Decisão de Lula de barrar acesso de inspetores dos EUA a urnas brasileiras repercute mundialmente
A recusa do governo brasileiro em conceder vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado americano, que manifestaram interesse em verificar a integridade do sistema eleitoral do país, gerou repercussão internacional neste sábado (25).
A notícia, inicialmente divulgada pelo jornal The Washington Post, aponta que a Casa Branca planejava enviar uma delegação para discutir temas relacionados às eleições presidenciais de outubro, incluindo a segurança e transparência das urnas eletrônicas.
A iniciativa partiu do Ministério das Relações Exteriores, que rejeitou os pedidos de visto de Riley Barnes e Samuel Samson, ambos subsecretários americanos, pouco antes do início oficial das campanhas eleitorais. Conforme informação divulgada pela imprensa, a decisão brasileira visa evitar a semeadura de dúvidas sobre a confiabilidade do processo eleitoral nacional.
Temores de interferência e declaração de Lula
O jornal The New York Times sugeriu que a decisão de barrar a delegação americana seria um reflexo do aumento das tensões entre os dois países, citando tarifas impostas ao Brasil e divergências ideológicas recentes. A agência de notícias Bloomberg informou que Brasília considerou a visita uma tentativa de interferência eleitoral.
Em evento em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou que o Brasil não permitirá interferências externas nas eleições. “Quem de fora quiser se meter nas eleições brasileiras vai apanhar muito aqui nas eleições. Quem vai decidir o destino desse país são 157 milhões de eleitores”, afirmou o presidente.
A declaração de Lula foi vista como uma mensagem direta ao veto imposto à missão norte-americana, reforçando a posição do governo em defender a soberania eleitoral brasileira.
Motivações e versões dos fatos
O jornal britânico Financial Times destacou que autoridades brasileiras, sob condição de anonimato, acreditaram que a visita americana poderia ser usada para “disseminar desinformação” sobre o processo eleitoral, possivelmente em coordenação com filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. A reportagem mencionou declarações recentes de Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro sobre a desconfiança nas urnas eletrônicas.
Em contrapartida, o Departamento de Estado americano negou veementemente que a visita tivesse como objetivo interferir nas eleições brasileiras. Em nota oficial, a pasta classificou a iniciativa como uma “visita de rotina” e as alegações de intenção de desacreditar o sistema eleitoral como “mentira sem fundamento”.
Reações e posicionamentos divergem
A decisão do Itamaraty gerou reações diversas. O jornalista Paulo Figueiredo criticou a medida, sugerindo que o governo estaria “forçando a barra” para ter uma eleição sem reconhecimento internacional, comparando a situação com a da Nicarágua ou Venezuela.
Por outro lado, políticos alinhados ao governo Lula defenderam a posição. O pré-candidato Ronaldo Caiado (PSD) afirmou confiar nas urnas eleitorais e considerou “inadmissível” que qualquer país conteste a lisura das eleições brasileiras. O deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) elogiou a atitude do Itamaraty, destacando a superioridade das urnas eletrônicas brasileiras em comparação com as americanas.
A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) ligou o caso às declarações de Flávio Bolsonaro, afirmando que o Itamaraty agiu corretamente ao defender a “soberania” brasileira.
TSE se pronuncia e convida diplomatas
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que foi procurado pela Embaixada dos EUA para tratar da visita, mas não foi informada sobre a temática da agenda. O tribunal ressaltou que o ministro Kássio Nunes Marques já realizou reuniões com embaixadores para explicar o funcionamento do sistema eletrônico de votação.
O TSE confirmou que realizará um novo encontro com embaixadores em 17 de agosto e que a diplomacia dos EUA será convidada. O órgão também mencionou que a Organização dos Estados Americanos (OEA), a União Europeia e outros órgãos internacionais já aceitaram o convite para compor a Missão de Observadores Eleitorais para as eleições de outubro.