A polêmica “lacração” no cinema: quando a busca por prêmios se sobrepõe à arte
O termo “lacração”, originado na internet e comumente associado a ações que buscam autopromoção, tem sido aplicado ao cinema, gerando debates acalorados. A discussão gira em torno da percepção de que certas produções priorizam temas sociais e inclusivos de forma superficial, visando reconhecimento em premiações como o Oscar, em detrimento da qualidade artística intrínseca.
Essa abordagem, segundo críticos, pode levar a escolhas de elenco e narrativas que parecem mais calculadas para gerar impacto e polêmica do que para contar uma história genuína e artisticamente relevante. O resultado, para muitos espectadores, é uma experiência cinematográfica que se distancia da essência da arte, focando em agendas específicas.
A crítica se intensifica quando essa estratégia é vista como uma forma de “lacração” ou “cultura woke” em Hollywood, onde a inclusão é utilizada como ferramenta para alcançar objetivos externos, como a conquista de estatuetas. Conforme aponta o artigo “Nolan e sua Helena de Troia”, de Thiago Braga, publicado na Gazeta do Povo, a intenção por trás de certas escolhas pode ser vista como “gananciosa”, visando o Oscar.
O caso de “Odisseia” e a escalação de Lupita Nyong’o
Um exemplo citado para ilustrar essa tese é a adaptação de “Odisseia” pelo diretor Christopher Nolan, que escalou a atriz Lupita Nyong’o para o papel de Helena de Troia. Embora Nyong’o seja reconhecida como uma atriz talentosa, a escolha levanta questionamentos sobre a motivação por trás dela.
A mitologia grega descreve Helena como uma mulher de beleza extraordinária, com características físicas específicas, como cabelos loiros. A escalação de uma atriz negra para o papel, segundo os críticos, pode ser interpretada não como um avanço genuíno na luta contra o racismo, mas como uma estratégia para chocar e atrair atenção, visando o Oscar.
“Fins justificam os meios” na arte?
A “cultura woke”, com forte presença em Hollywood, tem sido associada a essa prática, onde a inclusão se torna um fim em si mesma, justificando meios que podem comprometer a fidelidade artística. A crítica se alinha à ideia de que a arte deveria ser valorizada por seu mérito estético e narrativo, e não por sua capacidade de aderir a movimentos sociais de forma instrumental.
O poema “Mar Português” de Fernando Pessoa é evocado para contrastar a bravura e o sacrifício com a busca por resultados sem o devido esforço. A “lacração” no cinema, nesse sentido, seria como “passar o Bojador sem dor”, ignorando o processo artístico e criativo em favor de um atalho para o reconhecimento.
A “lacração” como distorção da inclusão e da arte
A escolha de uma atriz negra para Helena de Troia é comparada a escalar Leonardo DiCaprio para interpretar Martin Luther King Jr. ou Sharon Stone para viver a matemática negra Gladys West. A crítica não se baseia em padrões de beleza, mas na percepção de um “interesse escuso” que utiliza uma causa nobre, como a luta contra o racismo, como pano de fundo.
Exemplos de mulheres negras que deixaram legados notáveis, como Wangari Maathai, Bessie Blount Griffin e Toni Morrison, são citados para reforçar a ideia de que a inclusão genuína se dá através do reconhecimento de talentos e contribuições reais, e não pela subversão de fatos históricos ou mitológicos.
A comparação com o Brasil, imaginando Rodrigo Hilbert interpretando Pixinguinha ou Luana Piovani como Dona Ivone Lara, ilustra o absurdo de se utilizar figuras históricas e artísticas para benefício pessoal, distorcendo seus legados. A arte, segundo Aristóteles e Oscar Wilde, deve estimular reflexão e compreensão do mundo, mantendo-se fiel aos fatos, sem espaço para a “lacração”.