Libertação de presos políticos na Venezuela revela o horror das prisões sob Maduro. Relatos chocantes de tortura e abusos ecoam após a captura do ditador.
A recente onda de libertações de presos políticos na Venezuela, impulsionada pela pressão dos Estados Unidos e pela captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores, trouxe à tona relatos assustadores sobre as condições desumanas nas prisões do regime chavista.
Ex-detentos descrevem um cenário de tortura física e psicológica, isolamento absoluto, uso forçado de medicamentos e ameaças constantes de morte. As organizações de direitos humanos contestam os números oficiais de libertação, apontando para a falta de transparência e a persistência de detenções arbitrárias.
As histórias de sobreviventes pintam um quadro sombrio da repressão chavista, com um padrão recorrente de abusos que visa silenciar qualquer forma de oposição. A comunidade internacional acompanha de perto os desdobramentos e a real extensão da crise humanitária no país.
A Liberação sob Pressão Internacional
Sob intensa pressão dos Estados Unidos, o regime chavista, agora interinamente comandado por Delcy Rodríguez, iniciou a liberação de parte dos presos políticos detidos durante a gestão de Nicolás Maduro, que foi capturado em uma operação militar em Caracas. O regime afirma ter libertado mais de 400 pessoas.
Entretanto, organizações de direitos humanos contestam esses números. A ONG Justicia, Encuentro y Perdón (JEP) confirmou apenas 257 libertações por meio de verificações independentes. O Foro Penal, que acompanha detenções arbitrárias há mais de duas décadas, também rejeita os dados oficiais, indicando que o número de presos políticos na Venezuela ainda ultrapassa mil.
Relatos de Tortura e Desumanização
Aqueles que deixaram as prisões venezuelanas relatam o tratamento desumano que sofreram. David, um mototaxista colombiano detido na fronteira, contou ao canal chileno Meganoticias sobre seus 13 meses de prisão. Ele foi detido sem explicações formais, acusado de associação criminosa, e impedido de falar com advogados ou familiares.
David descreveu ter sido algemado, encapuzado e espancado em um quartel antes de ser transferido para Caracas. No Centro Penitenciário Rodeo I, ele foi vítima de choques elétricos, queimaduras com água quente e cal, e privação de sono. Guardas jogavam spray de pimenta em sua cela, batiam portas e usavam lanternas para impedir qualquer descanso.
Ele também relatou o uso de comprimidos sem saber o que eram e a total falta de contato com sua família durante todo o período, que desconhecia seu paradeiro. Sua libertação ocorreu sem explicações, sendo obrigado a assinar um documento afirmando que não sofreu maus-tratos.
O Horror das Prisões para Estrangeiros
Cidadãos europeus libertados também compartilharam experiências semelhantes. O empresário italiano Mario Burlò, preso sob acusações de terrorismo e conspiração sem provas formais, passou quase um ano incomunicável, levando sua família na Itália a acreditar que ele estivesse morto.
Burlò descreveu as condições no presídio Rodeo I como degradantes, com necessidade de dormir no chão entre baratas, em celas pequenas e sem luz adequada. A comida era escassa e entregue por uma pequena abertura, sem contato humano. O acesso ao pátio era restrito e visitas familiares proibidas.
“Até os cães têm necessidades diárias. Nós éramos tratados pior que cães”, afirmou Burlò, classificando o isolamento prolongado como tortura psicológica. Ele também relatou a intimidação constante por guardas que usavam balaclavas e apelidos, como um que se identificava como “Hitler”.
O Preço da Liberdade e a Persistência da Repressão
Alberto Trentini, outro italiano libertado, descreveu seus 423 dias de prisão como tendo deixado marcas “indeléveis” e um preço “muito alto” para sua felicidade. Seus pensamentos permanecem com os presos que ainda estão detidos na Venezuela.
Na Argentina, a família de Yaacob Eliahu Harary, de 72 anos, relatou que ele descreveu sua libertação após 490 dias como “sair do inferno”. Harary foi vítima de maus-tratos, humilhações e uso de medicamentos psiquiátricos como sedativos. Ele presenciou tentativas de suicídio e o regime chavista nunca o informou sobre a morte de sua companheira.
Apesar das libertações, líderes opositores e organizações alertam que o sistema de repressão chavista permanece intacto. A falta de transparência, as detenções arbitrárias e os relatos consistentes de tortura indicam que as libertações atuais não representam uma mudança estrutural na Venezuela. Diosdado Cabello, por sua vez, negou a existência de presos políticos, afirmando que as libertações são revisões de casos ordenadas por Maduro antes de sua captura.