Lula sobe o tom em embate comercial com os EUA, preocupando empresários e especialistas em comércio exterior.
A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de intensificar a crítica aos Estados Unidos diante de uma nova ofensiva comercial americana tem gerado apreensão no setor empresarial. Especialistas temem que o aumento da tensão possa prejudicar negociações em curso entre os dois países.
A preocupação surge após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propor a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. Essa medida, baseada na Seção 301 da legislação comercial americana, visa sanções contra práticas consideradas injustas e pode elevar a alíquota efetiva média sobre exportações brasileiras de 12,2% para 18,5%.
Nos bastidores, a iniciativa já era esperada. Desde que a Suprema Corte americana derrubou tarifas anunciadas anteriormente, analistas avaliavam que a Casa Branca buscaria outros instrumentos legais para sustentar sua política comercial. A investigação baseada na Seção 301 era vista como um plano alternativo, mas o momento da divulgação intensificou o uso político do tema. Conforme informação divulgada pelas fontes, até então, a expectativa do setor privado era de resolução por meio de negociações conduzidas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e pelo Itamaraty.
Retaliação americana e a reação de Lula
A nova medida americana, caso implementada, representa um aumento significativo nas tarifas sobre produtos brasileiros, o que acendeu um sinal de alerta entre os empresários. O presidente Lula reagiu veementemente, acusando o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de ser um “inimigo mortal de vários países latino-americanos” e sugerindo sua influência na decisão de avançar com as tarifas.
Em discursos recentes, Lula também criticou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), chamando-o de “traidor” e “vendilhão da pátria”, por supostamente pedir interferência de autoridades americanas em assuntos internos do Brasil. Essas declarações, que incluíram uma referência histórica à Inconfidência Mineira, levaram Flávio Bolsonaro a anunciar uma representação contra o presidente no Supremo Tribunal Federal (STF).
O impacto da retórica eleitoral nas negociações comerciais
Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e consultor, a retórica eleitoral está interferindo em uma negociação que deveria permanecer focada em canais diplomáticos e comerciais. Ele avalia que o discurso simplificado de ambos os lados, impulsionado pelo ano eleitoral, dificulta o trabalho dos negociadores brasileiros.
“O que está havendo é um discurso simplificado dos dois lados por conta do processo eleitoral, o que é esperado no ano eleitoral”, afirma. “O governo de Trump também está sob muita pressão lá por causa das eleições de novembro [para o Congresso americano]. A grande questão é que esse discurso conflitante dentro do Brasil atrapalha nossos negociadores.”
Divergências antigas e o papel do etanol nas tensões
Embora o governo brasileiro considere a iniciativa americana politicamente motivada, analistas apontam que parte das divergências comerciais são antigas. Um dos pontos centrais é o etanol, com o Brasil aplicando uma tarifa de importação de 18% sobre o combustível americano, enquanto os EUA cobram cerca de 2,5% sobre o etanol brasileiro. Essa assimetria é um exemplo de longa data no comércio bilateral.
Uma redução dessa tarifa, ou uma ampliação do acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, poderia ter sido usada como moeda de troca nas negociações. No setor industrial, as tarifas brasileiras chegam a 35% no setor automotivo, o que também é visto como um entrave para acordos de liberalização, apesar de o governo argumentar que as barreiras seguem regras da OMC.
Contestação do protecionismo e a ameaça de reciprocidade
Por outro lado, o argumento do protecionismo brasileiro é contestado por parte do empresariado. José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), afirma que, no setor de máquinas, a tarifa média efetiva aplicada pelo Brasil aos EUA é de cerca de 6%, abaixo das alíquotas nominais. Ele ressalta que o Brasil mantém um déficit comercial com os EUA e não fecha mercado.
Velloso critica a investigação americana, classificando-a como “uma iniciativa muito mais política do que econômica”. Ele argumenta que usar um pretexto comercial para justificar decisões políticas distorce completamente a negociação. A pressão aumentou com uma nova frente de investigação americana sobre trabalho forçado, com proposta de tarifa adicional de 12,5% sobre produtos de países investigados.
O risco de escalada e a busca por negociação
Em resposta, o governo brasileiro discute a possibilidade de acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, que permite contramedidas contra países que impõem barreiras consideradas injustificadas. Isso eleva o risco de uma escalada nas tensões comerciais. Velloso considera que a ameaça e o endurecimento do discurso contra os EUA não são benéficos neste momento.
“O Brasil não deve retaliar e nem lançar mão da lei de reciprocidade”, afirma. “Subir o tom não é bom. O ideal seria todo mundo sentado numa mesa negociando.” O cientista político Daniel Favetti avalia que, apesar da politização, os canais institucionais de negociação não devem ser confundidos com o ambiente de campanha eleitoral, mantendo a capacidade de produzir avanços.