valores significativamente elevados para seus colaboradores de ponta. O salário inicial de um consultor técnico IV é de R$ 78 mil, podendo atingir o teto de R$ 182 mil. Em comparação, o diretor regional do Senac no Rio de Janeiro recebe R$ 135 mil, e em São Paulo, um consultor técnico III pode chegar a R$ 137 mil mensais.
Outros cargos também apresentam remunerações expressivas, como o de consultor técnico II, com rendimento de até R$ 120 mil, e o de assessor V e consultor técnico I, que recebem R$ 90 mil. No Departamento Nacional, cargos em comissão de níveis 1 e 2 chegam a R$ 84 mil, totalizando 13 profissionais nessas funções.
A fartura financeira se reflete em todo o país, com diretores regionais em diferentes estados recebendo salários substanciais. No Ceará, diretores recebem R$ 72 mil, no Rio de Janeiro, R$ 86 mil, em Mato Grosso, R$ 62 mil, e na Bahia, R$ 59 mil. Em Goiânia, uma diretora executiva tem rendimento máximo de R$ 68 mil, e no Distrito Federal, a remuneração é fixa em R$ 60 mil.
Origem dos Recursos e Orçamento Bilionário do Sistema ‘S’
O financiamento do Senac provém majoritariamente de contribuições sociais parafiscais obrigatórias, que representam 1% sobre a folha de pagamento das empresas do setor de Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Para 2026, a previsão orçamentária do Senac é de R$ 1,6 bilhão, sendo R$ 1,2 bilhão proveniente dessas contribuições sociais. Outras fontes de receita incluem a remuneração de depósitos bancários (R$ 318 milhões) e serviços educacionais (R$ 42 milhões).
As despesas também são vultuosas, com R$ 819 milhões destinados a contribuições, R$ 160 milhões a vencimentos e vantagens fixas, e R$ 300 milhões a serviços de terceiros. Gastos com tecnologia da informação e comunicação somam R$ 123 milhões, e com passagens e locomoção, R$ 13 milhões. O Senai, outra entidade do Sistema ‘S’, projeta um orçamento de R$ 1,8 bilhão para o mesmo período.
Senac Defende Autonomia e Não Aplicação do Teto do Serviço Público
Em resposta aos questionamentos, a assessoria do Senac reitera que a instituição é uma entidade de direito privado, organizada como serviço social autônomo, e não integra a administração pública. Por essa razão, afirma que os parâmetros de remuneração estabelecidos para o setor público não se aplicam ao Senac.
A instituição destaca que os recursos que a financiam são provenientes de contribuições sociais de empresas do setor comercial, além de receitas de serviços educacionais. Ressalta ainda que esses recursos são integralmente destinados às atividades institucionais, sem qualquer distribuição de lucros, e que o Senac presta contas ao TCU, assim como os órgãos públicos federais.
Debate sobre Remuneração e Transparência no Sistema ‘S’
A alta remuneração de consultores e diretores no Senac levanta um debate sobre a sustentabilidade financeira e a transparência na gestão de recursos do Sistema ‘S’. Embora a natureza privada da instituição justifique, segundo o próprio Senac, a não aplicação do teto salarial público, a origem dos recursos, majoritariamente de contribuições sociais obrigatórias, gera expectativas de alinhamento com princípios de razoabilidade e interesse público.
A fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o Sistema ‘S’ busca garantir a correta aplicação dos recursos, mas a discussão sobre os limites da remuneração em entidades que recebem financiamento público, mesmo que indiretamente, permanece em pauta, especialmente diante de salários que ultrapassam em muito os ganhos de altos escalões do próprio governo.