Governo Lula mira retaliação econômica contra EUA, mas teme ‘tiro pela culatra’ com custos para o Brasil
A decisão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ameaçar aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica em resposta à nova sobretaxa anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, no início de junho, é vista por analistas como um instrumento de negociação mais do que uma alternativa prática de retaliação.
O temor é de que uma escalada comercial acabe impondo custos ao próprio Brasil, com impacto sobre preços, investimentos e competitividade da indústria nacional. A preocupação foi manifestada pelo ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).
Para Zema, a Lei da Reciprocidade deve ser tratada como um instrumento de pressão, mas sua aplicação exige cautela para evitar que os prejuízos recaiam sobre o próprio Brasil, conforme informações divulgadas em fontes jornalísticas.
Lei da Reciprocidade: Instrumento de pressão ou risco econômico?
Romeu Zema alertou que medidas de reciprocidade podem afetar setores econômicos nacionais, como turismo, comércio e serviços. Ele argumentou que o fluxo de brasileiros que buscam viver ou viajar para o exterior é muito superior ao movimento inverso, o que reduziria a eficácia de eventuais medidas retaliatórias.
Na avaliação do ex-governador, a lei aprovada pelo Congresso deve permanecer como uma alternativa disponível ao governo, mas sua utilização não pode ocorrer de forma automática. “É algo que deve ser sempre colocado sobre a mesa, mas não de maneira automática. É preciso ponderar e calibrar muito bem isso”, disse.
Enquanto o governo acusa aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de atuarem contra os interesses nacionais junto à gestão do presidente Donald Trump, parlamentares da oposição sustentam que a crise comercial é resultado da deterioração das relações diplomáticas entre Brasília e Washington durante o atual governo.
Disputa política e acusações mútuas
Em nota, o governo federal manifestou “indignação” com a conclusão preliminar da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. O texto atribui a abertura do processo à atuação da família Bolsonaro e cita a recente viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Washington como parte de uma suposta tentativa de pressionar autoridades americanas contra o governo brasileiro.
A reação teve resposta da oposição. O senador Flávio Bolsonaro negou qualquer atuação contra os interesses econômicos brasileiros e afirmou que as medidas adotadas pelos Estados Unidos refletem preocupações com a situação institucional brasileira. Segundo ele, a solução para o impasse passa pelo restabelecimento da segurança jurídica e pelo fim do que considera perseguições políticas contra adversários do governo Lula.
Na mesma linha, parlamentares da oposição passaram a criticar a possibilidade de o Brasil acionar a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso, para permitir retaliações comerciais a países que imponham barreiras consideradas discriminatórias aos produtos brasileiros.
O argumento predominante é de que o governo deveria priorizar canais diplomáticos e buscar uma solução negociada com Washington, evitando medidas que possam agravar o conflito comercial. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), tem defendido que o governo abandone o discurso de confronto e concentre esforços na reconstrução da relação com os Estados Unidos.
Cautela na aplicação da Lei da Reciprocidade
Parlamentares envolvidos diretamente na elaboração da Lei da Reciprocidade defendem que o instrumento seja utilizado apenas como último recurso nas negociações com os Estados Unidos. A relatora da proposta no Senado, Tereza Cristina (PP-MS), afirmou que a reciprocidade deve ser aplicada somente após o esgotamento das tentativas de diálogo entre os dois países.
“A reciprocidade é quando você esgota todas as fases de negociação. Eu acho que é claro que o Brasil vai ter que se esforçar um pouco mais nessa negociação. Sentar mais à mesa, ter paciência”, afirmou a senadora.
A avaliação é compartilhada pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS), e pelo senador Marcos Pontes (PL-SP). Os dois integraram uma missão parlamentar que esteve nos Estados Unidos em 2025 para negociar a retirada das tarifas impostas por Washington e defendem que o Brasil priorize os canais diplomáticos antes de recorrer a medidas retaliatórias.
Impacto da sobretaxação na indústria nacional
Embora a Lei da Reciprocidade permita ao governo elevar tarifas sobre bens e serviços americanos, especialistas avaliam que a escolha dos alvos será determinante para medir o custo político da medida. Boa parte dos produtos importados dos Estados Unidos é utilizada como insumo pela indústria brasileira, incluindo máquinas, equipamentos, tecnologia e produtos químicos.
Uma eventual sobretaxação poderia aumentar custos de produção, pressionar preços internos e reduzir a competitividade de empresas nacionais. A própria legislação estabelece que as contramedidas devem buscar minimizar impactos sobre a atividade econômica brasileira e evitar custos desproporcionais para empresas e consumidores.
Por isso, a avaliação de especialistas é de que a Lei da Reciprocidade funciona mais como um instrumento de pressão e fortalecimento da posição negociadora do país do que como uma ferramenta destinada à adoção imediata de retaliações amplas. O desafio para o governo será encontrar medidas que imponham custos aos Estados Unidos sem produzir efeitos colaterais mais significativos sobre a economia brasileira.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, avalia que a aplicação da lei pode fortalecer a posição brasileira nas negociações, mas exige cautela para evitar efeitos colaterais sobre a própria economia nacional. “A aplicação da Lei da Reciprocidade pode funcionar como uma faca de dois gumes”, disse.
As novas sanções anunciadas pelos Estados Unidos têm como base uma investigação comercial que aponta supostos “atos onerosos” do Brasil em áreas como comércio digital e tarifas preferenciais. Por outro lado, a própria decisão americana exclui diversos produtos estratégicos para a pauta exportadora brasileira, entre eles carne bovina e café.
Embora o governo tenha à disposição os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade, a avaliação predominante entre especialistas e parlamentares envolvidos no tema é de que o instrumento tem maior valor como ferramenta de negociação do que como medida de aplicação imediata, especialmente diante do risco de que parte da conta recaia sobre empresas e consumidores brasileiros.