A Doutrina Donroe em Ação: Embaixadores Políticos e a Nova Geopolítica Americana nas Américas
A nomeação de Daniel Perez como novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil, aprovada pelo Senado americano e ainda pendente de aceite do governo Lula, é um reflexo claro da estratégia de Donald Trump para a política externa. Em vez de diplomatas de carreira, a gestão Trump tem priorizado a indicação de nomes com forte ligação política, muitas vezes doadores de campanha. Essa abordagem consolida a chamada Doutrina Donroe, uma adaptação moderna da Doutrina Monroe do século XIX, focada em conter a influência da China e da Rússia no continente americano, além de combater o tráfico de drogas e a migração ilegal.
Essa mudança de perfil, segundo especialistas, visa garantir que os embaixadores estejam mais alinhados com a agenda nacionalista e de confronto geopolítico de Trump, conhecida pelo slogan America First. A ideia é ter representantes que sigam estritamente o pensamento do ex-presidente, sem a moderação técnica que geralmente caracteriza o corpo diplomático tradicional. Essa estratégia tem gerado atritos com governos locais e críticas de diplomatas de carreira.
Dados da Associação do Serviço Exterior Americano (AFSA) indicam uma inversão significativa na composição dos postos de embaixador. Em julho, a segunda administração Trump contava com 65 embaixadores “políticos” contra apenas 25 diplomatas de carreira. Essa tendência difere do primeiro mandato de Trump e também da gestão do atual presidente, Joe Biden, que manteve uma proporção maior de diplomatas de carreira. As informações são do jornal The Washington Post.
Daniel Perez e a Tensão Diplomática com o Brasil
Daniel Perez, filiado ao Partido Republicano e com forte ligação com o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, é um exemplo dessa política. Sua nomeação para chefiar a embaixada americana em Brasília gerou um ponto de atrito entre Washington e o governo Lula. A revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, foi uma resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément a Perez.
A estratégia de nomear embaixadores com perfil político tem gerado reações diversas na América Latina. Enquanto governos de direita demonstram alinhamento, governos de esquerda e a China têm expressado descontentamento com essa abordagem.
Embaixadores de Trump e o Confronto Geopolítico na América Latina
No Panamá, o embaixador Kevin Marino Cabrera tem trabalhado em parceria com o presidente José Raúl Mulino no combate ao crime organizado e à imigração ilegal, especialmente na região de Darién. Cabrera tem criticado abertamente as políticas de “fronteiras abertas” da gestão Biden, alinhando-se à retórica de Trump.
Na Argentina, o embaixador Peter Lamelas, com experiência em medicina e negócios, tem demonstrado forte alinhamento com o presidente Javier Milei. Essa aproximação tem irritado a esquerda argentina e a China. Lamelas já se manifestou publicamente sobre questões judiciais internas da Argentina e criticou a presença de tecnologia chinesa em setores estratégicos do país, como Vaca Muerta, alegando riscos de controle pelo Partido Comunista Chinês.
A China, por sua vez, acusou Lamelas de agir com uma “mentalidade de Guerra Fria”, demonstrando a dimensão geopolítica dessas nomeações. A Embaixada chinesa na Argentina criticou a postura do embaixador americano em relação a investimentos tecnológicos chineses.
Conflitos no México e na Europa
No México, o embaixador Ronald Johnson, com histórico nas forças armadas e na CIA, também tem gerado controvérsias. Sua atuação em casos de combate ao narcotráfico e a divulgação pública de processos criminais contra figuras políticas locais geraram reclamações do governo mexicano, que alegou violação de protocolos diplomáticos.
A Doutrina Donroe e a nomeação de embaixadores políticos não se limitam às Américas. Na Bélgica, o embaixador Bill White gerou atrito com o governo local ao intervir publicamente em um processo judicial relacionado a rituais religiosos judaicos. Suas declarações foram consideradas uma interferência em assuntos internos belgas.
Críticas de Diplomatas de Carreira e Especialistas
A prática de nomear embaixadores “políticos” também desagrada diplomatas de carreira americanos. John Dinkelman, presidente da AFSA, comparou a situação à de um hospital onde “benfeitores superam os cirurgiões na sala de cirurgia”, indicando a preocupação com a prevalência de indicações políticas sobre a expertise técnica. Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais, ressalta que a atuação diplomática deve respeitar as convenções internacionais, incluindo a soberania local e o princípio de não intervenção em assuntos internos.
O Departamento de Estado americano, por meio de seu porta-voz Tommy Pigott, defende as mudanças, afirmando que a gestão Trump “reorganizou todo o Departamento de Estado” para influenciar políticas públicas. No entanto, a linha entre a defesa de interesses nacionais e a interferência em assuntos alheios permanece um ponto de tensão constante nesse novo cenário diplomático.