A diplomacia brasileira, historicamente pautada pela prudência e pelo multilateralismo, enfrenta um momento de virada preocupante, com potenciais riscos à sua credibilidade internacional e segurança. A aproximação com o Irã e outros regimes antiocidentais levanta questionamentos sobre a manutenção de sua autonomia e tradicional distanciamento de conflitos ideológicos.
Por dois séculos, o Brasil construiu uma política externa marcada pela negociação e pelo equilíbrio. Figuras como José Bonifácio e o Barão do Rio Branco são exemplos de como o país soube resolver disputas e buscar reconhecimento internacional sem recorrer a guerras, consolidando um Itamaraty profissional e respeitado globalmente.
Essa tradição, no entanto, parece estar sob ameaça. A análise de movimentos recentes, como a aproximação com o Irã e a inclusão deste país nos BRICS, sugere uma guinada diplomática que pode comprometer a posição do Brasil no cenário mundial.
Conforme informações divulgadas, essa mudança de orientação diplomática, com um viés ideológico e de alinhamento a blocos antiocidentais, pode afastar o Brasil de sua essência pragmática e colocá-lo em rota de colisão com interesses estratégicos de potências ocidentais, conforme aponta análise de Zizi Martins.
Um Legado de Equilíbrio Sob Nova Ótica
A diplomacia brasileira sempre se distinguiu pela autonomia e pelo multilateralismo. Desde o Império, com a busca por reconhecimento após a independência, até as resoluções pacíficas de fronteiras pelo Barão do Rio Branco, o país cultivou uma imagem de prudência e negociação.
Essa postura permitiu ao Brasil mediar conflitos e ampliar seu comércio, mantendo um prestígio global inegável. A capacidade de dialogar com todos, sem se submeter a nenhum bloco, foi a marca registrada de sua atuação internacional por mais de dois séculos.
A Revolução Iraniana e a Sinergia Ideológica
A Revolução Islâmica no Irã, em 1979, marcou o início de uma nova era para a política externa iraniana, baseada na hostilidade ao Ocidente. Curiosamente, o regime teocrático encontrou apoio em setores da esquerda mundial, que viam no Irã um contraponto à influência americana, muitas vezes relativizando as questões de direitos humanos no país.
Essa lógica se estendeu à América Latina, com governos de esquerda estabelecendo laços com Teerã em busca de cooperação e apoio diplomático, em troca de ignorar sanções internacionais. O Brasil, através de figuras políticas ligadas ao Partido dos Trabalhadores, também estabeleceu contatos com o regime iraniano.
Aproximação Oficial e Gestos Simbólicos Recentes
A relação entre Brasil e Irã ganhou dimensão oficial em 2009, com a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil. No ano seguinte, o então presidente Lula intermediou, com a Turquia, um acordo sobre o programa nuclear iraniano, o chamado “Acordo de Teerã”, que foi rejeitado pelas potências ocidentais.
Mais recentemente, em 2023, o governo brasileiro autorizou a atracação de navios de guerra iranianos no Rio de Janeiro, mesmo diante da pressão diplomática dos Estados Unidos. Esse gesto foi visto por analistas como um sinal de alinhamento político com Teerã.
BRICS, Irã e o Novo Eixo Diplomático
A inclusão do Irã nos BRICS, impulsionada pelo governo Lula e efetivada em 2024, ampliou o bloco e o aproximou de regimes considerados hostis ao Ocidente. Analistas apontam que essa decisão foi motivada mais por afinidade ideológica do que por critérios econômicos ou estratégicos.
Em 2025, na presidência do bloco, o Brasil viu o documento final condenar ataques ao Irã sem citar explicitamente os responsáveis, e o próprio presidente Lula defendeu que “ninguém vai pedir para o Irã mudar de posição sobre Gaza”, relativizando a defesa pela destruição de Israel pelo regime iraniano.
A posição brasileira se tornou ainda mais clara após ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã em fevereiro de 2026, quando o governo federal condenou a operação, falando em violação da soberania iraniana, um posicionamento agradecido pelo embaixador do Irã no Brasil.
Riscos Geopolíticos e a Necessidade de Retomar a Tradição
Para Estados Unidos e Israel, o alinhamento com o Irã, patrocinador de grupos como Hezbollah e Hamas e com um programa nuclear preocupante, representa um risco geopolítico direto. Washington mantém sanções severas e pressiona aliados a evitar cooperação estratégica com Teerã.
A mudança na diplomacia brasileira, ao abandonar a neutralidade pragmática e adotar uma postura ideologicamente alinhada ao eixo antiocidental, compromete a credibilidade internacional do país e pode associá-lo a regimes autoritários que violam direitos humanos.
O Brasil é grande demais para se tornar satélite de qualquer bloco geopolítico. A recuperação da diplomacia profissional, baseada em interesses nacionais e não em afinidades ideológicas, é crucial para que o país não se perca em aventuras ideológicas, preservando seu valioso legado diplomático e evitando se colocar no lado errado da história.