Nova Prisão de Vorcaro Expõe Isolamento da PGR e Alinhamento de Mendonça com a PF no Caso Master
A terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quarta-feira (4), revelou um alinhamento significativo do ministro André Mendonça, novo relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), com a Polícia Federal (PF). Paralelamente, a Procuradoria-Geral da República (PGR) se viu em uma posição de isolamento.
Ao determinar a nova prisão do banqueiro Daniel Vorcaro e de outros investigados, Mendonça atendeu integralmente aos pedidos da PF, sem objeções. Em contrapartida, o ministro expressou críticas contundentes à PGR, responsável por opinar sobre as diligências, por não ter se posicionado favoravelmente às ações solicitadas.
Essa conjuntura contrasta com o cenário de menos de um mês atrás, quando as investigações eram supervisionadas por Dias Toffoli. Toffoli deixou a relatoria após uma série de medidas consideradas heterodoxas pela PF e pela revelação de relações suspeitas com o próprio Vorcaro. A informação é do g1.
Urgência nas Prisões e Ameaças Reveladas
Na sua decisão, Mendonça destacou a urgência das prisões e de outras medidas restritivas. A necessidade se deu diante da descoberta de ameaças de violência física proferidas por Vorcaro contra ex-funcionários e um jornalista. Além disso, foram identificados monitoramento de autoridades e obtenção ilegal de informações sigilosas em órgãos como a PF, o Ministério Público e até mesmo na Interpol e no FBI.
Mensagens interceptadas pela PF detalharam que Vorcaro autorizou um capanga, Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, a agredir o jornalista Lauro Jardim. “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, teria escrito Vorcaro, em resposta à publicação de notícias desfavoráveis.
Em outra conversa, Vorcaro instruiu Mourão a obter o endereço de uma empregada que o estaria ameaçando, com a frase: “É mole? Tem que moer essa vagabunda”. Diálogos indicam ainda que Mourão monitorava um ex-funcionário de Vorcaro.
A “Milícia Privada” e o Financiamento das Ações
As investigações apontam que Felipe Mourão recebia R$ 1 milhão por mês de Fabiano Zettel, cunhado e operador de Vorcaro, também preso. Esse valor seria destinado a custear as atividades de um grupo que funcionava como uma “milícia privada”, denominada “A Turma”. Essa organização contava, inclusive, com a participação de um escrivão aposentado da própria PF.
Diante da gravidade dos fatos, Mendonça lamentou a posição contrária da PGR. O órgão ministerial, em sua manifestação, afirmou não ver “indicação de perigo iminente, imediato”. A PGR recebeu os requerimentos da PF na sexta-feira (27), com um prazo de 72 horas que expirou na segunda-feira (2), para avaliar medidas que incluíam o afastamento de dois servidores do Banco Central e a suspensão de cinco empresas ligadas ao grupo de Vorcaro.
“Lamenta-se porque as evidências dos ilícitos e a urgência para adoção das medidas requeridas estão fartamente reveladas na representação da Polícia Federal e no curso desta decisão”, escreveu Mendonça. Ele acrescentou a importância de se prevenir condutas ilícitas contra a integridade física de cidadãos, jornalistas e autoridades públicas.
Críticas da PGR e a Defesa de Vorcaro
Na visão da PGR, o prazo de 72 horas foi “exíguo” para analisar pedidos complexos envolvendo dez pessoas físicas e cinco jurídicas. O órgão argumentou que seria “impossível” uma manifestação sobre todas as medidas em tão curto período, considerando a alta complexidade dos fatos e a intensidade da interferência nos direitos fundamentais dos investigados.
A PGR também não vislumbrou “indicação de perigo iminente, imediato” que justificasse uma análise tão rápida. Procuradores citaram que a mensagem sobre o plano de agressão a Lauro Jardim seria de junho do ano passado, questionando a contemporaneidade da ameaça.
Por outro lado, a defesa de Daniel Vorcaro negou a intenção de intimidar jornalistas, afirmando que suas mensagens foram tiradas de contexto. A assessoria declarou que o empresário sempre respeitou a imprensa e que eventuais manifestações exaltadas ocorreram em caráter privado, sem objetivo de ameaça ou violência. A defesa reiterou a confiança no devido processo legal.
Decisão de Mendonça e Próximos Passos
Mendonça ressaltou a robustez dos indícios coletados pela PF para decretar as prisões, demonstrando que a permanência dos investigados soltos representava risco à instrução criminal, à ordem pública e à futura aplicação da lei penal.
O ministro determinou que os presos fiquem em penitenciárias estaduais, consideradas mais adequadas para “permanência prolongada”. Todos passarão por audiência de custódia nesta quinta-feira (5), e Mendonça proibiu que os magistrados soltem os investigados por conta própria, restringindo essa decisão ao relator do caso.
A perspectiva de prisão prolongada reforça a possibilidade de delações premiadas no âmbito da investigação. A Segunda Turma do STF julgará a decisão de Mendonça a partir do dia 13, podendo referendar ou reverter as prisões.