O Vitimismo na Política Brasileira: Como o Sofrimento se Tornou Moeda de Poder e Domínio

O Vitimismo na Política Brasileira: Como o Sofrimento se Tornou Moeda de Poder e Domínio

Resumo

A Gramática do Vitimismo: Quando a Queixa Vira Arma Política no Brasil e no Mundo

A política brasileira contemporânea, assim como a de outros países, tem sido marcada por uma estratégia discursiva peculiar: o uso do sofrimento como ferramenta de poder. Figuras proeminentes de diferentes espectros políticos, como Lula e Bolsonaro, exemplificam essa tendência, utilizando narrativas de perseguição para consolidar ou recuperar posições de influência.

A análise foca menos na veracidade factual das alegações e mais em como essas narrativas operam simbolicamente no espaço público. O ponto convergente entre esses líderes é a capacidade de governar a partir da posição de vítima, transformando a narrativa de perseguição em motor de sua atuação política.

Essa dinâmica é descrita pelo filósofo Pascal Bruckner como uma nova sensibilidade em que o sofrimento se torna credencial, a queixa vira identidade e a vítima, uma figura sacralizada. Essa lógica, resumida em “sofro, logo existo”, ecoa em democracias ocidentais e se aprofunda em análises filosóficas sobre a natureza humana e social.

A Sacralização da Vítima e a Política como Novo Sagrado

O filósofo Pascal Bruckner, em suas décadas de estudo sobre o que chama de “vitimismo”, aponta para uma transformação profunda em nossa sociedade. O sofrimento, antes visto como algo a ser superado, agora é elevado a uma espécie de credencial de valor, e a queixa se consolida como um elemento central da identidade individual e coletiva. Essa inversão é resumida na máxima “je souffre donc je suis” (sofro, logo existo).

Essa “gramática moral e afetiva” não é exclusiva do Brasil, mas se estende por diversas nações. Bruckner rastreia suas origens até a figura do Cristo sofredor, um Deus que se fez mártir. Essa imagem, secularizada e disseminada, encontra eco no centro da política moderna, onde a vitimização se torna um passaporte para o reconhecimento e o poder.

René Girard, por sua vez, explora a mecânica do processo vitimário. Para ele, toda cultura se organiza em torno de um bode expiatório, para onde a violência social é canalizada. O cristianismo, ao revelar a inocência da vítima, buscou interromper esse ciclo sacrificial. Paradoxalmente, essa revelação levou à sacralização da figura da vítima, um lugar de prestígio incontestável em uma sociedade que perdeu seus referenciais de transcendência.

A Ira Acumulada: Do Banco Metafísico à Política

Peter Sloterdijk, em sua obra “Ira e Tempo”, oferece uma perspectiva sobre a origem e a gestão da ira. Ele destaca que a primeira palavra da Europa na Ilíada é “mênin” (ira), e não amor ou razão. Em um mundo homérico, a ira era uma força constitutiva. Contudo, a questão moderna é o que fazer com a ira quando não há campo de batalha nem inimigo nomeável.

A resposta cristã, segundo Sloterdijk, foi domesticar a ira através da transferência. Ao invocar a promessa de uma vingança divina futura, o cristianismo criou um “banco metafísico da ira”, onde as indignações eram depositadas. A morte de Deus, proclamada por Nietzsche, significou a falência desse banco, levando a ira acumulada a buscar novos depositários na história e na política.

As guerras mundiais e regimes como o nazismo e o stalinismo são vistos por Sloterdijk como resultados catastróficos desse redirecionamento. Movimentos como o marxismo e o anarquismo, em grande medida, funcionaram como “bancos da ira”, captando o ressentimento e convertendo-o em projetos históricos, como a Revolução Russa, liderada por Lenin, que pode ser lida como uma operação de “banco mundial da ira” em escala industrial.

O Vitimismo Contemporâneo: Identidade e Poder

O vitimismo contemporâneo, sem o horizonte escatológico de um Juízo Final, busca o reconhecimento imediato. A “beatificação laica” substitui a canonização religiosa, com retratos de “mártires” adornando publicações progressistas com a mesma solenidade que imagens de santos em altares.

O processo é similar: um postulante, testemunhos de sofrimento e uma comunidade que valida a narrativa. A palavra “vítima”, originalmente ligada ao animal sacrificial e ao Cristo, migrou para designar seres humanos e, em tempos recentes, tornou-se uma categoria de identidade disputada e um passaporte para o reconhecimento social.

A série “Succession” ilustra essa dinâmica: personagens ricos e poderosos competem para ver quem sofreu mais, com o orgulho e a autoafirmação (o que Sloterdijk chama de “thymós”) traduzidos na linguagem do sofrimento. A legitimidade deixa de ser baseada no que se faz e passa a ser baseada no que “lhe foi feito”. A vítima que alcança o poder necessita de uma nova perseguição para sustentar sua identidade.

A psicanálise freudiana, ao focar no polo erótico da alma (desejo, falta) e ignorar o polo timótico (orgulho, ira, coragem), contribuiu para a criação de um tipo humano definido pela ausência e pela ferida. Essa convergência com a teologia cristã, que historicamente desvaloriza o orgulho, resulta em uma suspeita sobre qualquer energia de autoafirmação.

O vitimismo contemporâneo opera transformando essa energia em queixa: “exijo reconhecimento pelo que sofri”, em vez de “exijo reconhecimento pelo que sou e fiz”. Essa dinâmica leva à imunização contra questionamentos e à transformação da crítica em prova da acusação, consolidando-se como uma **gramática de poder operada por quem o detém, para garantir sua manutenção**.

A Ira sem Mediação e o Declínio da Deliberação Democrática

Em uma sociedade em colapso, como retratado em “The Walking Dead”, os verdadeiros monstros são os humanos que disputam o título de vítima para justificar a violência. Sem um árbitro transcendente, resta apenas a força bruta e a disputa pelo reconhecimento.

Sloterdijk identifica isso como a forma projetiva da ira sem a mediação civilizatória. Resta a ira bruta, cega, sem projeto, levando a uma reivindicação de um “direito à ira” não regulado, que culmina em violência “justificada”. A constatação de Nietzsche, “Sofro, logo alguém é responsável”, resume esse mecanismo: sempre há um culpado a ser encontrado.

A ira, em sua forma mais elementar, pode ser vista como um ato de “generosidade” perversa, onde o irado se sente rico o suficiente para presentear o mundo com sofrimento adicional. Surge a ideia de “justiça distributiva”, onde o sofrimento precisa ser redistribuído equitativamente, pois certos grupos carecem dele para sua “plenitude”.

Essa lógica é reconhecível em muitas militâncias atuais, onde se percebe uma injusta distribuição do sofrimento e a necessidade de corrigi-la. O problema não é a compaixão pelo sofrimento alheio, mas o vitimismo como uma **gramática de poder que capta ressentimentos e os converte em capital político**.

Os partidos de esquerda, em sua análise, funcionavam como “bancos da ira”, prometendo justiça futura. Com o colapso do comunismo, esses depósitos foram redistribuídos em fundos identitários, cada um prometendo vingança e exaltação dos humilhados. A questão que permanece é: por que a condição de vítima se tornou tão insuportável a ponto de buscarmos incessantemente novos algozes?

A hipótese é que nossos antepassados, com a ideia de um Juízo Final, estavam mais preparados para lidar com a impotência diante da injustiça. Sem esse horizonte, a pressão por retribuição imediata recai sobre instituições democráticas, que começam a se organizar em torno do ressentimento, e não da deliberação. Os mecanismos racionais de consenso já não dão conta da intensidade afetiva no espaço público.

O Papel do Judiciário e a Instrumentalização do Ressentimento

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF), ao atuar como árbitro em disputas que deveriam pertencer ao debate democrático, ocupou o lugar de um “Deus-juiz”. A imparcialidade, condição de eficácia simbólica, foi contestada, resultando na devolução da ira ao espaço social sem mediação.

Quando ministros se associam a candidatos, decisões seguem linhas políticas e a “curadoria do discurso público” é declarada atribuição do tribunal, o “banco metafísico” fecha contas com facções, e a ira retorna às ruas. Surge um autoritarismo instrumental, onde o estado de exceção corretivo nunca se retira.

Partidos e movimentos que exploram a ira populista não inventam esse capital moral, apenas o instrumentalizam, herdando contas bancárias secularizadas pela modernidade sem alternativas institucionais equivalentes. A crítica ao vitimismo não é um ataque às vítimas reais, mas à gramática que converte sofrimento em moeda e queixa em identidade.

Raymond Aron, em “O Ópio dos Intelectuais”, já identificava esse mecanismo, onde o marxismo se tornou uma religião secular, imune ao teste da realidade. No Brasil, a gramática do vitimismo dita as regras do debate público, operada por quem detém poder, transformando a crítica em prova da acusação e garantindo a manutenção desse poder. O que está em jogo, no limite, não é quem sofre, mas quem melhor administra o sofrimento como instrumento de domínio.

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