A Cadeira Branca de Trump: Símbolo de Crise no Multilateralismo ou Retorno a uma Ordem Personalista?

A Cadeira Branca de Trump: Símbolo de Crise no Multilateralismo ou Retorno a uma Ordem Personalista?

Resumo

A Cadeira Branca de Trump: Símbolo de Crise no Multilateralismo ou Retorno a uma Ordem Personalista?

A formação do sistema internacional moderno, com base em Estados soberanos, é um marco histórico. No entanto, a premissa de anarquia global, onde não há um “governo mundial”, tem sido desafiada por novas dinâmicas de poder. A recente iniciativa do presidente dos EUA, Donald Trump, o Conselho da Paz, levanta questões sobre o futuro da ordem internacional.

A cerimônia de lançamento deste conselho, com sua cenografia peculiar, evoca comparações com sistemas históricos de poder. A figura central de Trump e a disposição dos assentos no palco parecem sinalizar uma mudança na forma como as relações internacionais são concebidas, afastando-se dos princípios multilaterais estabelecidos.

A análise daquele evento, conforme divulgado pelo podcast O Domínio da Guerra, da Rádio Observador, aponta para uma encenação de hierarquia pessoal, onde um indivíduo se posiciona acima das instituições. Isso ocorre em um momento crítico, marcado por guerras, crises humanitárias e o enfraquecimento de organismos multilaterais.

A História dos Sistemas Internacionais e a Premissa da Anarquia

Nem sempre a organização humana se deu em Estados soberanos. Houve clãs, tribos, impérios, cidades-estado e feudos. A partir dos séculos XVI e XVII, com a formação dos Estados modernos na Europa, o sistema internacional baseado na soberania estatal ganhou força. Após a Segunda Guerra Mundial, esse modelo foi universalizado e institucionalizado.

A base desse sistema é a anarquia internacional, ou seja, a ausência de uma autoridade mundial. As soluções para os problemas globais, pacíficas ou não, dependem dos próprios Estados. Essa premissa, contudo, tem sido questionada em diversas ocasiões ao longo da história.

O Sistema Tributário Chinês e a Ordem Hierárquica

Antes da universalização do sistema westfaliano, existiram outras formas de organização. Um exemplo notável foi o sistema tributário chinês. A visão tradicional chinesa colocava o imperador no centro de uma ordem política hierárquica, onde reinos vizinhos eram incorporados simbolicamente, reconhecendo a autoridade chinesa.

Essa relação não implicava governo direto, mas sim rituais diplomáticos, mediação de conflitos e o envio de tributos. Esse sistema entrou em colapso com a derrota chinesa na Primeira Guerra Sino-Japonesa em 1895 e foi definitivamente encerrado com a queda da última dinastia em 1912.

A Cerimônia do Conselho da Paz e a Simbologia da Cadeira Branca

A comparação com o sistema chinês surge ao analisar o lançamento do Conselho da Paz, iniciativa de Donald Trump. Inicialmente apresentada como um plano para Gaza, a proposta revelou-se um organismo presidido vitaliciamente por Trump, com poder de veto, concebido para rivalizar com o Conselho de Segurança da ONU.

A cenografia da cerimônia foi marcante. No palco, antes da chegada de Trump, 19 chefes de Estado e de Governo sentavam-se em cadeiras iguais. Contudo, uma cadeira central, maior e de cor branca, aguardava Donald Trump. Este detalhe, como apontado pelo general português Arnault Moreira, carrega uma profunda carga simbólica.

A chegada de Trump foi recebida com aplausos e a sensação de um evento de magnitude real. A imagem daquela cadeira vazia, distinta das outras, sintetiza a tentativa de construir uma ordem internacional personalista, onde a figura de um líder se sobrepõe às instituições estabelecidas.

Um Mundo de Vaidades ou a Busca pela Paz?

O sistema internacional contemporâneo, apesar de suas falhas, baseia-se na ideia de que nenhum Estado, por maior que seja, pode ser o árbitro supremo da ordem global. A cerimônia do Conselho da Paz, no entanto, não apresentou regras compartilhadas ou instituições reconhecidas, mas sim a encenação de uma hierarquia pessoal.

Em um mundo já assolado por guerras e crises, o que menos se necessita é a transformação da política internacional em um palco de vaidades. A paz, fundamentalmente, não se constrói a partir de tronos, especialmente aqueles improvisados ou baseados em uma visão personalista da liderança global.

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