Congresso dos EUA Investiga ONGs de Esquerda por Suspeita de Influência Chinesa
O Congresso dos Estados Unidos está conduzindo uma investigação aprofundada sobre diversas organizações não governamentais (ONGs) de esquerda, levantando suspeitas de que estas possam estar servindo como ferramentas de influência para o Partido Comunista da China (PCCh) em território americano.
A apuração ocorre em duas frentes distintas, mas interligadas. Comitês da Câmara dos Deputados investigam a chamada “Rede Singham”, enquanto o Departamento de Estado emitiu um relatório detalhado sobre campanhas estruturadas de manipulação e interferência estrangeira no setor de informação dos EUA.
O relatório do Departamento de Estado, intitulado “Combate à Manipulação e Interferência Estrangeira na Informação”, aponta que a China utiliza uma variedade de canais para disseminar suas narrativas, incluindo diplomatas, mídias estatais, influenciadores digitais e, notavelmente, ONGs. Conforme divulgado pelo jornal New York Post, o documento cita especificamente a Code Pink e o People’s Forum como organizações que teriam promovido conteúdos e mobilizações alinhadas às posições defendidas por Pequim nos Estados Unidos.
ONGs sob Holofote: Feminismo e Marxismo como Plataformas de Influência
A Code Pink, fundada em 2002, autodenomina-se uma organização feminista e anti-guerra, conhecida por seus protestos contra intervenções militares americanas. Nos últimos anos, a organização adotou a campanha “A China Não é Nossa Inimiga”, argumentando que Washington tem uma postura hostil em relação a Pequim. O relatório do Departamento de Estado indica que a Code Pink tem promovido viagens de seus membros à China, realizado seminários com avaliações positivas sobre a revolução comunista e divulgado conteúdos favoráveis ao regime chinês.
Por outro lado, o People’s Forum, estabelecido em 2018 em Nova York, descreve-se como um centro de formação política marxista e anti-imperialista. A organização promove cursos, debates e mobilizações progressistas nos EUA. De acordo com o relatório, o People’s Forum estuda e apresenta a Revolução Chinesa como um modelo a ser seguido globalmente, além de ter organizado manifestações em defesa de regimes alinhados a Pequim, como o governo de Nicolás Maduro.
A subsecretária de Estado dos EUA para Diplomacia Pública, Sarah Rogers, declarou ao New York Post que organizações como a Code Pink e o People’s Forum “denigrem os Estados Unidos, branqueiam a violência de regimes marxistas e protegem a China enquanto recebem recursos de uma rede de doadores com conexões ao Partido Comunista Chinês”. O Departamento de Estado busca, segundo ela, “transparência completa para as redes de doadores e ONGs que fazem lobby para nossos adversários e procuram enfraquecer a determinação dos Estados Unidos”.
A “Rede Singham”: Financiamento e Conexões Suspeitas
Paralelamente ao relatório governamental, comitês da Câmara investigam a chamada “Rede Singham”. Esta rede seria composta por organizações progressistas que recebem financiamento do empresário americano Neville Roy Singham, que reside em Xangai, na China. As investigações sugerem que Singham possui ligações próximas com o PCCh, levantando suspeitas de que os recursos repassados por ele estariam financiando uma rede de influência a serviço de Pequim em solo americano.
Depoimentos ao Comitê de Formas e Meios da Câmera dos EUA indicam que Singham teria investido ao menos US$ 100 milhões para estruturar essa rede, utilizando empresas de fachada e fundos de doação para ocultar a origem do dinheiro. Testemunhas afirmam que Singham frequentou treinamentos de propaganda do PCCh, compartilhou escritórios com mídias estatais chinesas e utilizou brechas legais para canalizar fundos através do banco Goldman Sachs.
A Code Pink e o People’s Forum estariam entre as organizações beneficiadas por essa rede. Outras entidades investigadas incluem o Party for Socialism and Liberation (PSL), a ANSWER Coalition, a BreakThrough BT Media (responsável pelo site BreakThrough News) e o Tricontinental: Institute for Social Research. Cada uma dessas entidades desempenharia um papel específico na disseminação de mensagens pró-Pequim, desde a mobilização de manifestantes até a amplificação de conteúdo na mídia.
Lei de Registro de Agentes Estrangeiros em Pauta
Um ponto crucial da investigação é a possível aplicação da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA). Esta lei exige que entidades atuando politicamente em nome de governos estrangeiros se registrem no Departamento de Justiça dos EUA e divulguem suas fontes de financiamento e atividades. Caso seja comprovado que os recursos enviados por Singham estavam vinculados a interesses do PCCh e que as ONGs atuaram em nome de um interesse estrangeiro sem o devido registro, elas poderão ser obrigadas a se registrar formalmente sob a FARA, o que pode acarretar sanções civis e criminais.
A estrutura de financiamento associada a Singham já havia sido detalhada em 2023 pelo jornal The New York Times. A reportagem indicava que, após vender sua empresa, Singham direcionou parte de sua fortuna para financiar ONGs, cujas pautas progressistas frequentemente se alinhavam à propaganda chinesa. Na época, Singham negou veementemente qualquer vínculo político com Pequim.
Propaganda Chinesa em Diversas Frentes Digitais
A disseminação de narrativas favoráveis à China nos EUA não se limita às ONGs investigadas. Em janeiro deste ano, a revista Newsweek revelou a existência de uma rede com 43 domínios e 37 subdomínios digitais que se passavam por grandes veículos de imprensa ocidentais. Essas páginas imitavam a identidade visual e o conteúdo de jornais como The New York Times e The Wall Street Journal, enquanto inseriam material editorial alinhado à mídia estatal chinesa.
A investigação identificou conexões técnicas entre esses sites falsos e empresas chinesas previamente associadas a campanhas de promoção do regime comunista. Parte desse conteúdo teria sido amplificada por meio da operação “spamouflage”, que utiliza perfis falsos e publicações coordenadas para impulsionar propaganda em plataformas ocidentais, demonstrando a amplitude das táticas empregadas para influenciar a opinião pública nos Estados Unidos.