A queda de Viktor Orbán: O fim de uma era na Hungria após a vitória de Péter Magyar
As eleições parlamentares na Hungria em 2026 marcaram um ponto de virada significativo, interpretado tanto internamente quanto geopoliticamente. A derrota de Viktor Orbán, que se autodefinia como defensor de uma “democracia iliberal”, foi vista por muitos como uma vitória da Europa contra a influência de figuras como Trump e Putin, apoiadores do então primeiro-ministro.
A satisfação em Bruxelas e o descontentamento dos partidos populistas de direita europeus com o resultado poderiam sugerir o início de uma nova era. No entanto, a complexa história da Hungria, moldada por séculos de dominação estrangeira e um forte sentimento nacionalista, continuou a influenciar o cenário político.
A Hungria, ao contrário de países da Europa Ocidental, não possui um consenso amplo sobre o processo de integração europeia. A perda de soberania, implícita no europeísmo, encontra resistência em uma nação que suportou quatro décadas de regime comunista. Conforme informações divulgadas pela Aceprensa, a Hungria defende ferozmente sua independência, tendo sido subjugada historicamente por impérios. O nacionalismo húngaro, após a queda do Império Austro-Húngaro e o Tratado de Trianon em 1920, que resultou na perda de dois terços do território, buscou expressões de autonomia.
A ascensão do nacionalismo de Orbán e o confronto com a UE
No início do século XXI, Viktor Orbán, apesar de suas origens liberais, tornou-se o principal expoente do nacionalismo húngaro. Ele argumentou convincentemente que a globalização e a União Europeia eram contrárias aos interesses nacionais e à cultura húngara, equiparando-as a uma uniformidade imposta de fora, semelhante ao comunismo imposto por Moscou.
Orbán enquadrou suas políticas como uma defesa da civilização europeia e do cristianismo, rejeitando o multiculturalismo e a imigração. Apesar das críticas de Bruxelas sobre a concentração de poder e o enfraquecimento do Estado de direito, ele jamais questionou a permanência da Hungria na UE. Seu partido, o Fidesz, venceu quatro eleições consecutivas desde 2010, um feito notável na Europa.
A relação tensa com Bruxelas levou ao congelamento de cerca de 18 bilhões de euros em fundos europeus. A UE, por sua vez, agiu com cautela, evitando a suspensão do direito de voto de Orbán, pois isso poderia ter fortalecido partidos antieuropeus em todo o continente.
O erro fatal: nacionalismo e negligência das preocupações populares
Viktor Orbán tornou-se vítima de seu próprio nacionalismo. A concentração de poder político e a luta constante contra inimigos internos e externos, características de regimes nacionalistas, levaram à negligência das preocupações cotidianas dos cidadãos: pagar contas, encontrar emprego e ter acesso a serviços de saúde eficientes.
A corrupção, associada à concentração de poder, gerou insatisfação popular. O governo de Orbán tentou dificultar a vitória da oposição, reduzindo o Parlamento, redesenhando distritos eleitorais e alterando o sistema de distribuição de cadeiras para beneficiar o Fidesz.
A ascensão de Péter Magyar e o “triunfo da geladeira sobre a televisão”
A derrota de Orbán não se deveu a um terremoto ideológico, mas sim à ascensão de Péter Magyar, um advogado de 45 anos, ex-líder do Fidesz e fundador do partido Tiszta. Magyar venceu com maioria absoluta, capitalizando o descontentamento popular gerado pela estagnação do regime, apesar da propaganda governamental.
A campanha de Magyar utilizou símbolos da cultura húngara, como o poema “Lúdas Matyi”, retratando Orbán como um opressor. O fator decisivo para a derrota de Orbán foi a situação econômica, descrita como o “triunfo da geladeira sobre a televisão”. A inflação crescente e a diminuição do poder de compra geraram estagnação econômica e maior percepção da corrupção.
Magyar focou sua campanha nessas questões, enquanto o governo de Orbán respondeu com desumanização e polarização. A aproximação de Orbán com Putin e a retórica contra a Ucrânia também afastaram eleitores. O apoio de figuras como JD Vance, vice-presidente de Trump, não surtiu o efeito esperado, pois a rejeição à agressividade de Trump na Europa é crescente.
O futuro da Hungria e as relações com Bruxelas
Péter Magyar tem o desafio de atender às aspirações do movimento social que o levou ao poder. A melhoria das relações com Bruxelas é crucial para resolver os problemas econômicos, sem que isso signifique abandonar a postura cautelosa em relação à imigração.
Magyar pode facilitar o desbloqueio do empréstimo de US$ 90 bilhões da UE para a Ucrânia, mas sua integração rápida à Europa pode ser vista com cautela, especialmente devido à situação da minoria húngara na Ucrânia.
Um dos maiores erros de Orbán foi esquecer que a Hungria é parte da Europa, apesar das tentativas de projetar uma identidade distinta. A situação econômica e a corrupção pesaram mais que slogans ideológicos, e a imagem de um governo alinhado a interesses que não se coadunam com os de um país da Europa Central, como os de Trump e Putin, também foi determinante para a sua queda.