Celso Amorim questiona o termo “globalismo” em novo livro, defendendo um mundo multipolar e criticando a visão de direita sobre a ordem internacional.
Em sua mais recente obra, “O Brasil em um Mundo Multipolar: Conversas com a Academia”, Celso Amorim, figura central na política externa brasileira e principal assessor internacional de Lula, ataca o que ele considera uma “fantasia da direita”: o “globalismo”. O livro, lançado pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag), braço editorial do Itamaraty e com prefácio do Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apresenta a visão de Amorim sobre a estratégia internacional do PT.
Amorim argumenta que o “globalismo” é uma teoria conspiratória, uma distorção criada por aqueles que não compreendem a dinâmica do poder global. Ele propõe, em contrapartida, a construção de uma ordem mundial multipolar, onde o poder seja distribuído entre diversas nações, incluindo o Brasil e outros países do “Sul Global”.
A publicação, que reúne discursos do diplomata entre 2004 e 2025, serve como um manifesto doutrinário, detalhando a visão de Amorim sobre a diplomacia brasileira. A obra, chancelada pelo Estado, reflete diretamente a posição do governo Lula na arena internacional, conforme informado pelas fontes.
A “Doutrina Amorim”: Multipolaridade e o Papel do “Sul Global”
A tese central defendida por Celso Amorim propõe que o Brasil lidere, ao lado de nações da África, Ásia e América Latina, a edificação de uma nova ordem mundial. Essa ordem seria caracterizada pela multipolaridade, combatendo a concentração de poder em poucos países, como Estados Unidos e nações europeias.
Em vez de um cenário dominado por acordos bilaterais ou pela força econômica e militar, Amorim advoga por um sistema onde instituições internacionais, como a ONU, G20 e os BRICS, desempenhem um papel crucial na mediação de conflitos e na coordenação de políticas globais. Essa abordagem visa a uma distribuição mais equitativa de poder no cenário internacional.
Diálogo com Regimes Diversos e Distanciamento Estratégico do Ocidente
A visão de Amorim inclui a importância de dialogar com todos os países, independentemente de seus regimes políticos. Ele defende uma distância estratégica em relação ao Ocidente, tratando o relacionamento com ditaduras como uma necessidade legítima dentro do jogo geopolítico, mesmo em casos de violações de direitos humanos.
Essa perspectiva, conforme apontado nas fontes, permite que o Brasil mantenha relações com governos que enfrentam críticas internacionais, como Venezuela e Cuba, sem que isso impeça a busca por uma ordem multipolar. Amorim considera que a crítica a esses regimes muitas vezes parte de uma visão ocidentalizada.
Críticas e Contradições: “Globalismo” para os Outros, “Nova Geografia” para Si
Um dos pontos mais debatidos no livro é a forma como Amorim desqualifica o “globalismo” como uma “fantasia da direita” e uma “teoria conspiratória”. No entanto, as fontes indicam que o próprio diplomata se gaba de ter colaborado com elites globais para reformar a ordem mundial e influenciar políticas internas de outros países, algo que ele denomina “uma nova geografia que se cria”.
Essa aparente contradição é destacada pelas fontes, que apontam para um discurso que condena o “globalismo” enquanto celebra a construção de instituições com poder supranacional. Amorim parece diferenciar a ação brasileira de uma suposta agenda ocidental, criando uma distinção entre o “globalismo” criticado e a “multipolaridade” defendida.
Anti-Imperialismo Seletivo e a Questão de Israel e Hamas
O autor demonstra um anti-imperialismo seletivo, criticando veementemente a liderança global dos EUA e a invasão do Iraque, mas demonstrando compreensão ou silêncio diante de ações da Rússia e da China. As fontes questionam essa seletividade, observando que a crítica ao imperialismo não se estende a todas as potências.
No que tange ao conflito em Gaza, Amorim reforça a posição de Lula, qualificando as ações em Gaza como “genocídio”, ao mesmo tempo em que dedica poucas linhas ao ataque terrorista do Hamas. Essa abordagem, segundo as fontes, coloca o Estado democrático de Israel como o principal vilão da região, minimizando as ações do Hamas.