De Colônia de Pescadores a Gigante Industrial: Os 500 Anos Que Moldaram a Potência Econômica de Santa Catarina

De Colônia de Pescadores a Gigante Industrial: Os 500 Anos Que Moldaram a Potência Econômica de Santa Catarina

Resumo

Santa Catarina: 500 anos de transformação econômica de colônia a potência industrial

Há quase 500 anos, colonos açorianos desembarcaram no litoral catarinense com o objetivo principal de pescar e cultivar mandioca para subsistência. Cinco séculos depois, essa mesma faixa territorial se tornou um polo de indústrias centenárias, portos estratégicos com conexões diretas à Europa e uma das economias mais dinâmicas do país. Esse impressionante desenvolvimento econômico de Santa Catarina é um resultado que as primeiras vilas jamais poderiam ter previsto.

Um exemplo dessa resiliência é a indústria têxtil Teka, de Blumenau. Recentemente, a empresa, que acumula mais de 100 anos de história e enfrentou dificuldades financeiras significativas, teve sua falência evitada por decisão judicial. Projetando um faturamento expressivo para os próximos anos, a Teka demonstra a força da marca e a capacidade de reorganização, com acordos trabalhistas e venda de ativos para superar dívidas.

A jornada da Teka ilustra um panorama mais amplo: Santa Catarina figura como o segundo estado mais competitivo do Brasil, destacando-se em capital humano e segurança pública, além de avançar em potencial de mercado e inovação, segundo o Ranking de Competitividade dos Estados 2025. No entanto, desafios logísticos, como a necessidade de investimentos massivos em infraestrutura, alertam para a importância de acompanhar o ritmo do crescimento industrial. Conforme divulgado pela Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), o estado precisará de cerca de R$ 57 bilhões até 2029 para evitar um colapso logístico.

A Herança da Imigração e a Formação dos Polos Industriais

A configuração industrial atual de Santa Catarina, segundo o professor Hoyêdo Nunes Lins, especialista em desenvolvimento regional, é indissociável do processo histórico de ocupação e colonização. A partir do século XIX, levas de imigrantes, especialmente alemães e italianos, estabeleceram núcleos de colonização que se tornaram a espinha dorsal da estrutura urbana e produtiva do estado. Esses assentamentos evoluíram para funções econômicas específicas.

Joinville, por exemplo, consolidou-se como um centro do complexo eletro-metal-mecânico, impulsionado por oficinas e fábricas que atendiam demandas locais e, posteriormente, se expandiram para o mercado nacional. Blumenau e o Vale do Itajaí se tornaram o epicentro do setor têxtil e de vestuário, com empresas pioneiras como a Hering, fundada em 1880, e uma rede crescente de negócios familiares e cooperativas. No sul do estado, Criciúma desenvolveu uma forte ligação com a economia do carvão, diversificando-se posteriormente para o setor cerâmico.

Da Produção de Subsistência à Liderança em Competitividade

A transformação de Santa Catarina de uma economia de subsistência para um parque industrial diversificado ocorreu em poucas décadas, conforme aponta o economista Alcides Goularti Filho. Entre 1880 e 1945, as indústrias madeireira, alimentícia, carbonífera e têxtil ganharam escala. A metal-mecânica e a moveleira também se consolidaram nesse período, preparando o terreno para o impulso dado por planos estaduais de desenvolvimento e bancos de fomento a partir dos anos 1960.

Empresas como Tupy, Hering, Teka, Sadia, Perdigão e WEG sintetizam essa evolução, partindo de pequenas manufaturas coloniais para se tornarem referências nacionais. O professor Lins destaca a formação de “clusters”, aglomerados produtivos especializados com instituições de apoio e capacitação, como um diferencial catarinense, citando os polos industriais de Joinville e Blumenau como exemplos notáveis. Esses clusters, segundo o economista, sustentam a indústria catarinense contemporânea e evidenciam como a colonização e a cooperação moldaram o mapa produtivo do estado.

Desafios e Oportunidades na Competitividade Catarinense

O estado catarinense, consistentemente entre os mais bem colocados no Ranking de Competitividade dos Estados, lidera em segurança pública e capital humano. Ganhou posições em potencial de mercado, sustentabilidade ambiental e inovação, demonstrando um ambiente favorável para qualificação da mão de obra, negócios e tecnologia. A Fiesc destaca a presença de 12 empresas centenárias e outras quatro com mais de 90 anos em Santa Catarina, com o setor têxtil liderando essa lista.

A taxa de sobrevivência empresarial em Santa Catarina, de 49,3% após cinco anos, é a maior do país, segundo o IBGE. Alexandre Lamas Pena, economista, atribui isso a uma economia diversificada e descentralizada, com polos produtivos especializados que fomentam redes de fornecedores, clientes, trabalhadores qualificados e instituições de ensino. Essa dinâmica facilita a circulação de conhecimento e a adaptação das empresas às mudanças do mercado, aliada a práticas internas de gestão e planejamento.

O Futuro da Indústria Catarinense: Inovação e Expansão Global

A competitividade de Santa Catarina, segundo José Eduardo Fiates, diretor de Inovação e Competitividade da Fiesc, é resultado de decisões estratégicas ao longo de décadas, impulsionadas pela vocação industrial ligada às demandas do mercado local e pela limitação da agricultura extensiva. Essa orientação para o mercado, customização, eficiência operacional e busca por mercados externos são pilares importantes.

No entanto, para os próximos 500 anos, Fiates aponta a necessidade de incorporar mais inovação, flexibilidade, foco em marcas fortes e atuação global. As principais ameaças identificadas são recursos humanos, tecnologia e mercado. O desenvolvimento de profissionais com visão holística e capacidade técnica internacional, a adoção de tecnologias como Inteligência Artificial e a construção de marcas globais são cruciais para o futuro.

A Tupy, empresa metalúrgica com quase 90 anos em Joinville, exemplifica essa evolução. Nascida sem vantagens naturais de matéria-prima ou localização, a empresa construiu suas vantagens competitivas em conhecimento, ciência, tecnologia e qualificação de pessoas. Hoje, a Tupy é uma multinacional presente em cerca de 40 países, investindo em soluções para energia, agronegócio, biocombustíveis e economia circular, mantendo seu centro de inteligência artificial e automação em Santa Catarina devido ao ecossistema favorável.

Infraestrutura e Logística: Gargalos para o Crescimento

Apesar da forte competitividade em outros pilares, Santa Catarina enfrenta desafios significativos em infraestrutura e mobilidade. O estado ocupa a 19ª posição em qualidade de rodovias, um reflexo da necessidade urgente de investimentos. A Fiesc estima R$ 57 bilhões em investimentos necessários entre 2026 e 2029 para a logística do estado, sendo R$ 40,2 bilhões destinados a rodovias.

Maria Teresa Bustamante, presidente do conselho de Comércio Exterior da Fiesc, destaca que os portos catarinenses são bem estruturados, mas o principal gargalo reside no acesso terrestre e na infraestrutura de mobilidade até eles. A carência de alternativas ferroviárias eficientes dificulta o escoamento de mercadorias, com a malha ferroviária em operação sendo limitada e sem conexão com os principais terminais de contêineres.

A concentração de investimentos na faixa litorânea, como a instalação da montadora da BMW em Araquari, intensifica a tendência histórica de “litoralização” do estado. A busca por um crescimento mais interiorizado, que foi tentada com Secretarias de Desenvolvimento Regional, parece ter se mostrado insuficiente para reverter essa concentração econômica.

Capital Humano: O Alicerce Histórico e Futuro da Economia Catarinense

O pilar de capital humano, no qual Santa Catarina lidera o ranking de competitividade, é o insumo mais antigo e constante da economia do estado. A disponibilidade de profissionais qualificados, a forte presença de instituições de ensino e pesquisa e uma cultura empreendedora consolidada são fatores que impulsionam o desenvolvimento de soluções eficientes. Empresas como a Tupy reconhecem que investir em pessoas é um dos principais fatores de competitividade.

Para o futuro, a Fiesc defende a diversificação integrada, combinando setores como tecnologia da informação com produção, biotecnologia com agricultura, e energia com máquinas e equipamentos. Essa integração, alimentada pela circulação de conhecimento, é a chave para a sustentabilidade econômica do estado nos próximos séculos, mantendo a essência de quem opera a máquina e impulsiona o desenvolvimento.

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