O Exército Brasileiro está passando por uma profunda reformulação estratégica, moldada pelas lições aprendidas nos conflitos recentes na Ucrânia e no Oriente Médio. A nova Política de Transformação do Exército, lançada em abril, representa um choque de realidade, redirecionando investimentos de equipamentos caros para tecnologias mais acessíveis e decisivas nas guerras modernas, como drones, sensores avançados e sistemas de mísseis.
A iniciativa, concebida na gestão do comandante Tomáz Paiva, visa adaptar a Força Terrestre à nova realidade bélica até 2043. O documento prioriza a aquisição de drones de ataque e defesas antidrone, além de sistemas de sensores e radares capazes de detectar ameaças em múltiplos domínios: aéreo, marítimo, terrestre e cibernético. A capacidade de defesa contra essas ameaças, por meio de foguetes e mísseis, também é um pilar fundamental.
Essa reorientação estratégica surge como resposta direta à forma como exércitos com recursos mais limitados, como o da Ucrânia e o do Irã, têm conseguido resistir a potências militares superiores. A Gazeta do Povo apurou que a análise desses conflitos revelou que o Brasil ainda se preparava para guerras do século passado, ignorando as inovações que definem os confrontos atuais.
A política prevê uma otimização rigorosa dos recursos existentes, com o encerramento de programas e unidades consideradas desnecessárias, realocando fundos para áreas de maior criticidade. A fase atual envolve um levantamento detalhado de ameaças e das melhores formas de se defender delas, inspirando-se nas soluções engenhosas e estratégias inovadoras empregadas por nações em conflito.
Drones: A Nova Prioridade Estratégica com Forte Apelo Econômico
O uso de drones representa uma mudança significativa na lógica da guerra, com um impacto econômico notável. Um drone aéreo, com um custo relativamente baixo, pode destruir equipamentos militares e infraestruturas que custaram milhões. Essa capacidade de ataque assimétrico tem sido decisiva em conflitos recentes, como demonstrado pelos drones ucranianos capazes de atingir alvos a mais de 2.000 quilômetros, afetando a capacidade russa de exportar petróleo e forçando navios de guerra a permanecerem em portos.
O Irã, por sua vez, desenvolveu drones de baixo custo, movidos por motores similares aos de motocicletas, que, combinados com outras armas, foram capazes de impactar o comércio internacional ao fechar o Estreito de Ormuz. Essa eficácia de tecnologias mais acessíveis motivou o Exército Brasileiro a superar resistências internas e a buscar ativamente fabricantes no exterior, como na Turquia, cujos drones foram cruciais na defesa de Kyiv em 2022.
O Exército Brasileiro classifica os drones em quatro categorias. As categorias 1 e 2 englobam equipamentos menores, adaptados de modelos comerciais, usados para reconhecimento de curto alcance, monitoramento e como drones kamikaze. Já as categorias 3 e 4 incluem drones maiores, com o porte de pequenos aviões, capazes de missões de ataque a longas distâncias. Essa última categoria é vista como a mais viável para nações que não possuem a capacidade de fabricar mísseis em larga escala.
O coronel de Cavalaria da reserva do Exército, Paulo Filho, destaca que a incorporação de drones é um pilar central do novo plano, refletindo a adaptação às lições de conflitos internacionais. Há uma forte intenção de que esses drones sejam produzidos pela indústria nacional, estimulando o desenvolvimento tecnológico e a geração de empregos no Brasil, além de possibilitar exportações para outros países sul-americanos e globais.
A dependência de fornecedores estrangeiros em tempos de guerra é considerada um risco, como evidenciado pelo caso da Ucrânia, que teve o fornecimento de munições afetado por questões políticas nos EUA. Além disso, a preocupação com o uso de drones por grupos armados e organizações criminosas na América do Sul é crescente. Na Colômbia, ataques com drones já resultaram em cerca de 60 mortes de militares em 2024, segundo autoridades locais.
Tecnologia Avançada de Sensores para Detecção e Resposta a Ameaças
Um sistema integrado de sensores tornou-se prioridade estratégica para o Exército, abrangendo desde postos de observação em guarnições isoladas até sistemas avançados de radares e aeronaves de observação. A detecção de ataques cibernéticos por hackers de outros países também está incluída nesse escopo.
Um passo inicial é aprimorar o Sisfron (Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras), visando um sistema capaz de compartilhar informações em tempo real entre diferentes estruturas militares. A integração com radares e sonares da Aeronáutica e da Marinha também está em desenvolvimento, com o objetivo de identificar e rastrear ameaças em todos os ambientes, incluindo bombardeios com mísseis e enxames de drones.
A meta a longo prazo é alcançar o conceito de “sensor quântico”, sistemas que futuramente poderão identificar assinaturas eletromagnéticas mínimas de inimigos e forças aliadas. Essa tecnologia, segundo fontes do Exército, teria sido crucial para a localização de um aviador americano em território iraniano, ao identificar seus batimentos cardíacos.
Defesa Antiaérea Reforçada e Integração de Sistemas de Ataque e Proteção
A capacidade de responder a ameaças é tão crucial quanto a de detectá-las, e isso se concretiza através de baterias de defesa antiaérea e mísseis. A defesa antiaérea deixou de ser vista como uma capacidade complementar, tornando-se essencial para proteger forças militares, reduzir baixas civis e manter o moral da população elevado.
Atualmente, a maioria dos radares no Brasil é utilizada pela aviação civil, e as defesas antiaéreas são limitadas a baterias de curta distância e à aviação de caça. Nesse contexto, o Programa Estratégico Astros 2020 foi reconfigurado para Astros-Fogos, unificando antigos projetos de defesa e incorporando a defesa antiaérea. O sistema conta com inteligência artificial e mísseis capazes de atingir alvos a até 300 km.
Parte dessa transformação depende da aquisição de tecnologias estrangeiras, pois o Brasil ainda não possui capacidade industrial para desenvolver sozinho todos os sistemas necessários. A orientação atual prioriza compras internacionais associadas à transferência de tecnologia, embora haja um esforço para ampliar a produção nacional em áreas estratégicas.
Otimização de Recursos e Redução de Tropas de Prontidão
A busca por novas tecnologias não significa o abandono de equipamentos tradicionais como blindados e artilharia. O Exército continuará a investir em treinamento de tropas e na produção interna de munições para reduzir a dependência externa. No entanto, ocorrerá uma “reotimização” de recursos, concentrando investimentos em capacidades mais efetivas para conflitos contemporâneos e reduzindo estruturas consideradas menos eficientes.
O número de projetos estratégicos será reduzido de 13 para 6, e unidades militares em áreas seguras poderão ser transferidas ou desativadas. A nova estratégia prioriza inteligência, capacidade de deslocamento rápido e concentração de forças em áreas sensíveis, como demonstrado pelo rápido deslocamento de tropas e equipamentos para a fronteira em Roraima durante a tensão entre Venezuela e Guiana em 2023.
Com base em comparativos internacionais, o Exército decidiu reduzir de 40% para 20% o efetivo no mais elevado grau de prontidão. O objetivo é criar uma capacidade de dissuasão mais compatível com a atual realidade econômica brasileira, garantindo a proteção do país com recursos de forma mais eficiente e adaptada aos desafios do século XXI.