Aprofundando a parceria Brasil-China: Desafios históricos e estratégicos na relação bilateral
A China se consolidou como o principal parceiro comercial do Brasil, impulsionando o fluxo de importações e exportações. Paralelamente, capitais chineses têm direcionado investimentos significativos para empresas e negócios em território brasileiro, evidenciando uma relação cada vez mais estreita.
Diante desse cenário, torna-se fundamental que governantes, autoridades, políticos e empresários compreendam as nuances históricas da China, bem como suas estratégias de relacionamento internacional e de investimentos. A dimensão econômica e populacional dos dois países oferece um panorama relevante para essa análise.
O Brasil, com seus 215,3 milhões de habitantes, e a China, com aproximadamente 1,4 bilhão de pessoas, compartilham uma relação comercial vital. A China, focada em garantir o suprimento de alimentos para sua vasta população, encontra no Brasil um parceiro estratégico, especialmente devido à história chinesa marcada por períodos de escassez e fome.
A História da China: Fome, Comunismo e Reformas Econômicas
A busca chinesa por segurança alimentar tem raízes históricas profundas. Após a Segunda Guerra Mundial, a China enfrentou anos de extrema pobreza e fome, eventos que contribuíram para a ascensão do comunismo em 1949, sob a liderança de Mao Tsé-tung. O regime de Mao, marcado por repressão e novas ondas de fome, resultou em estimativas de dezenas de milhões de mortes entre 1958 e 1961, com especial impacto sobre proprietários rurais.
O legado de Mao Tsé-tung, que durou até sua morte em 1976, viu a população chinesa duplicar. A virada na política chinesa ocorreu em 1978, com a ascensão de Deng Xiaoping. Ele iniciou reformas que introduziram elementos capitalistas, como a propriedade privada e a liberdade de mercado, promovendo o estímulo ao lucro e à iniciativa individual.
O “Choque de Capitalismo” Chinês e suas Implicações
Sob a liderança de Deng Xiaoping, a China implementou uma política complexa, combinando o controle comunista no espectro político com um “choque de capitalismo” na economia. A “política de filho único”, imposta em 1981, visava controlar o crescimento populacional, enquanto o governo estimulava o enriquecimento pessoal e a meritocracia. Essa estratégia buscava aumentar a arrecadação de impostos para financiar programas sociais.
A introdução de estruturas capitalistas em um regime ditatorial forçou a China a adotar práticas macroeconômicas típicas de economias de mercado. Isso incluiu o controle da inflação, a vinculação de salários à produtividade e uma política cambial realista para sustentar o comércio exterior. Essa gestão macroeconômica, baseada em princípios técnicos e científicos, provou ser eficaz.
Lições para o Brasil e os Riscos da Aproximação
O modelo chinês demonstra que políticas econômicas eficazes não são exclusivas de sistemas democráticos ou neoliberais, mas sim instrumentos de gestão macroeconômica determinados pela realidade e pela lógica do sistema produtivo. No entanto, o excesso de dirigismo estatal pode levar a distorções, como a bolha imobiliária chinesa e o surgimento de “cidades fantasmas”.
Declarações que admiram o sistema chinês, minimizando a importância do déficit público e da inflação, podem indicar uma falta de compreensão ou demagogia, conforme aponta a análise. Foi o respeito a regras fundamentais da economia capitalista que permitiu à China tirar milhões de pessoas da pobreza em poucas décadas.
Estratégias Chinesas e a “Nova Rota da Seda”
Conhecer a história e as estratégias da China é crucial para o Brasil, tanto para negociar de forma mais eficaz quanto para se defender de táticas que buscam a “ocupação” de espaços estratégicos, como a aquisição de terras e a instalação de empresas. A iniciativa “Nova Rota da Seda” exemplifica como a China utiliza investimentos massivos em infraestrutura para criar dependência e garantir lealdade em outros países.
É fundamental que as autoridades brasileiras e a sociedade compreendam que a China não busca “amigos”, mas sim “parceiros e aliados” que sirvam aos seus interesses. A proximidade excessiva com a China, em detrimento de relações com democracias ocidentais como os Estados Unidos, pode representar um risco significativo para o futuro do Brasil, dada a natureza autoritária do regime chinês em contraste com os sistemas democráticos e de livre mercado.