Marcola pede para sair e crise de Lulinha chega à antessala do Planalto, ampliando desgaste de Lula

Marcola pede para sair e crise de Lulinha chega à antessala do Planalto, ampliando desgaste de Lula

Resumo

Crise no entorno de Lula se intensifica com saída de Marcola e novas investigações sobre Lulinha

A campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um novo e complexo cenário de desgaste após a revelação de operações financeiras entre Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete e ex-secretário pessoal do presidente, e a empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal. O episódio, que culminou com o pedido de demissão de Marcola da equipe de campanha, intensifica as suspeitas de corrupção e tráfico de influência no círculo presidencial.

Paralelamente, as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, e as conexões do ex-líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, adicionam mais pressão ao Planalto. Esses desdobramentos aproximam a presidência de escândalos que podem comprometer a imagem e a estratégia eleitoral do petista, em um momento crucial para a disputa pela reeleição.

As operações financeiras entre Marcola e Roberta Luchsinger vieram à tona em reportagem do Poder360. Marcola admitiu ter recebido um empréstimo de R$ 249 mil da empresária, afirmando que a transação foi pessoal, já quitada e sem irregularidades, colocando seus sigilos bancário e fiscal à disposição da Justiça. Contudo, a repercussão política levou à sua saída da equipe de campanha, da qual fazia parte desde julho, após deixar a chefia de gabinete da Presidência. As informações foram divulgadas pelo Poder360 e detalhadas em reportagens subsequentes, incluindo as análises sobre o impacto eleitoral.

Marcola, um elo de confiança próximo ao presidente

Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, era considerado um dos auxiliares de maior confiança de Lula. Sua proximidade com o presidente era tamanha que ele era responsável pela agenda presidencial e funcionava como um dos principais canais de comunicação, especialmente considerando que Lula não utiliza telefone celular. Autoridades que precisavam contatar o presidente geralmente o faziam através de Marcola ou de um grupo restrito de assessores.

Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo classificam o caso como um evento que levou a crise para a “antessala do Planalto”. O estrategista eleitoral Roberto Reis avalia que o episódio “tem potencial para prejudicar a campanha e virar um ‘problemão’ para Lula”, especialmente em uma eleição “muito equilibrada”, onde “qualquer movimento de 1% do eleitorado pode ser decisivo”.

Investigações sobre Lulinha e a Operação Sem Desconto

A campanha de Lula tem como estratégia principal blindar o presidente de denúncias de corrupção e suspeitas envolvendo seu entorno, com foco especial em Lulinha, considerado um “principal flanco político”. O filho do presidente é apontado como amigo da empresária Roberta Luchsinger, que está sob investigação da Polícia Federal no desdobramento da Operação Sem Desconto. Esta operação apura um esquema de descontos associativos ilegais que teria desviado mais de R$ 6 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS entre 2019 e 2024.

Em depoimento à PF, Roberta Luchsinger afirmou ter apresentado Lulinha ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, identificado pelos investigadores como um dos principais operadores do esquema. Essas informações levaram à instauração de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar suspeitas de corrupção e tráfico de influência envolvendo a atuação de Lulinha junto a órgãos do governo federal. Dois desses inquéritos foram autorizados pelo ministro André Mendonça.

Um dos inquéritos investiga se Lulinha atuou em favor do “Careca do INSS” em negociações sobre medicamentos à base de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde e o Palácio do Planalto. Outro apura suspeitas de tráfico de influência para beneficiar empresários em contratos da Dataprev. Um terceiro, autorizado por Flávio Dino, investiga um suposto esquema mais amplo de lobby para beneficiar empresas em contratos de tecnologia da informação e segurança digital com órgãos federais.

A defesa de Lulinha nega veementemente qualquer irregularidade, afirmando que o empresário não possui relação com atos ilícitos e que as investigações têm sido marcadas por “vazamentos seletivos e criminosos” de informações sigilosas. Lula, por sua vez, tem declarado que seu filho será investigado “como qualquer outra pessoa” e acusa o uso político do caso para “minar” sua reputação.

Racha na PF e embate com STF marcam investigações

As investigações envolvendo Lulinha expuseram um racha interno na Polícia Federal, com divergências entre delegados sobre o aprofundamento das diligências, e um embate entre a direção da corporação e o ministro André Mendonça, relator dos inquéritos no STF. Enquanto um grupo de delegados defende a expansão das apurações, outro prefere avançar com base nas provas já coletadas.

Inicialmente, Mendonça atendeu a pedidos da PF, como a quebra de sigilos de Lulinha. No entanto, após mudanças na equipe de investigação, o ministro passou a cobrar explicações do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e restringiu o acesso aos autos sigilosos. Mendonça passou a enxergar resistência em setores da PF ao aprofundamento do caso, levando-o a determinar que novos elementos de prova e requerimentos fossem encaminhados diretamente ao seu gabinete, visando reforçar sua supervisão.

Integrantes do governo e da cúpula da PF atribuem essa pressão por novas diligências a uma ala da corporação supostamente alinhada ao bolsonarismo, visando ao desgaste político de Lula às vésperas da campanha presidencial. A falta de transparência, segundo o cientista político Adriano Gianturco, pode gerar desconfiança, mas o impacto real dependerá do avanço das investigações e da forma como a polarização política irá moldar a percepção pública.

Lulinha: o histórico “calcanhar de Aquiles” de Lula

O envolvimento de Lulinha em investigações não é inédito. Desde o primeiro mandato de Lula, seus negócios têm sido alvo de suspeitas de tráfico de influência e favorecimento político. Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 2005, durante a CPMI dos Correios, quando parlamentares da oposição questionaram repasses de R$ 5 milhões da Telemar (atual Oi) para a Gamecorp, empresa da qual Lulinha era sócio. A suspeita era de que o aporte teria ocorrido devido à sociedade do filho do então presidente.

Em 2007, a PF instaurou inquérito para investigar os repasses, e o Ministério Público Federal abriu investigação por suspeitas de tráfico de influência. O caso foi arquivado em 2012. Mais tarde, durante a Operação Lava Jato, em 2015, as investigações sobre a Gamecorp foram reabertas. Em 2019, a PF deflagrou a Operação Mapa da Mina, com mandados de busca e apreensão contra Lulinha e outros envolvidos.

O Ministério Público Federal apontou que empresas ligadas à antiga Telemar/Oi teriam feito R$ 132 milhões em pagamentos a sócios de Lulinha na Gamecorp, sendo que a empresa ligada ao filho do presidente teria recebido cerca de R$ 82 milhões. A suspeita era de que parte desses contratos fosse uma contrapartida por decisões governamentais favoráveis à operadora, como a fusão entre Telemar e Brasil Telecom. Em 2022, o processo foi arquivado após a Justiça Federal de São Paulo anular provas obtidas em medidas consideradas suspeitas posteriormente.

Recentemente, Lulinha voltou ao centro das atenções na CPMI do INSS. O relatório final pediu seu indiciamento e prisão preventiva por supostos crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção passiva. O parlamentar sustentou haver indícios de que Lulinha teria recebido vantagens para facilitar o acesso do lobista “Careca do INSS” a órgãos federais. Um ex-funcionário de Antunes afirmou à PF que o lobista teria pago R$ 25 milhões a Lulinha, além de uma “mesada” de R$ 300 mil, e custeado passagens aéreas e hospedagens de luxo. Apesar da repercussão, o relatório foi rejeitado pela CPMI, com governistas acusando o relator de uso eleitoral da comissão.

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