Paraná: Segurança Pública é Real ou Ilusão? Homicídios Caem, Mas Trânsito e Suicídios Disparam e Escaldam Números
Anualmente, os dados de segurança pública no Paraná apresentam uma narrativa recorrente: o estado está se tornando mais seguro. De fato, em 2024, o Paraná registrou 1.858 mortes por homicídio, o menor número desde 2020, com uma taxa de 17,1 por 100 mil habitantes, significativamente abaixo da média nacional. Essa redução consistente nos homicídios é um ponto positivo, colocando o estado em uma posição favorável em comparação com outros indicadores nacionais.
No entanto, essa é apenas uma parte da história. No mesmo período, o trânsito ceifou a vida de 2.865 pessoas, e 1.247 paranaenses tiraram a própria vida. Essas são três formas de morte violenta, e enquanto uma diminui, as outras duas aumentam, alterando drasticamente a percepção geral da segurança.
A estatística oficial de segurança pública foca na queda dos homicídios, mas ignora o crescimento alarmante de mortes por outras causas. O problema não reside na falsidade dos dados apresentados, mas sim em sua incompletude. A violência que o estado aprendeu a medir e combater está recuando, mas aquela que prefere não ser contada, ou que não é classificada como crime, continua a crescer em silêncio. Conforme divulgado por fontes oficiais, a análise completa desses números revela um cenário mais complexo.
Homicídios em Queda, Mas o Perigo nas Ruas Aumenta
A trajetória descendente dos homicídios no Paraná é notável. Foram 2.060 em 2020, atingindo um pico de 2.238 em 2022, para então cair para 1.979 em 2023 e 1.858 em 2024. Essa queda de 9,8% no período é um indicativo positivo, especialmente quando comparada a outras metrópoles brasileiras que enfrentam taxas de homicídio muito mais elevadas. A taxa atual de 17,1 por 100 mil habitantes coloca o Paraná em vantagem.
Contudo, essa melhora é ofuscada pelo aumento das mortes no trânsito. Em 2020, foram 2.525 óbitos em acidentes. Em 2024, este número saltou para 2.865, um aumento de 13,5% e o recorde da série histórica. Desde 2021, o trânsito já vitimava mais que o homicídio no estado. Em 2024, a diferença foi de 1.007 mortes a mais. Se removidas as fatalidades no trânsito, o Paraná pareceria um dos estados mais seguros do Brasil.
Rodovias Federais: Um Corredor de Mortes Ignorado
O cenário nas rodovias federais que cortam o Paraná é ainda mais preocupante. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou 607 mortes em 2024, um aumento de 15,4% em relação a 2020. A BR-277, uma das principais vias do estado, foi palco de 164 mortes, tornando-se a rodovia mais letal da região Sul. A BR-376 somou outras 126 mortes. Essas 607 fatalidades, se contabilizadas como homicídios, colocariam o Paraná em uma posição de maior risco. No entanto, são categorizadas como acidentes, excluídas dos boletins de segurança pública e raramente recebem a devida atenção.
Suicídio: A Crise Silenciosa que Mata Mais
O dado mais alarmante e menos discutido é o aumento do suicídio. Houve um crescimento de 33,4% em cinco anos no Paraná, com 1.247 mortes registradas em 2024. Cinco anos consecutivos com mais de 900 casos e quatro deles ultrapassando a marca de 1.100. Essa crise de saúde mental silenciosa tirou a vida de 5.619 pessoas no estado entre 2020 e 2024, mortes que não entram nas estatísticas de segurança pública por não serem crimes.
O suicídio já supera o homicídio em diversas faixas etárias acima dos 30 anos, vitimando mais de três pessoas por dia no Paraná. A falta de estrutura de atenção psicossocial adequada na maioria dos municípios agrava o problema, que cresce sem visibilidade e sem políticas públicas proporcionais. O sul do Brasil, historicamente, já apresenta taxas de suicídio acima da média nacional, e o crescimento contínuo no Paraná exige atenção urgente.
Violência contra a Mulher: Um Ponto de Atenção Crescente
Enquanto o número geral de homicídios cai, as mortes de mulheres apresentaram um aumento de 18,3%, passando de 197 em 2020 para 233 em 2024. São 46 mortes a mais por ano, indicando que a violência doméstica e o feminicídio seguem dinâmicas próprias, não respondendo aos mesmos fatores que reduzem o homicídio masculino. A Lei Maria da Penha, apesar de seus 18 anos, ainda não conseguiu reverter essa tendência preocupante.
Em suma, a soma de homicídios, mortes no trânsito e suicídios entre 2020 e 2024 totalizou 47.048 mortes por causas externas no Paraná, uma média de 9.400 por ano, ou mais de 25 mortes violentas por dia. O debate público e os recursos de segurança tendem a se concentrar nos homicídios, que estão em queda, enquanto o trânsito e o suicídio crescem à margem, com seus números alarmantes raramente discutidos em profundidade.