China e Rússia não se abalam com a queda de Maduro e intensificam influência nas Américas, desafiando a Doutrina Donroe
A recente captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro pelas forças dos Estados Unidos, em uma ação inspirada na Doutrina Monroe e apelidada de Doutrina Donroe pelo presidente Donald Trump, marcou a perda do principal aliado geopolítico de China e Rússia nas Américas. A nova diretriz de segurança nacional americana visa reafirmar o predomínio de Washington no Hemisfério Ocidental e afastar a influência de Pequim e Moscou.
Entretanto, a presença e a influência de ambas as potências no continente estão longe de terminar. Ao contrário, China e Rússia têm demonstrado estratégias robustas para manter e expandir seus alcances, mesmo diante do novo cenário político delineado pelos Estados Unidos. A capacidade de adaptação e a profundidade de seus investimentos e parcerias são os principais trunfos nesse jogo geopolítico.
A atuação de Pequim e Moscou nas Américas se manifesta de diversas formas, desde auxílios financeiros e acordos comerciais até cooperação militar e tecnológica. Essa diversidade de abordagens torna o desafio para os Estados Unidos ainda maior, exigindo mais do que apenas ações pontuais ou retóricas para conter a expansão de seus rivais estratégicos no continente.
China: Investimentos Massivos e Parcerias Estratégicas Fortalecem Presença no Continente
A China, em particular, tem consolidado sua influência através de investimentos bilionários e acordos comerciais. Recentemente, Pequim aprovou uma nova rodada de ajuda a Cuba, totalizando US$ 80 milhões em assistência financeira emergencial para a compra de equipamentos elétricos e outras necessidades urgentes, além de uma doação de 60 mil toneladas de arroz. Este é apenas um vislumbre da vasta rede de influência chinesa.
O gigante asiático é o maior parceiro comercial de países como Brasil, Peru e Chile, oferecendo linhas de crédito e investimentos que levaram várias nações a romperem relações diplomáticas com Taiwan. Projetos como o Porto de Chancay, um megaterminal de águas profundas no Peru, e um corredor ferroviário bioceânico ligando o Brasil ao Peru, exemplificam a estratégia chinesa de infraestrutura e logística.
Rússia: Cooperação Militar e Alinhamento Geopolítico em Cuba e Nicarágua
Embora com menor peso econômico que a China, a Rússia também mantém e expande sua presença. Acordos de cooperação militar com a Nicarágua, sob o regime de Daniel Ortega, incluem o envio de tropas, navios e aeronaves russas, além de exercícios conjuntos e sistemas de espionagem, conforme reportado pela imprensa independente nicaraguense. Um acordo semelhante existe com Cuba.
O presidente Trump tem criticado a presença russa e chinesa em Cuba, afirmando que a ilha convida “adversários perigosos dos Estados Unidos” a instalar “bases militares e de inteligência sofisticadas”. Ele destacou que Cuba abriga a maior instalação de inteligência de sinais da Rússia no exterior e mantém profunda cooperação em inteligência e defesa com a China.
Desafios para os EUA: Estrutura, Difusão e Alternativas Competitivas
Eduardo Galvão, professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, aponta que os maiores desafios para Washington em reduzir a influência chinesa e russa são estruturais. A América Latina aprofundou laços econômicos com a China em comércio, investimentos em infraestrutura, tecnologia e financiamento, criando redes de interdependência difíceis de desfazer.
Galvão ressalta que os EUA enfrentam dificuldades em oferecer alternativas competitivas rápidas e de largo alcance sem gerar custos econômicos domésticos significativos. A natureza difusa da influência chinesa e russa, que vai além da presença militar e abrange acordos comerciais, logística, tecnologia e parcerias diplomáticas, exige uma oferta alternativa atraente em múltiplos níveis.
Tarifas e Geoeconomia: Ferramentas de Coerção com Limites Práticos
As ameaças de tarifas extremas, como as proferidas por Trump contra países que mantivessem relações comerciais com Rússia ou China, podem ser parte de um repertório de coerção geoeconômica. No entanto, essas medidas enfrentam limites práticos, pois tarifas elevadas podem gerar repercussões inflacionárias e retaliações indiretas, afetando economias latino-americanas integradas às cadeias globais de valor.
O professor Galvão explica que a utilização de instrumentos tarifários é mais provável em áreas específicas onde Washington identifica interesses estratégicos diretos, como tecnologia sensível ou infraestrutura crítica. O Brasil, devido à sua dimensão econômica, não está imune a pressões, mas o risco é mais setorial e condicional do que uma sanção ampla e generalizada.
Empresas e formuladores de políticas brasileiros precisam estar atentos às decisões de política externa norte-americana, que podem se traduzir em restrições comerciais, revisão de contratos ou imposição de condições de acesso a mercados e cadeias de suprimento. Essa dinâmica aponta para uma mudança na natureza dos riscos políticos, exigindo que países latino-americanos reforcem sua capacidade de antecipar, mitigar e responder a choques externos em um cenário geopolítico cada vez mais complexo.