Do Fervo das Ruas à Impotência: O Legado dos Protestos de 2013 e a Erosão da Luta Anticorrupção no Brasil
Treze anos após as emblemáticas manifestações de junho de 2013, o Brasil se vê novamente imerso em escândalos de corrupção de grande vulto. Casos como a fraude bilionária no INSS e o envolvimento do Banco Master reacenderam o debate público sobre a desonestidade e a deterioração da confiança nas instituições de controle. No entanto, a capacidade de gerar uma mobilização nacional a partir da indignação parece ter diminuído drasticamente.
Embora a corrupção ainda gere descontentamento, ela já não figura no topo das prioridades declaradas pelo eleitor médio. Pesquisas recentes indicam que temas como segurança e saúde superam a preocupação com desvios de dinheiro público. Essa mudança de prioridade reflete um fenômeno mais amplo: a indignação persiste, mas a ação coletiva em larga escala enfraqueceu.
Cientistas políticos atribuem essa perda de força a uma complexa combinação de fatores, incluindo a decepção com o cenário político, a frustração com reveses judiciais, a polarização acentuada e uma crescente sensação de impotência. A energia que impulsionou as ruas em 2013, o impeachment de Dilma Rousseff, a Operação Lava Jato e a eleição de Jair Bolsonaro, parece ter se esgotado diante de anulações de condenações e da percepção de que o sistema político neutralizou parte da pressão popular. Conforme aponta a Gazeta do Povo, esta análise é baseada em entrevistas com especialistas da área.
A Virada de 2013: De Protestos por Passagens a um Grito Contra o Sistema
As manifestações de junho de 2013, embora hoje associadas à luta anticorrupção, tiveram um estopim distinto: o aumento das tarifas de transporte público. Contudo, em poucos dias, o movimento transcendeu essa pauta inicial, espalhando-se pelo país com reivindicações difusas. Serviços públicos precários, gastos excessivos com a Copa do Mundo, rejeição ao governo e críticas à classe política e à impunidade ganharam destaque.
O lema “não é só pelos 20 centavos” sintetizou essa transição, marcando a passagem de uma demanda específica para uma revolta mais ampla contra o funcionamento do Estado. Um dos reflexos imediatos dessa mobilização foi a derrubada da PEC 37, proposta que visava restringir o poder investigatório do Ministério Público. A derrota da PEC, aprovada por ampla maioria na Câmara, foi vista como uma demonstração da força das ruas em impor recuos ao sistema político.
Segundo o cientista político Christian Lohbauer, um dos fundadores do Partido Novo, os eventos de 2013 e o surgimento de novas forças políticas fazem parte de um mesmo “espírito do tempo”. Ele ressalta que o descontentamento não foi repentino, mas sim um caldo formado por escândalos como o Mensalão, a crise econômica de 2008 e o desgaste do governo Dilma. Para Lohbauer, a sociedade estava “toda incomodada” com o cenário político da época.
A Lava Jato, o Impeachment e a Eleição de Bolsonaro: Ciclos de Mobilização e Desilusão
A Operação Lava Jato, iniciada em 2014, deu contornos institucionais à energia popular. Ela colocou o combate à corrupção no centro do debate político, resultando na prisão de figuras proeminentes e alimentando a esperança de que a impunidade poderia ser combatida pela pressão popular. O impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 são frequentemente vistos como desdobramentos desse ciclo.
No entanto, o que se seguiu foi um período de “revertério” institucional e político. Conforme analisa o cientista político Paulo Kramer, a saída de Lula da prisão, sua subsequente reeleição e o desmonte da Lava Jato pelo Supremo Tribunal Federal (STF) geraram um sentimento de desânimo. A anulação das condenações de Lula pelo STF, em 2021, por incompetência da vara de Curitiba, foi um marco simbólico, fortalecendo a narrativa de abusos judiciais na operação.
O cientista político Ricardo Caldas, professor da UnB, percebe um processo de “dilmização” no atual governo Lula, o que poderia reacender uma indignação semelhante à de 2013. Ele argumenta que as jornadas de junho expressaram uma exaustão com o governo Dilma, e que o atual governo estaria repetindo aceleradamente elementos que desgastaram a ex-presidente, como declarações infelizes e insensíveis.
O Sentimento de Impotência e o Futuro da Mobilização Cívica
A principal barreira para a mobilização em massa hoje, segundo Christian Lohbauer, é o “sentimento mais forte no Brasil”, que é o de **impotência**. Ele observa que manifestações atuais não alcançam “um décimo do que se levava lá atrás”, indicando uma perda de expectativa de eficácia na ação coletiva.
A volta de Lula ao poder, após ter sido preso e ter suas condenações anuladas, é vista por Lohbauer como um fator simbólico decisivo. “Os poderosos de hoje são aqueles que haviam sido presos e condenados por todas as instâncias da Justiça”, afirma, levando o cidadão a questionar “O que mais eu posso fazer?”. Essa sensação de esgotamento e “falência” após uma luta intensa contribui para a apatia atual.
Apesar do cenário, Paulo Kramer considera precipitado decretar o fim da disposição cívica contra a corrupção. Ele acredita que a sociedade brasileira ainda possui “reservas de indignação moral” que podem ressurgir em novas circunstâncias. “Percebemos que algumas parcelas daquilo que chamo de nossa ‘população politicamente ativa’ continuam acreditando na possibilidade de virar esse jogo”, conclui Kramer.
Esta reportagem faz parte da série Brasil Decente, que investiga o restabelecimento das fronteiras entre os Três Poderes e a restauração da liberdade de expressão no país.