Centrão age para minar CPI do Banco Master e evitar exposição de rede de poder em Brasília
A instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o escândalo envolvendo o Banco Master enfrenta forte resistência nos corredores do Congresso Nacional. Setores do Centrão estão articulando para adiar ou esvaziar a CPI, temendo que a investigação exponha uma extensa rede de relações políticas e jurídicas ligadas ao fundador da instituição, Daniel Vorcaro.
Apesar do apoio formal à investigação por parlamentares de diversos espectros políticos, a disputa agora se concentra no controle do escopo, do ritmo e do momento político das apurações. Atualmente, existem três requerimentos para a criação de CPIs: um na Câmara, um no Senado e um para comissão mista. No entanto, o apoio mínimo não garante a instalação, já que os presidentes das Casas não têm prazo regimental para dar andamento aos pedidos.
O controle em CPIs mistas é ainda mais sensível, com precedentes de que a leitura do requerimento em sessão do Congresso instala o colegiado. Assim, a simples postergação de convocações de sessões se torna um instrumento eficaz para atrasar indefinidamente o processo. Conforme informações de bastidores, o principal fator de resistência à CPI é a chamada “bancada ligada a Daniel Vorcaro”.
A rede de influência de Daniel Vorcaro
Antes de sua prisão em novembro, após a Operação Compliance Zero, Daniel Vorcaro construiu uma rede de interlocução com líderes influentes do Congresso, especialmente em partidos do Centrão. Essa articulação é vista como um dos maiores entraves à investigação parlamentar. Entre os nomes mais citados estão o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do PP, e Antônio Rueda, dirigente do União Brasil.
Ambos são apontados como pontes políticas de Vorcaro em Brasília e teriam participado das articulações para a tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), operação vetada pelo Banco Central. A proximidade de Vorcaro com o Centrão também se refletiu em iniciativas legislativas. Em 2024, Ciro Nogueira apresentou uma emenda à PEC 65/2023 propondo elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ.
Críticos da proposta, na época, afirmaram que a ampliação da garantia beneficiaria diretamente bancos médios com forte captação junto a investidores, perfil do qual o Banco Master se enquadrava. Essa iniciativa passou a ser citada como exemplo do grau de influência política exercido pelo grupo ligado à instituição.
Conexões jurídicas e figuras proeminentes envolvidas
O caso do Banco Master ganhou peso institucional por envolver nomes do universo jurídico e até do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo informação revelada pelo jornal O Globo, o Banco Master firmou contrato com o escritório de advocacia da esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, Vivian Barci, com pagamento mensal de R$ 3,6 milhões para a defesa dos interesses da instituição.
O banco também teve entre seus clientes e consultores figuras centrais da política e da economia. O ex-ministro do STF e da Justiça Ricardo Lewandowski atuou como advogado do Banco Master. Já o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega teria sido contratado como consultor e apresentado Vorcaro pessoalmente ao presidente da República. Outros nomes de peso, como o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles e o ex-presidente Michel Temer, também tiveram relação com a instituição.
Reação da oposição e análise de especialistas
A tentativa de esvaziamento da CPI tem provocado reação da oposição. O deputado Marcos Pollon (PL-MS) afirmou que o caso é mais grave que a Lava Jato e defendeu uma apuração ampla no Congresso. “Esse caso é muito mais grave que a Lava Jato”, disse Pollon, argumentando que os protagonistas são membros da mais alta corte.
Parlamentares próximos aos presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, admitem reservadamente que o ambiente político está desfavorável à instalação da CPI neste momento, citando o calendário eleitoral e o potencial de desgaste institucional. Segundo o analista Arcênio Rodrigues da Silva, o vínculo entre Vorcaro e integrantes do Congresso e do Judiciário cria um ambiente propício à contenção política das investigações.
“Isso pode se manifestar por meio de resistência à instalação de uma CPI, manobras regimentais para retardar apurações ou tentativas de restringir o escopo investigativo”, explica Silva. Ele acrescenta que o caso do Banco Master se diferencia pela confluência entre interesses econômicos, relações políticas sensíveis e decisões judiciais de alto impacto.
A blindagem política e seus efeitos institucionais
Para os defensores da CPI, a resistência do Centrão vai além de uma disputa pontual, podendo funcionar como um gatilho para um conflito de grandes proporções ao expor relações entre o sistema financeiro, lideranças políticas e o universo jurídico. O senador Eduardo Girão (Novo-CE) defende a investigação, ressaltando que o dinheiro público está envolvido em investimentos.
Especialistas interpretam o episódio como um sintoma de um problema estrutural no modelo de responsabilização institucional no país. Sthefano Cruvinel, auditor judicial, aponta a ausência de mecanismos claros de responsabilização. “Quando o debate se desloca para o campo político sem balizas objetivas, o risco é a erosão da confiança nas instituições e o aprofundamento da instabilidade democrática”, afirma Cruvinel.
Segundo Cruvinel, a sobreposição de iniciativas, como pedidos de impeachment e disputas sobre competências, cria um ambiente de tensão sistêmica. O caso do Banco Master, ele avalia, pode ilustrar como estruturas de poder interdependentes dificultam a fiscalização parlamentar. Se houver recuo, reforçará a percepção de que determinados arranjos político-financeiros operam em zonas de proteção institucional.