A carne de coelho no Brasil: uma promessa que não se concretizou na década de 80
Nas décadas de 1970 e 1980, o Brasil vislumbrou na carne de coelho uma alternativa proteica acessível e nutritiva. Em meio à busca por fontes de proteína mais baratas que a carne bovina, a cunicultura se apresentou como uma solução promissora, impulsionada pela facilidade de criação, rápido crescimento e excelente conversão alimentar dos animais.
O interesse não se limitou aos produtores, o próprio poder público investiu em programas de incentivo. Estados como São Paulo e Pernambuco, além de municípios em diferentes regiões, criaram projetos de apoio à cunicultura familiar, oferecendo cursos, cartilhas técnicas e consultoria. A primeira cooperativa de cunicultores paulista contou com o suporte da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) e da Unesp.
No Rio de Janeiro, a Secretaria de Agricultura promoveu cursos gratuitos, e um projeto com apoio da Petrobras e da FAO, em 1984, levou noções de cunicultura a escolas municipais, inclusive com a carne de coelho na merenda escolar. A principal iniciativa, porém, foi o programa Nosso Coelho, no Paraná, a partir de 1985, que visava criar 40 cooperativas e empregar 20 mil produtores em um sistema de agricultura familiar, com apoio do governo federal. Essas informações foram divulgadas em matérias da época e em publicações especializadas.
O potencial nutricional e a versatilidade do coelho
A carne de coelho se destacava pelo seu alto valor nutricional. Era rica em proteínas e ferro, com teor de gordura significativamente menor que o da carne suína e metade da de frango. Além disso, apresentava teores superiores de cálcio e fósforo, conforme estudos da época. Um estudo publicado no Reino Unido em 2010 reforçou essa vantagem, mostrando que coelhos, em criações eficientes, convertem até 20% da proteína consumida em carne, superando suínos e bovinos nesse quesito.
A versatilidade do animal ia além da carne. A pele era requisitada pela indústria de vestuário, o couro podia substituir a camurça em acessórios, as vísceras eram aproveitadas para fabricação de farinha e os dejetos, após tratamento, serviam como adubo. Leandro Dalcin Castilha, ex-presidente da Associação Científica Brasileira de Cunicultura, ressalta que o coelho é um animal extremamente versátil, oferecendo uma gama de produtos e serviços para a humanidade, sendo o animal mais versátil existente.
A facilidade de manejo era outro ponto forte. O coelho é dócil, silencioso, praticamente inodoro e ocupa pouco espaço. Sua ração, com alto teor de celulose, tinha baixo valor agregado. Essas características permitiam a criação em pequenas propriedades rurais e até em áreas urbanas, conforme destacou Castilha.
Das vacinas à carne: uma introdução tímida no Brasil
A cunicultura chegou ao Brasil de forma discreta por volta dos anos 1950, trazida por colonos italianos. Inicialmente, os coelhos eram criados para a produção de láparos, filhotes usados na fabricação de vacinas contra a febre aftosa, utilizados por instituições como o Instituto Butantã e a Fundação Oswaldo Cruz. Com o advento de novas tecnologias para a produção de vacinas, como a que utiliza ovos de galinha embrionados, esse mercado se perdeu.
Muitos criadores desistiram, mas alguns optaram por investir na produção de carne de coelho. Apesar de o consumo da carne de coelho ser popular em países europeus, como parte da dieta mediterrânea, no Brasil o animal era visto mais como um animal de estimação. Na União Europeia, conforme um documento do Parlamento Europeu, os coelhos eram o segundo animal mais explorado, embora o consumo estivesse em declínio. Em 2010, o abate anual chegava a 326 milhões de cabeças na UE, com Itália, Espanha e França liderando a produção.
A euforia dos anos 80 e o declínio inesperado
Com os incentivos públicos na década de 1980, a criação de coelhos no Brasil experimentou um crescimento notável. Criadores amadores em fundos de quintal deram lugar a produtores especializados, e empresas surgiram oferecendo insumos e formação. A população de coelhos chegou a quase 1 milhão de cabeças, segundo o IBGE. A mídia da época reforçava o otimismo, com reportagens em revistas agrícolas prevendo que o Brasil seria um exportador global.
Um zootecnista, Márcio Infante Vieira, chegou a afirmar em 1986 que o coelho poderia resolver o problema da fome no mundo, devido à sua capacidade de produzir carne rapidamente. A mensagem era de que qualquer pessoa, com instrução adequada, poderia cuidar de uma criação de coelhos. Contudo, após essa euforia inicial, as iniciativas para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva sólida fracassaram.
O crescimento dos criadouros não foi acompanhado pela indústria de abate e processamento. A falta de frigoríficos especializados limitou o destino da carne ao mercado doméstico ou informal, impedindo a expansão. Além disso, o estranhamento cultural do consumidor brasileiro, que via o coelho como animal de estimação, foi um obstáculo significativo. A renúncia do governador do Paraná, responsável pelo programa Nosso Coelho, e a descontinuidade da iniciativa pelo governo seguinte em 1987, foram marcos desse declínio.
Muitos produtores ficaram no prejuízo, sem para quem vender sua produção. A percepção geral passou a ser de que a cunicultura era um mau negócio. A população de coelhos começou a diminuir a partir de 1987, e em 1995, um artigo científico destacou que, apesar das condições naturais favoráveis, o Brasil não desenvolveu uma cadeia produtiva ampla e popular. A criação de coelhos se tornou um mercado de nicho, fragmentado e quase artesanal, e a promessa de uma potência exportadora se dissipou.
O cenário atual e as perspectivas futuras
Atualmente, a Coelho Real, em Mairinque (SP), é o único abatedouro do país habilitado para exportação, mas sua capacidade é insuficiente para atender à demanda interna. O Censo Agropecuário de 2017 indicou 200,3 mil cabeças de coelhos em 16,2 mil estabelecimentos, com a maior concentração na região Sul. Para Leandro Castilha, o Brasil ainda pode desenvolver a cunicultura para exportação, adaptando o modelo de sucesso de outras pecuárias, como a bovina, de aves e de suínos, que também não são nativas do país mas se tornaram referências mundiais.