2026: O centro político brasileiro e a tentação do 'CEO' em meio à fadiga da polarização

2026: O centro político brasileiro e a tentação do ‘CEO’ em meio à fadiga da polarização

Resumo

O centro político brasileiro e a tentação do ‘CEO’ em meio à fadiga da polarização

Uma movimentação política sutil, mas significativa, tem sido observada nos bastidores: a chamada “fumacinha branca” de Gilberto Kassab, indicando a possibilidade de um candidato de centro-direita para as eleições presidenciais de 2026. O PSD, partido de Kassab, já articula nomes como Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Júnior, todos com potencial para se lançarem na disputa.

Essa articulação ocorre em um cenário de crescente fadiga com a polarização entre Lula e Bolsonaro, cujas rejeições consolidadas superam os 50% em diversas pesquisas. O “centrão”, bloco com expressiva maioria no Congresso, parece vislumbrar uma oportunidade de expandir sua influência para além do Parlamento, buscando um protagonismo inédito.

Contudo, a natureza fisiológica de parte desse centro levanta questionamentos. Seria essa “fumacinha branca” um sinal genuíno de uma nova força política ou apenas uma estratégia para desviar a atenção de outras negociações nos bastidores, talvez com a direita mais conservadora? A resposta pode definir os rumos do Brasil nos próximos anos. Conforme informações divulgadas, o centro parece apostar na exaustão da disputa entre os polos.

A origem histórica do centro político

A noção de centro político, como a conhecemos, remonta à Revolução Francesa, em 1789. Não nasceu de uma teoria, mas de uma disposição física na Assembleia Nacional Constituinte. À esquerda, os jacobinos radicais; à direita, os defensores da monarquia; e no centro, os girondinos, que buscavam reformas moderadas e conciliadoras.

Essa dicotomia espacial evoluiu. No século XIX, o centro começou a ganhar características mais pragmáticas, adaptando-se entre o socialismo emergente e o conservadorismo. No século XX, com a Guerra Fria e a bipolaridade capitalismo versus socialismo, a ideia de uma “terceira via” ganhou contornos mais ideológicos, delineando a centro-esquerda e a centro-direita.

Cientistas políticos como Cas Mudde e Luke March observam que o cenário global mudou. Radicais se opõem ao sistema, mas aceitam a democracia processual. Já os extremos são antissistema, buscando rompimento da ordem democrática. Donald Trump exemplifica essa mudança, desafiando o sistema pós-guerra.

O centro no Brasil: fisiologismo e poder

No Brasil, o modelo de centro importado da França se consolidou com a República Oligárquica (1889-1930), através do pragmatismo sem ideologia profunda do “café com leite”. Esse fisiologismo conciliador, que prioriza a manutenção do poder, nunca desapareceu da política brasileira.

Na Nova República, o centro fisiológico se aglutinou em torno de uma centro-esquerda, com o PSDB. A direita era tão fraca que o partido foi erroneamente associado a ela. O “centrão”, como força consolidada, passou a comandar ou permitir o comando, desde que atendido.

A permissão da reeleição em 1997 fortaleceu esse mecanismo. Fernando Henrique Cardoso, em artigo no Estadão em 2020, refletiu sobre a pressão para a reeleição, admitindo ter “procurado se conter”. A liberação de emendas parlamentares, controlada pelo governo até 2015, era moeda de troca crucial.

Com a institucionalização do repasse de emendas a partir de 2015, o eixo de poder se equilibrou, fortalecendo ainda mais o “centrão”. Paradoxalmente, isso coincidiu com a ascensão da direita “antisistema” de Jair Bolsonaro em 2018, que via o “centrão” como vilão, mas acabou por incorporá-lo ao governo em 2020 para garantir governabilidade.

A fadiga da polarização e a busca por um ‘CEO’

As pesquisas desde 2018 mostram a consolidação da alta rejeição de Lula e Bolsonaro, com ambos superando 50% em muitos levantamentos. As eleições têm sido definidas mais “contra” um deles do que a favor, com os dois líderes do segundo turno apresentando as maiores rejeições.

Estima-se que entre 15% a 20% do eleitorado rejeitam a polaridade, os chamados “nem-nem”. Embora insuficiente para eleger uma terceira via, essa fatia é decisiva para definir o vencedor entre os polos. Essa parcela do eleitorado prefere uma alternativa ao centro, e a fadiga da polarização pode levar até mesmo eleitores de esquerda ou direita a buscarem trégua em uma terceira via.

Uma pesquisa de 2025 do “More in Common” e Quaest indicou que a maioria dos brasileiros (54%) se compõe de desengajados e cautelosos, com inclinação mais à direita. Essa é a oportunidade para o pragmatismo centrista, focado em uma centro-direita com “convicção”, apostando em um “gerencialismo aprimorado”, não meramente tecnocrata.

A polêmica em torno de Tarcísio de Freitas curtir um comentário sobre o Brasil precisar de um “CEO” revela o calcanhar de Aquiles do bolsonarismo. Bolsonaro venceu como anti-sistema, mas falhou em gerir o sistema por dentro, necessitando do “centrão” e sem se tornar um “CEO” dessa coalizão.

O centro, pragmático, prefere um CEO a um presidente que não gerencia eficazmente. A busca por alguém mais palatável ao centro, aproveitando a perseguição judicial aos Bolsonaro, parece ter sido prejudicada pela decisão de Jair Bolsonaro de lançar seu filho. O centro agora enfrenta a escolha: seguir o líder com mais votos ou arriscar uma candidatura própria.

O dilema e paradoxo do centro em 2026

Se optar por uma candidatura própria em 2026, o centro enfrentará um dilema: para conquistar os 25-30% necessários no primeiro turno e absorver a direita desgastada, precisará se “ideologizar” com um viés à direita.

O paradoxo é que, ao se tornar mais ideológico, o centro deixaria de ser “centrão”? Correrá o risco de se transformar em uma direita light, perdendo a flexibilidade pragmática que o tornou imbatível na balança de poder? Conseguirá se reinventar como uma força centrista genuína?

A aposta é que, arriscando ou não, vencendo ou não, o centro sobreviverá menos por convicções e mais pela capacidade de adaptação às circunstâncias. Como disse Magalhães Pinto, “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. Essa definição permanece precisa para o centro político brasileiro.

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