Alta nos combustíveis vira campo de batalha eleitoral e expõe rachadura entre governo federal e estados
A disputa pela Presidência em 2026 ganha um novo e explosivo ingrediente: a alta desenfreada dos combustíveis. Os preços nas bombas não afetam apenas o bolso do consumidor, mas se tornaram um fator decisivo no humor do eleitor e no cenário político.
Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) correm contra o tempo para conter o aumento, enquanto a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ganha força em pesquisas eleitorais. A avaliação em Brasília é clara: a economia, especialmente o custo do diesel, pode definir o futuro do país.
Uma pesquisa recente da AtlasIntel, divulgada nesta quarta-feira (25), aponta um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. Com 46,6% para Lula e 47,6% para Flávio, a margem de erro de um ponto percentual acende o sinal vermelho no Palácio do Planalto. Conforme apurado pela AtlasIntel, o levantamento ouviu 5.028 eleitores entre 18 e 23 de março, com 95% de nível de confiança e registro no TSE sob o número BR-04227/2026.
Preços do diesel no centro da estratégia eleitoral
O governo federal passou a tratar o preço do diesel como uma variável crucial na corrida presidencial. A percepção é que a escalada dos combustíveis gera um efeito cascata, pressionando o custo do frete, dos alimentos e, consequentemente, a inflação. Isso aumenta o desgaste da atual gestão em um momento crítico.
Para o cientista político André César, da Hold Assessoria Legislativa, o avanço de Flávio Bolsonaro exige uma reação mais contundente do governo nas áreas de comunicação e economia. Ele avalia que o senador consolida-se como principal nome da oposição, atraindo apoio de diversos setores.
César ressalta que o cenário internacional, com tensões entre Irã, Estados Unidos e Israel, agrava a pressão sobre o governo, impactando diretamente o preço dos combustíveis e o humor do eleitor. “O bolso é o ‘órgão’ mais sensível do corpo humano”, afirma, destacando que a economia pode ser determinante para o resultado eleitoral.
Guerra de versões: governo e estados divergem sobre solução
Em março, o Planalto zerou alíquotas de PIS/Cofins sobre combustíveis e anunciou uma subvenção de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores, buscando alívio imediato. Em outra frente, o governo tentou pressionar os governadores a reduzirem impostos estaduais, como o ICMS, mas encontrou resistência.
A proposta de dividir o ônus, seja por redução de ICMS ou subsídios, gerou um novo foco de atrito. A ideia em discussão prevê que a União e os estados dividam o custo de um abatimento equivalente ao imposto, contornando entraves legais e agilizando a medida em pleno ano eleitoral.
O Ministério da Fazenda sugeriu uma subvenção de R$ 1,20 por litro do diesel na importação, sendo R$ 0,60 da União e R$ 0,60 dos estados. O governo aguarda resposta final dos estados na reunião do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu a medida, afirmando que ela oferece uma resposta mais rápida às consequências da guerra e não exige renúncia fiscal de ICMS. No entanto, governadores resistem, vendo a proposta como uma tentativa de transferir o custo político para os estados.
“Não há como transferir para os governos estaduais aquilo que é responsabilidade do governo federal”, declarou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que busca viabilizar sua candidatura à Presidência.
Críticas e acusações marcam o embate
Após reunião com caminhoneiros, o ministro Guilherme Boulos (PSOL) criticou governadores por não aceitarem reduzir o ICMS sobre combustíveis, acusando-os de omissão. Ele declarou que os caminhoneiros “não podem pagar o preço da omissão de determinados governadores que não querem mexer no ICMS”.
Cesar Queiroz, especialista de mercado, considera essas medidas em ano eleitoral como “eleitoreiras”. Ele explica que a flutuação de preços em commodities essenciais como combustíveis impacta amplamente a economia e a percepção política.
Queiroz vê com cautela a substituição da redução de ICMS por subvenção, argumentando que, a médio e longo prazo, pode ser “trocar seis por meia dúzia”. Ele classifica a medida como uma tentativa de contornar o problema sem resolver a questão estrutural.
PT repete estratégia de Bolsonaro em 2022
A tentativa do governo Lula de conter a alta dos combustíveis em meio à pressão eleitoral ecoa a estratégia adotada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022. Naquele ano, o Planalto também apostou na redução de tributos federais e articulou mudanças no ICMS.
A limitação das alíquotas de ICMS sobre combustíveis, energia e transporte em 2022 reduziu o preço final ao consumidor, mas gerou forte impacto nas contas estaduais, com perdas bilionárias estimadas por governadores. A União, posteriormente, precisou compensar parte dessas perdas.
Na época, o PT criticou duramente as medidas de Bolsonaro, classificando-as como eleitoreiras e temporárias. Hoje, diante de um cenário similar de pressão inflacionária e disputa acirrada, o governo Lula recorre a instrumentos parecidos.
Integrantes do PT apontam, além da resistência dos governadores, o “cartel dos postos de combustíveis” como um entrave para que os cortes de impostos se reflitam nos preços. O deputado Paulo Santos (PT-AL) questiona quando os órgãos de defesa do consumidor “vão ter coragem de enfrentar o monopólio dos donos de postos”.
O governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União), criticou a postura de Lula, comparando-a ao erro de Bolsonaro em 2022. “Ele está fazendo a mesma coisa agora”, disse, avaliando a medida como ineficaz e com potencial de prejudicar a saúde e a educação, ao citar a redução de impostos.
Mendes sugere que o governo deveria oferecer um subsídio direto aos caminhoneiros. Para o analista André César, o preço dos combustíveis tem impacto direto no eleitor e, em cenários de pressão econômica, governos buscam medidas de efeito imediato para conter o desgaste político, mesmo com custos fiscais futuros.