Protestos no Irã: Por que a revolta dos comerciantes do Grande Bazar deixa o regime dos aiatolás em xeque?

Protestos no Irã: Por que a revolta dos comerciantes do Grande Bazar deixa o regime dos aiatolás em xeque?

Resumo

A base do poder iraniano agora se volta contra o regime, sinalizando um futuro incerto para os aiatolás.

O desfecho dos atuais protestos no Irã ainda é incerto, mas um fator se destaca como uma diferença crucial em relação a manifestações passadas contra o regime dos aiatolás. A crescente revolta do histórico Grande Bazar de Teerã, um pilar financeiro e simbólico do país, indica dificuldades significativas para a ditadura islâmica no futuro.

As manifestações, impulsionadas por uma severa crise econômica, com a moeda local, o rial, desvalorizada em 84% em relação ao dólar em 2025 e a inflação de alimentos atingindo 72% segundo o The Wall Street Journal, tiveram seu epicentro no Grande Bazar. Este complexo, com mais de 10 quilômetros de corredores, sempre representou a força do comércio iraniano.

Esses empreendedores, que historicamente apoiaram o movimento radical islâmico que derrubou o xá em 1979 e dominaram instituições chave do novo regime, como ministérios e o Conselho dos Guardiões, agora demonstram uma insatisfação profunda. Conforme informação divulgada pelo The Wall Street Journal e comentada pela Al Jazeera, os protestos atuais marcam a primeira vez que um movimento em larga escala do Bazar mira diretamente o governo dos aiatolás.

O Bazar: De Aliado a Crítico do Regime

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em discurso no início de janeiro, tentou acalmar os ânimos, afirmando a lealdade dos comerciantes e sugerindo que agentes externos estariam explorando insatisfações pontuais. Khamenei declarou que “a classe comerciante e mercantil está entre as classes mais leais do país ao sistema islâmico e à Revolução Islâmica”.

Ele acrescentou, “É absolutamente inaceitável que algumas pessoas, sob diversos títulos e nomes, se aproximem dos bazares fiéis, saudáveis e revolucionários com a intenção de destruí-los, de tornar o país inseguro, de se aproveitar de seus protestos, de criar o caos. O trabalho do inimigo deve ser reconhecido”. No entanto, essas declarações parecem não refletir a realidade vivida pelos comerciantes.

Erosão Econômica e Perda de Influência

Kayhan Valadbaygi, pesquisador do Instituto Internacional de História Social, em artigo para a Al Jazeera, contesta a visão de Khamenei. Ele explica que a posição econômica do Bazar foi progressivamente corroída nos últimos 20 anos. Isso ocorreu devido ao favoritismo estatal à Guarda Revolucionária Islâmica e às grandes fundações religioso-revolucionárias (bonyads), além da má gestão das sanções econômicas e a inflação crônica.

Como resultado, o que antes era um “alicerce inabalável do regime” tornou-se, segundo Valadbaygi, “mais uma vítima da disfunção sistêmica”. O pesquisador alerta que o Bazar, que antes funcionava como uma “força estabilizadora” do governo, está perdendo cada vez mais esse papel crucial.

Um Desafio Difícil de Conter

Um comerciante do Grande Bazar de Teerã, falando anonimamente à agência Reuters, desabafou sobre as dificuldades enfrentadas. “Estamos passando por dificuldades. Não conseguimos importar mercadorias por causa das sanções dos EUA e porque somente a Guarda Revolucionária ou pessoas ligadas a ela controlam a economia. Eles só pensam nos próprios interesses”, relatou.

Valadbaygi projeta que, embora o regime possa não cair imediatamente, a crescente revolta dos comerciantes pode ser o fator decisivo em futuras crises. “A agitação teve origem no Bazar e continua lá, mesmo com Khamenei insistindo na lealdade dos comerciantes. As declarações dele não demonstram confiança, mas sim ansiedade, e a afronta aberta do Bazar demonstra que o desafio enfrentado agora pela República Islâmica é muito mais difícil de conter”, concluiu o pesquisador.

O Futuro Incerto dos Aiatolás

A mudança de postura de um setor tão fundamental para a economia e a política iraniana representa um **desafio sem precedentes para o regime dos aiatolás**. A perda do apoio, ou mesmo a oposição ativa, de uma base historicamente leal como a do Grande Bazar, pode acelerar o processo de instabilidade e questionamento do poder estabelecido no Irã.

Tags:

Notícias todos os dias!

De domingo a domingo, as notícias que você não pode perder em seu e-mail.

Veja também