A complexa teia que une crime organizado e torcidas no Brasil
A relação entre facções criminosas e torcidas organizadas no Brasil tem se tornado cada vez mais evidente e preocupante. Casos recentes no Ceará e em São Paulo expõem como grupos fora da lei exercem influência direta, chegando a destituir líderes e ditar regras em eventos futebolísticos.
Essa influência não se limita a ações pontuais, mas reflete uma expansão territorial do crime organizado que o leva a interagir e, em muitos casos, a regular atividades em comunidades controladas. A dinâmica se torna ainda mais complexa quando a violência é um fator presente, com o crime atuando como um poder paralelo.
Especialistas apontam que essa intervenção, embora possa parecer trazer uma certa pacificação momentânea, revela a fragilidade do poder estatal em conter a força e o alcance dessas organizações criminosas. A situação exige um olhar atento sobre as raízes dessa conexão e seus desdobramentos.
Conforme apontado por especialistas, a relação entre torcidas organizadas e crime organizado no Brasil é complexa, mas distinta. É fundamental reconhecer que pertencem a mundos diferentes, com atores, histórias e dinâmicas muito distintas, e não podem ser equiparados.
O caso exemplar no Ceará: “Salves” criminosos ditam regras
O primeiro Clássico-Rei de 2026, entre Fortaleza e Ceará, marcado por intensos confrontos entre torcedores que resultaram na detenção de centenas de pessoas, serviu de palco para uma demonstração de poder do crime organizado. Após as brigas, presidentes de duas das principais torcidas anunciaram renúncias, supostamente sob ordens transmitidas via internet por grupos como o Comando Vermelho (CV) no Ceará.
Essas ordens, conhecidas como “salves”, teriam proibido brigas entre torcedores, com a justificativa de que os conflitos atraem operações policiais para as comunidades. Além disso, há relatos de determinações para o fechamento de lojas e sedes das torcidas organizadas, afetando diretamente sua economia e estrutura.
A Polícia Civil e o Ministério Público do Ceará investigam o caso, mas a confirmação oficial da relação direta com o poder paralelo ainda aguarda desdobramentos. Contudo, a divulgação online de conteúdos indicando essa interferência levanta sérias questões sobre o controle exercido por facções.
Expansão territorial do crime e a interação com torcidas
O sociólogo e especialista em torcidas organizadas, Nico Cabrera, explica que a contínua expansão territorial do crime organizado no Brasil nas últimas décadas é um fator chave para entender essa interação. Em regiões como o Rio de Janeiro, milhões de pessoas vivem sob o domínio ou influência de grupos armados, um cenário que se repete em outras grandes cidades do país.
Essa presença territorial inevitavelmente leva a interações. Cabrera exemplifica que, para uma torcida organizada realizar uma ação social em uma comunidade, é preciso dialogar com as lideranças locais, o que inclui, logicamente, a facção que controla o território. Indivíduos também podem transitar entre os dois universos sem que isso signifique controle institucional.
O paradoxo da “pacificação” imposta pelo crime
Um aspecto paradoxal dessa relação, segundo Cabrera, é que o crime organizado, em certas situações, atua como um regulador da violência entre torcidas. Através dos “salves”, grupos criminosos podem exigir a interrupção de confrontos, o que, em tese, contribui para uma pacificação local.
No entanto, essa intervenção revela um problema mais profundo: a demonstração de que o poder paraestatal, em determinados contextos, pode ser mais efetivo que o próprio poder estatal na manutenção da ordem. Essa dinâmica, observada em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Pará e Ceará, aponta para um desafio significativo na gestão da segurança pública.
Morte de líder da Mancha Verde e a ligação com o PCC
Em 2017, o assassinato de Moacir Bianchi, fundador da Mancha Verde, torcida do Palmeiras, evidenciou ainda mais as conexões. Um dos condenados pela morte, Marcello Ventola, ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital), teria sido o motivo de um desentendimento interno na torcida. Bianchi teria se insurgido contra a entrada de figuras ligadas ao crime organizado na diretoria da organizada.
A história das torcidas organizadas no Brasil remonta aos anos 1950, com um caráter inicialmente festivo. Com o tempo, tornaram-se mais estruturadas e hierarquizadas. A violência, no entanto, ganhou visibilidade a partir dos anos 1980, com o aumento dos confrontos e mortes. Dados indicam que centenas de pessoas morreram em episódios de violência ligados ao futebol entre 1988 e 2023.