Montadoras chinesas intensificam produção no Brasil, utilizando fábricas já existentes e impulsionando a indústria nacional
A presença das montadoras chinesas no Brasil vai além da importação de veículos. Empresas asiáticas estão investindo na produção nacional, adquirindo e adaptando fábricas de marcas tradicionais. Essa estratégia visa acelerar a entrada no mercado e reduzir custos iniciais.
Essa movimentação é impulsionada pela busca por eficiência e pela redução de riscos. Em vez de construir novas plantas do zero, as empresas optam por estruturas já estabelecidas, que contam com infraestrutura, licenças e mão de obra especializada.
Conforme divulgado em reportagem, 15 marcas chinesas já operam no Brasil. BYD, GWM e Caoa Chery possuem fábricas próprias, muitas delas instaladas em locais que antes pertenciam a montadoras como Mercedes-Benz, Ford e Renault. Outras marcas, como Geely e Leapmotor, buscam parcerias para utilizar instalações existentes.
Aproveitando infraestrutura e encurtando caminhos para a produção local
A estratégia de utilizar fábricas já instaladas permite que as montadoras chinesas reduzam significativamente o tempo para iniciar a produção local. A construção de uma nova planta pode levar de três a cinco anos, enquanto a adaptação de uma estrutura existente agiliza o processo, aproveitando galpões, instalações elétricas, hidráulicas, licenças ambientais e logística já consolidadas.
A GWM, por exemplo, assumiu a fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP), iniciando a produção em 2025 de modelos como o Haval H6 e a picape Poer P30. A BYD seguiu um caminho semelhante, ocupando o complexo da antiga Ford em Camaçari (BA), com produção local iniciada em 2025.
A Caoa Chery, que produz em Anápolis (GO) desde 2017, também expandiu sua operação com a fabricação do UNI-T pela chinesa Changan na mesma estrutura. Outros exemplos incluem a Geely utilizando a estrutura da Renault em São José dos Pinhais (PR) e a Leapmotor produzindo na planta da Stellantis em Goiana (PE) a partir de novembro.
Políticas de incentivo e adaptação ao mercado brasileiro
O cenário de incentivos fiscais no Brasil também favorece a expansão das marcas chinesas. O programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação) oferece R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros entre 2024 e 2028, vinculados a contrapartidas em pesquisa, desenvolvimento e produção. Esse programa é considerado mais generoso que o anterior Rota 2030.
A política tarifária, com a elevação gradual do imposto de importação para veículos eletrificados, também estimula a produção local. Empresas que dependem exclusivamente de importações enfrentam custos maiores, favorecendo aquelas que estabelecem produção no Brasil.
A adaptação dos produtos às características do consumidor brasileiro é outro ponto crucial. A utilização do etanol no país abre espaço para tecnologias híbridas e flex, como as desenvolvidas pela GWM para o mercado nacional. A transição para uma produção mais completa, incluindo estamparia, soldagem e pintura local, será um indicativo do compromisso dessas empresas.
Competição acirrada e consolidação no mercado automotivo
Com 15 marcas chinesas atuando no Brasil, a competição interna é intensa. As dez maiores concentram 84% das vendas do grupo. Especialistas apontam que nem todas as marcas terão espaço para crescer simultaneamente, com as mais financeiramente robustas e com melhor estrutura de distribuição e pós-venda tendendo a se destacar.
A consolidação do mercado já é uma realidade. Em menos de dois anos, as montadoras chinesas passaram de uma posição marginal para quase um quarto das vendas de veículos leves. A BYD lidera o interesse do consumidor brasileiro, concentrando 78% das buscas no Google Trends, seguida pela GWM com 15,6%.
A questão principal agora não é se as montadoras chinesas permanecerão no Brasil, mas sim quais delas conseguirão se consolidar e em que condições, redefinindo o cenário do setor automotivo nacional.