Lula: Críticas duras à Venezuela e silêncio ambíguo sobre a Ucrânia expõem hipocrisia na política externa
A política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido marcada por uma notável dualidade no tratamento de conflitos internacionais. Enquanto o mandatário brasileiro demonstra veemência ao criticar ações dos Estados Unidos contra a Venezuela, sua postura em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia tem sido alvo de críticas pela ambiguidade, conforme aponta a Gazeta do Povo.
Essa divergência de tom reflete, segundo a análise, a estratégia do governo em fortalecer o bloco dos Brics, que recentemente incluiu a Venezuela, e, ao mesmo tempo, buscar reduzir a influência norte-americana na América Latina. A maneira como Lula aborda a soberania de cada nação parece variar conforme a origem da ameaça percebida.
A reportagem destaca as principais manifestações de Lula e do governo brasileiro sobre os dois conflitos, evidenciando a diferença de abordagem em cada caso e gerando debates sobre a consistência da diplomacia brasileira no cenário global.
Lula defende Venezuela e critica EUA com veemência sem precedentes
Em relação à Venezuela, o governo brasileiro tem se distanciado da neutralidade. Ao receber Nicolás Maduro no Brasil em maio de 2023, Lula não poupou críticas às sanções impostas pelos Estados Unidos, chegando a compará-las a crimes de guerra. Ele afirmou que o bloqueio é, muitas vezes, mais cruel do que um conflito armado.
“Eu sempre acho que o bloqueio é pior do que uma guerra, porque na guerra, normalmente, morre soldado que está em batalha, mas o bloqueio mata criança, mulheres, pessoas que não têm nada a ver com a disputa ideológica que está em jogo”, declarou o presidente brasileiro no Palácio do Planalto.
Essas declarações geraram reações. O então presidente do Chile, Gabriel Boric, criticou a postura de Lula, ressaltando a dor de centenas de milhares de venezuelanos que vivem em seu país e que clamam por uma posição clara. Tamara Taraciuk Broner, diretora da Human Rights Watch, considerou um “insulto às vítimas” o discurso de Lula sobre “narrativas” diante de relatos de crimes contra a humanidade na Venezuela.
Em outubro do ano passado, diante do aumento da presença naval americana no Caribe, o tom de Lula se elevou. Ele afirmou que nenhum presidente deveria se intrometer nos assuntos venezuelanos e defendeu o respeito à autodeterminação dos povos e à soberania territorial. Lula também se manifestou contra a possibilidade de invasões, mesmo em operações de combate ao narcotráfico.
“Você não pode simplesmente dizer que vai invadir o território de outro país. É preciso respeitar a Constituição, a autodeterminação dos povos e a soberania territorial”, disse Lula em entrevista na Indonésia. Após os recentes bombardeios em Caracas e a captura de Maduro, Lula declarou que os EUA “ultrapassam uma linha inaceitável”, classificando os atos como uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela”.
Ambiguidade de Lula sobre a Ucrânia contrasta com a postura firme na Venezuela
Em contrapartida, as falas de Lula sobre a guerra na Ucrânia são marcadas por uma divisão de responsabilidades, evitando a condenação direta de Vladimir Putin. Em maio de 2023, o presidente brasileiro sugeriu que a Ucrânia também teria parcela de culpa no início do conflito, gerando atritos com o Ocidente.
“Eu continuo achando que quando um não quer, dois não brigam. É preciso encontrar quem quer a paz, palavra que até agora foi muito pouco utilizada”, afirmou Lula durante a cúpula do G7 no Japão. Essa declaração foi vista por muitos como um endosso à narrativa russa.
Em abril do mesmo ano, Lula criticou o envio de armas pelos Estados Unidos para auxiliar a Ucrânia, argumentando que isso fomentava o conflito. “É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz”, disse o presidente em Portugal.
O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Kirby, criticou Lula na época, acusando-o de “papaguear a propaganda russa e chinesa” e de sugerir que os EUA e a Europa não tinham interesse na paz. A postura brasileira foi considerada “profundamente problemática” por Washington.
Mesmo após bombardeios russos em centros civis em Kiev em setembro passado, as notas oficiais do Itamaraty mantiveram um tom impessoal, sem citar a Rússia como responsável pelos ataques. O governo brasileiro manifestou pesar pelas vítimas e reafirmou a disposição em contribuir para uma solução diplomática, mas sem apontar explicitamente o agressor.
Brics e a estratégia de Lula para remodelar a ordem global
A postura ambígua de Lula em relação ao conflito na Ucrânia e sua defesa enfática da Venezuela estão alinhadas com a estratégia de fortalecer os Brics. A inclusão recente de países como a Venezuela no bloco, que já conta com Rússia e China, sinaliza uma tentativa de criar um contraponto à influência ocidental.
Ao criticar as ações dos EUA contra a Venezuela, Lula busca reforçar a narrativa de que o bloco Brics representa uma alternativa às potências tradicionais, promovendo uma ordem mundial multipolar. Essa abordagem, no entanto, levanta questionamentos sobre a defesa dos direitos humanos e a aplicação consistente de princípios democráticos na política externa brasileira.