A esquerda brasileira está sintonizando com um movimento global que ganha força entre os mais jovens: o chamado “Socialismo Gen-Z”. Diferente de ideologias passadas, esta vertente foca em resolver problemas concretos do cotidiano, como o acesso à saúde, a alta dos aluguéis e a busca por mais qualidade de vida no trabalho.
Essa geração, nascida entre 1997 e 2012, se revolta com o encarecimento de itens essenciais e busca soluções que envolvam a intervenção do Estado. A ideia central é que os mais ricos financiem essas melhorias, garantindo benefícios para a população em geral.
Essa tendência, que já desponta em países como EUA e França, encontra eco no Brasil em parlamentares como Erika Hilton (PSOL-SP), Camila Jara (PT-MS) e Tabata Amaral (PSB-SP). Eles traduzem para a realidade nacional pautas como a redução da jornada de trabalho e o controle de preços de alimentos, conforme aponta análise da Gazeta do Povo.
O “Eu Primeiro” com Toque Coletivo: Foco em Problemas Reais
O “Socialismo Gen-Z”, também apelidado de “socialismo TikTok”, se caracteriza pela busca de soluções imediatas para as angústias da juventude. A alta nos preços de alimentos e aluguéis, além das dificuldades no acesso à saúde, são os principais motores desse movimento.
A proposta não é necessariamente a coletivização dos meios de produção, mas sim o uso do poder estatal para resolver problemas cotidianos. Isso se manifesta em pautas como o tabelamento de preços, o aumento de impostos para os mais ricos e novas formas de redistribuição de renda.
Alexandre Bandeira, professor da ESPM, explica que essa geração, apesar de mais escolarizada, enfrenta mais dificuldades para alcançar conquistas materiais como a compra de um imóvel. “Eles clamam por intervenções estatais e soluções simplistas”, avalia.
Saúde Acessível e Qualidade de Vida no Trabalho: Pautas Fortes da Geração Z
No Brasil, a agenda do “Socialismo Gen-Z” já se reflete em diversas propostas. A saúde, por exemplo, é um ponto central. Embora o país já possua o SUS, a discussão se volta para a ampliação de benefícios e a garantia de acesso universal a tratamentos, incluindo a saúde mental.
A deputada Tabata Amaral, por exemplo, foi responsável pela lei que garante a distribuição gratuita de absorventes para estudantes e mulheres em situação de vulnerabilidade, abordando a “dignidade menstrual”.
Outra pauta que ressoa fortemente é a redução da jornada de trabalho. A PEC que visa o fim da escala 6×1, defendida pela deputada Erika Hilton e apoiada pelo presidente Lula, dialoga diretamente com a busca por mais tempo livre e qualidade de vida, questionando a compatibilidade de jornadas longas com o bem-estar.
Novas Formas de Proteção Social: Do Transporte à IA
O governo federal estuda a criação do “SUS do Transporte”, um sistema de financiamento do transporte público com tarifa zero, buscando facilitar a mobilidade urbana. Programas como o “Gás para Todos” e o “Pé-de-Meia”, que incentiva estudantes de baixa renda a permanecerem no ensino médio, também se encaixam nessa lógica de proteção social.
Olhando para o futuro, a deputada Camila Jara propôs a criação de um Fundo de Renda Básica para trabalhadores impactados pela inteligência artificial. A ideia é que empresas que utilizam IA em larga escala contribuam para um fundo que ampare trabalhadores cujas funções podem ser automatizadas.
Luan Sperandio, analista político, destaca que “uma parte dos jovens olha para o mercado de trabalho, para o preço da moradia, para a instabilidade econômica e para o avanço da tecnologia e conclui que o pacto de ascensão social prometido às gerações anteriores não está funcionando para eles”.
Moradia Acessível e Tributação de Ricos: O Coração da Proposta
A alta inflacionária, especialmente nos preços de moradia, é um dos principais combustíveis do “Socialismo Gen-Z” globalmente. No Brasil, propostas de aluguel social e locação subsidiada ganham espaço, com deputados como Carlos Zarattini e Tabata Amaral apresentando projetos para viabilizar o acesso à moradia digna.
A tributação de grandes fortunas é outro pilar central. Projetos de lei buscam regulamentar a cobrança do Imposto sobre Grandes Fortunas, e o governo federal já ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda para os de menor renda, sinalizando um movimento na direção defendida pela nova geração.
Contudo, analistas como Alexandre Bandeira alertam que a ênfase em impostos para financiar benefícios pode desestimular a prosperidade e incentivar a fuga de capitais. A busca por soluções que combinem justiça social com crescimento econômico sustentável permanece como o grande desafio para essa nova agenda política.