A guerra ideológica que divide as democracias ocidentais: liberalismo e conservadorismo em impasse
As democracias ocidentais vivem um estado de guerra civil moral, onde o liberalismo e o conservadorismo modernos se tornaram reflexos distorcidos um do outro. Em vez de serem polos complementares, como outrora, eles agora se espelham e amplificam os vícios de cada um.
Enquanto liberais acusam conservadores de intolerância e repressão, estes retrucam com críticas ao relativismo e à tirania liberal. Ambos acertam ao identificar as patologias do outro, mas cegam-se para como suas próprias lógicas morais geram males equivalentes em sentido inverso.
A crise, segundo análises, é mais metafísica do que política. A separação de bens parciais, como liberdade e ordem, de um bem transcendente que os fundamenta, leva à privação do que se buscava servir. A vontade de liberdade liberal torna-se coercitiva, e a de ordem conservadora, rebelde. Conforme informação divulgada em análise de fontes, essa dinâmica tem raízes profundas na forma como cada corrente se desvinculou de princípios fundamentais.
O Paternalismo Oculto do Liberalismo: Da Liberdade à Tutela
Originado como uma revolta contra o paternalismo, onde a Igreja, o patriarca ou o Estado ditavam crenças e virtudes, o liberalismo prometia liberdade através da neutralidade estatal. Contudo, como previu Tocqueville, o desejo de ser livre e guiado simultaneamente transformou essa libertação em uma forma de tutela.
A ordem liberal atual exige obediência em nome da segurança e compaixão, criando aparatos morais que policiar a consciência. Virtudes como conformidade, confundida com justiça, compaixão sentimental sem prudência, e tolerância sem busca pela verdade, tornam-se artificiais.
A autonomia, neste contexto, vira uma performance controlada, e o antigo confessionário ressurge como um seminário sobre diversidade. Sem um propósito natural, o Estado assume um papel providencial, onde a administração substitui o propósito, e a dor é explicada como falha do sistema, em vez de questionamentos morais ou espirituais mais profundos.
A Rebelião Conservadora: Ordem que se Define pela Transgressão
O conservadorismo, por sua vez, trai seus próprios princípios ao se rebelar contra a ordem que alega defender. O herói conservador moderno é o populista desafiador, que se define pela transgressão e por “dizer as coisas como elas são”.
Quando a lei reprime opositores, é justiça, mas quando reprime aliados, torna-se “guerra jurídica”. Isso gera um complexo de mártir e uma identidade de queixa, espelhando a política de vitimização da esquerda.
A teoria da rivalidade mimética de René Girard explica essa dinâmica: rivais imitam desejos e métodos uns dos outros, tornando-se indistinguíveis. O liberalismo impõe conformidade em nome da diversidade, enquanto o conservadorismo celebra a transgressão em nome da ordem, num ciclo de imitação recíproca.
O Mecanismo do Bode Expiatório e a Metafísica da Privação
Comunidades expulsam “hereges” para preservar sua identidade. O liberal cancela o “intolerante”, o conservador o “RINO” (Republicano em Nome Apenas). Essas expulsões geram apenas unidade temporária, pois a desordem real permanece.
Exemplos como a marginalização de políticos por suas posições ou a intimidação de dissidentes dentro de partidos ilustram como a busca por bodes expiatórios impede a resolução de problemas latentes.
Segundo São Tomás de Aquino, o mal não tem existência real, mas é a ausência ou distorção do bem. Vícios políticos são corrupções de virtudes genuínas. A liberdade, separada da verdade, torna-se poder cego; a ordem, dissociada do amor, vira dominação.
O Caminho para a Paz: Correção Metafísica e Participação no Bem
A solução para essa guerra civil moral não reside no compromisso ou na conquista, mas na correção metafísica. É preciso resgatar a compreensão do ser como participação, onde a existência, inteligibilidade e bondade vêm de uma fonte transcendente.
A liberdade deve ser vista como participação na verdade, não escolha indeterminada. A ordem, como participação no amor, não como controle. O bem comum é a apreciação compartilhada dos maiores bens: florescimento humano, ordem moral, verdade e vida eterna.
A caridade, como forma das virtudes, aperfeiçoa e ordena as demais virtudes a um fim último. Essa reorientação moral e intelectual é o início da conversão, onde a compaixão liberal se purifica em misericórdia e a fidelidade conservadora se ordena em justiça.
A paz, para São Tomás de Aquino, é a “tranquilidade da ordem”. Não é a cessação da luta, mas a harmonia dos amores corretamente ordenados. Nossa civilização recuperará a paz ao resgatar a liberdade iluminada pela verdade e a ordem animada pela caridade, ancorando a política na metafísica.
Liberais e conservadores só servirão a essa paz superior se renunciarem à lógica do poder em favor da lógica da participação. Caso contrário, permanecerão prisioneiros do espelho, condenando no outro aquilo que se recusam a curar em si mesmos. O Evangelho e o tomismo oferecem um caminho para sair dessa rivalidade mimética, focando na recepção e partilha do bem.