Hungria elege novo líder: O fim da “democracia iliberal” de Orbán e as lições para a Europa
As eleições parlamentares na Hungria em 12 de abril de 2026 marcaram um ponto de virada significativo, interpretado tanto internamente quanto geopoliticamente. O resultado pode ser visto como a queda de um regime autoproclamado de “democracia iliberal” ou como uma vitória da Europa contra a interferência de figuras como Trump e Putin, apoiadores do ex-primeiro-ministro Viktor Orbán.
A satisfação em Bruxelas e o descontentamento dos partidos populistas de direita europeus com o desfecho eleitoral poderiam sugerir o início de uma nova era na política húngara. No entanto, a complexa história da Hungria, marcada por décadas de domínio estrangeiro e uma luta constante pela independência, continuará a influenciar o país.
Diferentemente de países da Europa Ocidental, onde a integração europeia goza de um consenso mais amplo, a Hungria, após quatro décadas sob regime comunista, defende ferozmente sua soberania. Essa resistência à perda de autonomia, imposta por impérios como o Otomano, Austríaco e Russo desde o século XVI, moldou a percepção do europeísmo como uma potencial ameaça à identidade nacional.
A ascensão de Viktor Orbán no início do século XXI, apesar de suas origens liberais, consolidou-o como um líder nacionalista. Ele convenceu a população de que a globalização e a União Europeia representavam uma ameaça aos interesses nacionais e à cultura húngara, comparando-a à imposição do comunismo por Moscou.
A retórica nacionalista e o isolamento de Orbán
Orbán enquadrou suas políticas como uma defesa da civilização europeia e do cristianismo, rejeitando o multiculturalismo e a imigração. Apesar das críticas de Bruxelas sobre concentração de poder e enfraquecimento do Estado de direito, ele nunca questionou a permanência da Hungria na UE. Sua força residia nas quatro vitórias eleitorais consecutivas do partido Fidesz desde 2010.
A União Europeia agiu com cautela, evitando a aplicação do Artigo 50º, que prevê a suspensão do direito de voto, pois isso poderia ter fortalecido partidos antieuropeus no continente. No entanto, a relação tensa resultou no congelamento de cerca de 18 bilhões de euros em fundos europeus para a Hungria.
O nacionalismo de Orbán, contudo, tornou-se sua própria ruína. A concentração de poder e a luta constante contra inimigos internos e externos o levaram a negligenciar as preocupações cotidianas dos cidadãos, como questões financeiras, emprego e acesso à saúde.
O “triunfo da geladeira sobre a televisão”: a economia decide
A crescente inflação, especialmente nos preços dos alimentos, corroeu o poder de compra de salários e poupanças, levando à estagnação econômica. Nesse cenário, a corrupção e o uso questionável de fundos públicos e europeus tornaram-se mais evidentes para os cidadãos.
Péter Magyar, um advogado de 45 anos e ex-líder do Fidesz, capitalizou esse descontentamento. Sua ascensão, à frente do partido Tiszta, não foi um terremoto ideológico, mas sim a estratégia de um político que percebeu a estagnação do regime de Orbán, apesar da propaganda estatal.
Magyar utilizou símbolos culturais húngaros, como o poema “Lúdas Matyi”, para retratar Orbán como um opressor, um novo Döbrögi que exercia poder ilimitado. A campanha de Magyar focou nas dificuldades econômicas, o que o público húngaro percebeu como o “triunfo da geladeira sobre a televisão”.
Novas relações com Bruxelas e o futuro da Hungria
A vitória de Magyar, com maioria absoluta, destituiu Orbán e abriu caminho para melhores relações com Bruxelas. Embora a Hungria mantenha uma postura cautelosa em relação à imigração, a melhoria das relações com a UE pode desbloquear fundos essenciais e auxiliar a Ucrânia no empréstimo de 90 bilhões de dólares.
A postura de Orbán em relação à Rússia, que contrastava com a história húngara de resistência ao domínio czarista e soviético, também pesou contra ele. A imagem de uma Hungria cada vez mais próxima de Putin, apesar de suas alegações de pragmatismo energético, gerou desconfiança.
A tentativa de Orbán de retratar a Ucrânia como uma ameaça existencial e de usar a minoria húngara no país como argumento também falhou. Da mesma forma, o apoio de figuras como JD Vance, vice-presidente dos EUA durante a campanha, alienou eleitores europeus desconfiados da agressividade de Trump.
O erro fatal de Orbán foi esquecer que a Hungria é parte da Europa. As preocupações econômicas e a percepção de corrupção superaram os slogans ideológicos, e a imagem de um governo alinhado a interesses que não se alinham aos da Europa Central selou seu destino. A Hungria agora busca um novo caminho, com foco nas necessidades de seus cidadãos e em relações mais construtivas com a União Europeia.