Habib’s em Apuros: A Gigante das Esfihas Baratas Luta Contra Dívidas e Perda de Qualidade
O Habib’s, rede que se tornou sinônimo de esfiha barata no Brasil, atravessa sua pior crise em quase 40 anos de história. A empresa, controladora também da marca Ragazzo, teve cobranças e execuções de dívidas suspensas por 60 dias pela Justiça de São Paulo, em um passivo que ultrapassa os R$ 300 milhões.
A medida cautelar visa dar fôlego para negociações com credores, em um cenário que combina fatores externos, como a pandemia e a inflação, com críticas internas sobre a qualidade dos produtos e a falta de padronização. A situação coloca em xeque o modelo de negócios que consolidou a marca no mercado.
A empresa reconhece as dificuldades financeiras, mas garante que o atendimento aos clientes e o funcionamento das lojas não foram afetados. Conforme informação divulgada pela própria rede, o grupo Habib’s ingressou com o pedido de medida cautelar para negociar os passivos financeiros acumulados. Todas as lojas continuam operando normalmente, mantendo o padrão de qualidade e atendimento.
Um Cenário de Desafios Crescentes
A atual crise do Habib’s não é um evento isolado. Nos últimos anos, a rede tem enfrentado uma série de obstáculos. A pandemia de Covid-19 impactou o movimento nas lojas físicas, enquanto a ascensão dos aplicativos de entrega e a mudança nos hábitos de consumo intensificaram a concorrência.
Paralelamente, a alta da inflação elevou os custos operacionais, tornando desafiador manter a estratégia de preços baixos que sempre marcou a rede. Uma esfiha que custava R$ 0,99 há uma década agora é vendida por R$ 4,99, refletindo a pressão sobre as margens.
Mais recentemente, reclamações sobre a queda na padronização e na qualidade dos produtos ganharam força entre os consumidores. A arquiteta Estela Matheus de Arruda Botelho, por exemplo, relatou à Gazeta do Povo que a falta de constância nos preparos, como um Beirute que veio excessivamente torrado, a levou a diminuir a frequência de pedidos.
Histórico de Dificuldades e Adaptação
Mesmo antes da crise atual, o Habib’s já passou por momentos delicados. Em períodos de inflação alta, a rede enfrentou questionamentos de franqueados por manter preços baixos. A empresa também já foi alvo de denúncias trabalhistas e investigada por suspeita de fraude fiscal em 2014, por um suposto sistema eletrônico para omitir receitas.
O fundador, Alberto Saraiva, reconheceu em entrevista à rádio CBN que a gestão de despesas se tornou um ponto crucial após a pandemia. Ele destacou a necessidade de eliminar “excesso de gordura” para garantir a sustentabilidade do negócio. A expansão dos pequenos negócios de delivery também representou um novo desafio para a rede.
Cristina Souza, CEO da agência Tanjerin, especializada em foodservice, aponta que o delivery se tornou um canal importante, mas não pode ser o único. A concorrência acirrada nos aplicativos pressiona a precificação, e a manutenção de grandes estruturas físicas, como as do Habib’s, exige a presença do consumidor na loja.
Outro fator que agrava a situação é o aumento do endividamento das famílias, especialmente nas classes B, C e D, público-alvo da marca. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), em julho, 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas, levando muitos a cortar gastos com alimentação fora do lar.
Um Legado de Resiliência
Apesar dos desafios, Cristina Souza acredita no potencial de recuperação do Habib’s. Ela ressalta que grandes marcas brasileiras frequentemente enfrentam e superam crises, e que o Habib’s já demonstrou resiliência ao sobreviver a períodos de inflação galopante. A empresa tem investido em formatos menores, como quiosques e lojas express, buscando se adaptar ao novo cenário.
A história do Habib’s, fundado por Alberto Saraiva após a trágica morte de seu pai, é marcada por uma trajetória de empreendedorismo e adaptação. Saraiva herdou uma padaria em dificuldades e, com estratégias de preço baixo e foco na produção, construiu um império que popularizou a culinária árabe no Brasil. Nos anos 90, a rede ditava regras no mercado, consolidando a esfiha como um ícone acessível nos hábitos dos brasileiros.