Diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, discorda da classificação de terrorismo para PCC e CV por parte dos EUA, mas vislumbra avanços na cooperação internacional para capturar criminosos foragidos da justiça brasileira.
A recente decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas gerou reações no Brasil. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, classificou a medida como um “equívoco”, argumentando que as motivações e estratégias de atuação das facções brasileiras diferem das de grupos terroristas.
Em entrevista à TV Globo, Rodrigues explicou que o terrorismo possui “motivos ideológicos”, enquanto o “crime organizado, em que pese aterrorizar as pessoas, busca o lucro”. Essa distinção, segundo ele, é fundamental, pois influencia diretamente a “estratégia de enfrentamento” adotada pelas forças de segurança.
Apesar da discordância conceitual, o chefe da PF considera que a nova classificação americana pode, paradoxalmente, ampliar a cooperação entre Brasil e EUA. Ele destacou que a medida pode facilitar a troca de informações, o bloqueio do envio de armas para o Brasil e, crucialmente, a prisão de foragidos da Justiça brasileira que se encontram em território americano.
Impacto na cooperação e prisão de foragidos
Andrei Rodrigues expressou otimismo quanto aos resultados práticos da decisão dos EUA. “Eu penso que isso se torna uma oportunidade de ampliarmos a cooperação, de termos mais troca de informações, bloqueio do envio de armas para o Brasil, prisão de foragidos da Justiça brasileira nos Estados Unidos”, afirmou o diretor-geral. A expectativa é que essa colaboração intensificada possa trazer resultados significativos no combate à criminalidade organizada.
Contexto de tensões diplomáticas recentes
A declaração de Rodrigues ocorre em um cenário de recentes tensões entre Brasil e Estados Unidos relacionadas a questões de cooperação policial. Em abril, o delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho foi expulso de seu posto em Miami após acusações de tentar manipular o sistema migratório americano para agilizar a repatriação do ex-deputado Alexandre Ramagem. Ramagem, que chegou a ser detido nos EUA, foi liberado e, posteriormente, condenado a 16 anos de prisão no Brasil por suposta tentativa de golpe de Estado.
O caso Alexandre Ramagem e a extradição
Alexandre Ramagem deixou o Brasil antes do final do julgamento, em setembro de 2025, e reside em Miami com a família. Em 25 de novembro, o ministro Alexandre de Moraes encerrou o processo e declarou o ex-deputado foragido. O governo brasileiro já solicitou formalmente a extradição de Ramagem. Em resposta à expulsão do delegado da PF, o Brasil chegou a retirar as credenciais de um oficial de imigração norte-americano em Brasília, mas a medida foi revogada posteriormente. O Itamaraty também cancelou as credenciais e o visto de outro agente americano que atuava no país.
Diferenças conceituais entre terrorismo e crime organizado
A principal argumentação de Andrei Rodrigues reside na diferença fundamental entre terrorismo e crime organizado. Enquanto o terrorismo é movido por ideologias e busca desestabilizar governos ou sociedades, o crime organizado, como o PCC e o CV, tem como principal objetivo a obtenção de lucros financeiros. Essa distinção, para o diretor-geral da PF, implica em abordagens e estratégias de combate distintas, justificando sua crítica à classificação americana.