Investigação da Polícia Civil de SP sobre lavagem de dinheiro do tráfico de drogas alcança o Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas de ligações com esquemas do Banco Master e fraudes no INSS.
Uma investigação ambiciosa, batizada de Operação Saturno, iniciada pela Polícia Civil de São Paulo em 2024, desvendou uma complexa rede de lavagem de dinheiro que movimentou cerca de R$ 48 bilhões em cinco anos. A operação, que partiu da prisão de um traficante, agora aponta para possíveis elos com fraudes financeiras de grande repercussão, como as envolvendo o Banco Master e o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A Polícia Civil rastreou uma intrincada teia de contas bancárias, empresas de fachada e pessoas físicas utilizadas para dissimular a origem de recursos provenientes do tráfico de drogas. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foram cruciais para mapear as transações suspeitas, que agora estão sob análise do mais alto tribunal do país.
A descoberta dessas conexões ocorreu após a quebra do sigilo bancário do traficante preso e de seu fornecedor, revelando um fluxo contínuo de dinheiro através de empresas interpostas. A complexidade do esquema, que envolvia desde operadores financeiros a pessoas de baixa renda usadas como “laranjas”, levou ao envio do caso ao STF, conforme informações divulgadas pela Polícia Civil de São Paulo.
A Conexão com o Banco Master e o Cinema
A investigação identificou uma série de transações suspeitas que ligam a lavagem de dinheiro do tráfico a operações do Banco Master. Uma distribuidora, a Maguinific, teria repassado R$ 7,5 milhões, oriundos da venda de drogas, para a Nexpay, uma fintech de pagamentos. A Nexpay, por sua vez, utilizava o Banco Master para realizar operações de câmbio destinadas a vendedores na China.
Outra ligação com o Master surge de transferências no valor de R$ 940 mil de uma empresa chamada Wave para a Entre Investimentos e Participações. Este grupo financeiro mantinha fundos no Master e é suspeito de ter sido utilizado pelo banqueiro Daniel Vorcaro para direcionar recursos à produção do filme “Dark Horse”, que retrata o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo a Polícia Civil, a empresa Wave é peça-chave na dissipação de valores obtidos ilicitamente, atuando em diversos esquemas criminosos, incluindo o tráfico de drogas, conforme detalhado na Operação Saturno.
Suspeitas de Ligação com Fraudes do INSS
A suspeita de envolvimento com as fraudes do INSS surgiu a partir de repasses significativos da Prospect Consultoria Empresarial, de propriedade do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, para a empresa Arpar Administração, Participação e Empreendimento. Foram R$ 13,7 milhões transferidos.
A Arpar, por sua vez, teria distribuído esses recursos para um grupo de outras cinco empresas, também sob suspeita de receberem dinheiro proveniente do tráfico. A investigação aponta que muitas dessas empresas intermediárias foram abertas em nome de “laranjas”, indivíduos de baixa renda que cediam seus documentos em troca de pagamentos mensais.
Um “Sistema Financeiro Paralelo” Desvendado
O relatório final da Operação Saturno descreve a descoberta de um “SISTEMA FINANCEIRO PARALELO“, operando à margem dos controles legais. Nesse sistema, operadores oferecem uma gama de serviços ilícitos, desde a abertura fraudulenta de contas até o câmbio paralelo, lucrando com a dissimulação de valores.
O Ministério Público de São Paulo concordou com o envio do caso para a Justiça Federal, destacando a sofisticação do esquema. O órgão ressaltou o uso de contas de terceiros, empresas sem atividade real, fintechs, bancos digitais e criptoativos para pulverizar e recompor os recursos, tornando sua rastreabilidade extremamente difícil.
O Ministério Público Federal (MPF) opinou pelo envio do caso ao STF, considerando a possível conexão com investigações em andamento na Corte, supervisionadas pelo ministro André Mendonça, que incluem os inquéritos do Master e do INSS. No entanto, o MPF ressalvou que a conexão direta pode não ser comprovada, pois esquemas paralelos frequentemente operam de forma independente.
Empresas da Operação Saturno Já Apontadas em Investigações do PCC
Estruturas empresariais semelhantes às encontradas na Operação Saturno, como as empresas Wave e Arpar, já haviam sido identificadas em investigações sobre redes de lavagem de dinheiro ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Documentos da CPMI do INSS indicaram que a Wave recebeu R$ 514,5 milhões da Victory Trading, empresa de Victor Shimada, sancionado pelos EUA por suposta ligação com lavagem de dinheiro da facção.
A empresa Wave também foi apontada como parte da chamada rede Arpar, utilizada para lavar recursos de diversos esquemas criminosos. Em nota enviada à Folha de S. Paulo, a Entre Investimentos afirmou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro” e reforçou seu compromisso com a integridade e transparência.
O inquérito chegou ao gabinete do ministro André Mendonça no STF no último dia 12, sob segredo de justiça. Até o momento, o ministro não tomou providências. As defesas de Antônio Carlos Camilo Antunes e Daniel Vorcaro não se manifestaram sobre as suspeitas levantadas na investigação.